Casos de violência sexual afugentam turistas mulheres da Índia

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Preocupado com a queda de 35% de visitantes mulheres, governo cria medidas para proteger turistas de abusos

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Dheeraj Dixit costumava ganhar US$ 2 (R$ 4,30) por dia batendo fotos de turistas nos arredores do Portal da Índia, um grande monumento no sul do país. Mas a série de ataques a mulheres e os protestos internacionais que se seguiram deixaram Dixit preocupado. “A imagem da Índia é arranhada quando incidentes como esses acontecem. É uma infelicidade, além de muito ruim para os negócios”, diz.

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AP
Turista alemã Carolina De Paola, 22 anos, caminha perto do Portal da Índia em Mumbai (2/4/2013)

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As visitas de turistas mulheres caíram 35% nos primeiros três meses do ano, em comparação ao mesmo período do ano passado, segundo as Câmaras Associadas do Comércio e da Indústria da Índia. Esse período de três meses veio depois de uma estudante de 23 anos ter sido estuprada em ônibus e morta por vários homens em Nova Délhi em dezembro. O crime provocou manifestações nas ruas, que chamaram atenção ao assédio e intimidação que as mulheres sofrem todos os dias no país.

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Apesar de as taxas oficiais de estupro per capita na Índia estarem abaixo das de muitos países desenvolvidos, especialistas acreditam que muitos dos ataques sexuais não são reportados, e o número real é bem mais alto. O ultraje público com o ataque de dezembro levou à aprovação em março de uma nova lei que impõe penalidades mais duras à violência contra a mulher e criminaliza ações como perseguição e voyeurismo.

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Mas os ataques a mulheres continuaram com uma regularidade alarmante. Apesar de as indianas serem as vítimas mais frequentes, turistas estrangeiras também sofrem. Uma turista americana de 30 anos foi estuprada por vários homens em uma cidade do norte em junho. Ela reconheceu três deles, que foram acusados e estão sob prisão provisória.

No dia 15 de março, um grupo de homens estuprou uma turista suíça de 39 anos em Madhya Pradesh. Quatro dias depois, uma britânica de 25 anos fugiu pela sacada do seu quarto de hotel, temendo ser atacada pelo dono do local.

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AP
Turista Amy Manson da Inglaterra tira fotos perto do Portal da Índia em Mumbai (2/4/2013)

“Com os recentes casos de estupro bem frescos na minha mente, viajo pela Índia sentindo muito mais ansiedade do que normalmente sinto quando estou viajando por outros países”, diz a americana Corinne Aparis, 24 anos, que está atualmente em Udaipur, no oeste da Índia. “Dá medo pensar que apenas por ser mulher alguns homens podem me ver como alvo para tal violência.”

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A Índia não pode se dar ao luxo de perder o dinheiro que os turistas injetam em sua economia. O crescimento econômico está se desacelerando – em 2012 foi de apenas 5%; em 2010 havia sido de mais 9% – e o governo precisa de moeda estrangeira para pagar pelo petróleo e carvão que importa.

Um total de 6,4 milhões de turistas estrangeiros visitaram a Índia no ano passado, um número menor do que os que foram a países como França, ou até a cidades como Nova York. Mas esses turistas fazem uma importante contribuição para a economia e são vitais para trabalhadores como Dixit.

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O turismo representa 6% do PIB do país e é responsável por 10% do emprego formal, ou 20 milhões de postos. Estima-se que 60 a 70 milhões de de indianos vivam do turismo de maneira informal, como Dixit. A visita de estrangeiros traz US$ 18 milhões (R$ 38,5 milhões), o que representa 20% do déficit de conta corrente do país, segundo dados oficiais.

Dixit não é o único a se preocupar com a imagem da Índia entre as mulheres. O governo e a indústria do turismo estão se esforçando para tranquilizar possíveis visitantes. Estados criaram forças policiais para proteger turistas, hotéis separaram áreas exclusivas para mulheres, e há excursões com grupos apenas de mulheres e que emprestam celulares a todas as clientes.

O Ministério do Turismo também criou um linha telefônica de ajuda gratuita, disponível em várias línguas, que será atendida por mulheres e servirá como um serviço de concierge – mas que também fornecerá o número da delegacia mais próxima, caso seja solicitado.

Juntamente com as medidas para melhorar a segurança, operadores da indústria do turismo dizem que a Índia precisa reconstruir sua imagem. “Precisamos dizer ao mundo que as cidades indianas são tão seguras e inseguras como quaisquer outras metrópoles”, disse Arun Varma, chefe-executivo da empresa de viagens Prime Travels.

Por Neha Thirani e Heather Timmons

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