Cerco anticorrupção da China leva à morte de membros do Partido Comunista

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Por sistema extrajudicial utilizado, réus podem apanhar, passar fome e serem privados de sono para confessar

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Oficialmente, a causa da morte foi falência respiratória, mas imagens circulando nas mídias sociais chinesas em junho — um homem magro olhando para o vazio em uma cama de hospital, com seu corpo coberto de hematomas e cicatrizes — contam uma história diferente.

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O homem, Qian Guoliang, 48 anos, é o terceiro funcionário chinês em três meses a morrer na prisão durante investigações por parte do Partido Comunista. Sua morte deu-se dois meses depois de começar a ser submetido a um procedimento investigativo extrajudicial reservado a membros do Partido. O caso voltou a trazer à tona questionamentos sobre os esforços chineses para deter a corrupção.

Xi Jinping, o novo líder da China, afirmou recentemente que a falta de controle da corrupção poderia ameaçar a própria sobrevivência do Partido Comunista. Ele começou uma campanha de “retificação do partido” para acabar com o desperdício, a burocracia e a corrupção, atingindo desde autoridades do topo até as posições mais baixas.

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Nos últimos meses, vários antigos membros do partido tornaram-se alvo de investigações, incluindo Liu Tienan, um dos mais importantes planejadores da economia do país, e Ni Fake, ex-vice-governador da província de Anhui. Liu Zhijun, ex-ministro das estradas, foi a julgamento em junho, acusado de receber milhões de dólares de suborno. Bo Xilai, secretário em Chongqin, está preso há mais de um ano acusado de corrupção e abuso de poder.

O Partido Comunista usa um sistema secreto de detenções conhecido como shuanggui para investigar e disciplinar seus membros. O mecanismo fica fora do sistema legal, com grande potencial de abusos.

“O shuanggui tem suas próprias regras; ele não segue as leis”, diz Fu Hualing, professor do direito na Universidade de Hong Kong. O sistema permite prisões por tempo indeterminado e os réus podem apanhar, passar fome e serem privados de sono para forçar confissões.

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“A prática está acima e fora da lei, e é muito frequente. Ela é extremamente perigosa e temo que esta não será a última morte”, diz o advogado Si Weijiang, contratado pela família de Qian, e que representa as famílias dos outros dois que morreram sob custódia.

Notícias sobre abusos contra suspeitos de crimes normalmente causam comoção pública na China, mas a simpatia por membros do Partido que morreram sob custódia é sobreposta por uma grande raiva popular contra a corrupção.

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“Nas pesquisas, a corrupção é sempre o principal tema de preocupação popular”, diz o professor Fu. “Enquanto o shuanggui for usado como uma arma anticorrupção, acho que ele vai ter apoio do público de forma geral.”

Os funcionários de cargos mais baixos são os que enfrentam os tratamentos mais duros durante as investigações. Jia Jiuxiang, 49 anos, funcionário de um tribunal na província de Henan, morreu em 23 de abril, após 11 dias detido. O laudo diz que ele teve um ataque cardíaco, mas a família conta que o corpo estava inchado e machucado.

Yu Qiyi, de 41 anos, engenheiro de uma estatal na cidade de Wenzhou, morreu dia 9 de abril, depois de cinco semanas preso. Seis pessoas foram presas e acusadas de ataque intencional relacionado à morte, segundo a família de Yu.

Qian, o último a morrer enquanto era investigado, era chefe do escritório de sismologia na província de Hubei. Detido em 8 de abril, ele foi enviado ao hospital no dia 3 de junho depois que começou a sofrer convulsões e perdeu a consciência. Até agora a família não recebeu nenhuma explicação oficial sobre o que se passou com Qian.

Segundo sua esposa, Qian sabia que estava em andamento uma caçada para encontrar certos funcionários corruptos, mas ele não estava preocupado. “Não sabemos quem será o próximo a ser preso, mas eu estou limpo e posso dormir tranquilamente”, ele teria dito à mulher antes de ser preso.

Por Mia Li e Any Qin

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