Países que derrubaram ditaduras têm conflitos políticos e sectários em meio à situação econômica periclitante

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Na Líbia, milícias armadas preencheram o vácuo deixado depois que a revolução derrubou o ditador . Na Síria, o movimento popular se transformou em uma guerra civil que deixou mais de 100 mil mortos e um campo fértil para extremistas islâmicos. Na Tunísia, divisões políticas cada vez mais profundas atrasaram a redação da nova Constituição.

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Corpos jazem em hospital durante confrontos entre forças de segurança e partidários do presidente Mohammed Morsi, perto da mesquita Rabaah al-Adawiya em Nasr City (14/8)
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Corpos jazem em hospital durante confrontos entre forças de segurança e partidários do presidente Mohammed Morsi, perto da mesquita Rabaah al-Adawiya em Nasr City (14/8)

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E agora, no Egito, frequentemente considerado o lançador de tendências no mundo árabe, o Exército e as forças de segurança, depois de deporem o presidente islâmico eleito, mataram centenas de seus partidários , declarando estado de emergência e piorando a profunda polarização da sociedade.

Está claro que o antigo status quo da região, dominado por governantes autoritários que armavam o resultado de eleições, governavam por decretos e anulavam a dissidência, foi profundamente danificado, se não completamente derrubado, nos três anos desde o início do movimento conhecido como Primavera Árabe . Isso foi ilustrado na quarta-feira no Egito, quando a volta das táticas repressivas do passado foi recebida com profunda indignação por manifestantes islâmicos, que haviam provado o poder.

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O que ainda não está claro, no entanto, é o modelo que substituirá o antigo. A maior parte dos levantes populares viraram duras disputas, uma mistura de batalha política sobre as regras de participação no poder, sobre as relação entre Exército e governo, sobre o papel da religião na vida pública, e ainda sobre o que significa ser um cidadão.

Historiadores e analistas do Oriente Médio dizem que a estagnação política e econômica sob as décadas de regimes autocráticos deixaram os países árabes mal preparados para construir novos governos e sociedades civis. Enquanto alguns dos movimentos alcançaram seus objetivos iniciais ao remover líderes de quatro países, suas metas mais amplas – democracia, dignidade, direitos humanos, igualdade social e segurança econômica – agora parecem mais distantes do que nunca.

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“A antiga ordem regional se foi, a nova está sendo escrita com sangue e vai levar tempo”, disse o analista politico Sarkis Naoum no jornal libanês An Nahar. “Apesar das diferenças nos regimes, as populações de todos esses países vivem sob repressão similar, por isso os levantes foram contagiosos. Mas ninguém na Síria, Líbia, Egito ou Tunísia estava preparado para o que veio depois”, afirmou.

Partidário de Mohammed Morsi se desespera enquanto amigo que foi ferido pelas forças de segurança recebe tratamento em mesquita no Cairo, Egito (16/8)
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Partidário de Mohammed Morsi se desespera enquanto amigo que foi ferido pelas forças de segurança recebe tratamento em mesquita no Cairo, Egito (16/8)

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De muitas formas, a Primavera Árabe revelou e exacerbou divisões profundas das sociedades, entre seculares e islâmicos, e entre diferentes seitas religiosas. “Esta é a polarização política com esteróides. Você tem ambos os lados tentando se banir mutuamente da política”, afirmou Jeffrey Martini, um especialista em Oriente Médio da RAND Corporation.

Na Tunísia, o berço da insurreição , o partido islâmico moderado agora no poder foi incapaz de alcançar consenso suficiente para o projeto da nova constituição, e líderes da oposição foram assassinados . No reino do Bahrein, no Golfo Pérsico, a violenta força da monarquia sunita no poder não conseguiu silenciar a dissidência da maioria xiita do país.

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A exclusão política também afligiu a transição no Egito. Depois de ganhar as eleições pós-revolucionárias, Mohamed Morsi, agora presidente deposto, e seus aliados da Irmandade Muçulmana enfrentaram dura oposição dos que os acusavam de perverter a democracia de forma a assumirem o monopólio do poder.

Por toda a região, os levantes não conseguiram dar uma boa resposta às demandas de milhões de cidadãos comuns, que pediram por mudanças como mais empregos, comida, assistência médica, dignidade. Alguns problemas até pioraram.

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“A maioria das economias afetadas pela Primavera Árabe já estava indo na direção errada. De certa forma, a Primavera expôs problemas mais amplos – países fragmentados, com crescimento populacional grande demais, sistemas educacionais terríveis, pouca água”, disse Joshua M. Landis, diretor do centro de estudos do Oriente Médio da Universidade de Oklahoma.

O tumulto atual deixou muitos ativista árabes desiludidos com os movimentos, nos quais eles investiram um esforço tremendo e frequentemente arriscaram suas vidas.

Esse é cada vez mais o caso na Síria, onde o movimento pró-democracia originalmente pacífico evoluiu para uma guerra civil sectária , com grupos rebeldes extremistas que rejeitam o jogo democrático ganhando um papel mais e mais importante no campo de batalha.

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“No início, era uma revolução real – fiquei empolgado em atuar, comprei armas do meu próprio bolso, vendi terras para comprar munição. Agora está completamente diferente”, disse Soheil Ali, que até recentemente liderou um pequeno grupo rebelde no norte da Síria.

Ali abandonou a luta frustrado com o que chamou de corrupção entre os líderes rebeldes e a tendência de alguns grupos de armazenar armas em vez de usá-las para lutar contra o adversário comum, o presidente Bashar al-Assad.

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Historiadores dizem que mudanças políticas fundamentais em qualquer lugar do mundo podem levar anos, ou gerações. A Primavera de Praga de 1968, por exemplo, fracassou, mas serviu de catalisadora para mudanças na Europa Oriental que levaram ao colapso da União Soviética nos anos 1990. Eles acreditam que as convulsões no Egito, ou em qualquer outro país, são dolorosas, mas inevitáveis.

“Não estou descartando essas transições, só acredito que estamos a caminho de um período de extrema instabilidade”, afirmou Mona Yacoubian, conselheira sobre o Oriente Médio do Stimson Center, um grupo de pesquisa de Washington.

Outros notam que esses tumultos frequentemente obscurecem mudanças sutis, mas profundas na sociedade. Por exemplo, o especialista em direito constitucional Ziad al-Ali, baseado no Cairo, diz que agora se tornou normal cidadãos de países da Primavera Árabe insultar os governantes – algo impensável há apenas poucos anos.

“Essa dinâmica liberdade de expressão, de liberdade política onde agora você tem vários partidos e as pessoas se expressando livremente, isso vai nos levar a uma mudança positiva em longo prazo”, afirmou.

Por Ben Hubbard e Rick Gladstone

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