Paquistão luta contra corrupção e erros políticos para manter luzes acesas

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Falta de energia elétrica atinge proporções de crise com algumas cidades do país ficando até 22 horas sem luz

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A falta de energia elétrica, algo que acontece há anos no Paquistão, alcançou proporções de um crise. As luzes chegaram a ficar apagadas por ao menos 10 horas por dia em cidades importantes, e até 22 horas nas áreas rurais. Com o forte calor do verão – as temperaturas alcançaram 47 °C em Lahore em maio – os paquistaneses tomaram as ruas para protestar contra o caótico estado do sistema de eletricidade do país.

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Homem espera sentado em frente à fábrica a volta da luz em Lahore, Paquistão (23/5)

Médicos e enfermeiras fizeram piquetes em frente a hospitais, reclamando da falta de água limpa e alegando que tiveram de cancelar cirurgias. Manifestantes queimaram pneus, bloquearam o tráfego e apedrejaram companhias elétricas.

Alunos não conseguem estudar para suas provas, necrotérios têm dificuldades com corpos apodrecendo, e mesmo os mais ricos reclamam que seus caros geradores não estão dando conta – em alguns casos, eles explodem pelo excesso de uso.

Na tentativa de acalmar os descontentes, o governo interino, que controlava o país até a posse do premiê Nawaz Sharif, ordenou que os servidores públicos desligassem os aparelhos de ar-condicionado e parassem de usar meias, pois sandálias são mais apropriadas em ambientes quentes.

A crise é produto de múltiplos fatores, de usinas elétricas decrépitas a linhas de transmissão esfaceladas, tudo devido a décadas de acúmulo de erros políticos. Um motivo, porém, se sobrepõe aos outros: a maioria dos paquistaneses não paga suas contas.

O sistema está paralisado por uma dívida de US$ 5 bilhões (R$ 10,65 bilhões), basicamente uma cadeia de contas não quitadas, vindas de todos os níveis sociais, de departamentos do governo a políticos ricos e moradores de favelas. Sem dinheiro para pagar por combustível, os provedores de eletricidade têm desacelerado ou desligado completamente as usinas.

Como assunto político, a eletricidade atiça mais a opinião pública do país do que a militância islâmica. A vitória de Sharif nas eleições de 11 de maio deve-se em parte ao apelo de seus slogans prometendo um “Paquistão brilhante” e “o fim das trevas”.

“Isso não é como encontrar a cura para o câncer; as pessoas sabem o que precisa ser feito”, diz Robert M. Hathaway, diretor para o programa da Ásia no Woodrow Wilson International Center in Washington, D.C. “O problema é implementação – e encontrar vontade política”, completa.

A crise atingiu de forma grave a província natal de Sharif, Punjab. Na cidade de Kharian, o empresário Malik Mazhar Iqbal Awan possui uma fábrica de mármore. No pátio externo, trabalhadores sentam-se em silêncio ao lado da máquina de corte, esperando pelo retorno da energia. Há apenas poucos anos, Awan empregava 25 funcionários; hoje são 6.

“Não posso pagar os salários sendo que eles trabalham apenas umas poucas horas por dia”, diz o empresário, que votou em Sharif, um antigo barão do aço. “Ele é um industrial, pensa diferente dos outros."

Além de diminuir a dívida de US$ 5 bilhões, especialistas dizem que há outros problemas estruturais, exacerbados pela interferência política e corrupção sistêmica. Roubo de eletricidade é prática comum entre ricos e pobres. Moradores de favelas fazem conexões ilegais, enquanto poderosos simplesmente se recusam a pagar as contas. Policiais e funcionários da empresa de eletricidade não cortam a energia por medo de retaliações.

Trabalhador dorme do lado em quintal para fugir do calor de sua casa devido às quedas de energia em Lahore, Paquistão (23/5). Foto: NYTIrin Arif limpa sua casa durante queda de energia em Lahore, Paquistão (23/5). Foto: NYTFuncionário aguarda retorno de eletricidade em uma pequena fábrica de mármore em Kharian, Paquistão (23/5). Foto: NYTPessoas e veículos percorrem estrada de Lahore, Paquistão, durante queda de energia. Foto: NYT

A corrupção é notória no sistema energético privado, no qual aliados de políticos ganham contratos lucrativos, frequentemente com custos inflados e baixa produção. Em 2011, o auditor geral registrou que o governo pagou US$ 1,7 milhão (R$ 3,21 milhões) nesses contratos, que aumentaram apenas em 62 megawatts a produção energética nacional.

Um dos candidatos de mais destaque das eleições recentes, Raja Pervez Ashraf, o último premiê do país, ficou marcado pela crise energética. Depois de ele ter perdido sua vaga no parlamento em uma derrota esmagadora, foi intimado em maio pela agência nacional anticorrupção a responder a acusação de ter recebido subornos milionários de companhias estrangeiras em projetos de energia.

Outros países, em partes do Oriente Médio e África subsaariana, também enfrentam falta de energia. Mas nenhum deles possui armas nucleares ou uma população crescendo tão rápido.

Por Declan Walsh e Salman Masood

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