Posição neutra na Síria torna Crescente Vermelho alvo dos dois lados do conflito

Por NYT |

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Apesar de supervisionados por governo, voluntários atuam de forma imparcial - e alguns pagam alto preço por isso

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Dentro do cordão de postos de controle governamental que circundam a capital síria, moradores se acostumaram com o estouro dos morteiros. Sobre a cidade voam todas as noites projéteis lançados das bases no topo do monte Qasioun, que dá vista para a cidade. Para a maioria, o estrago do impacto deixado por eles fica apenas na imaginação, enquanto para os jornais estatais os projéteis estão atingindo “terroristas”, rebeldes liderados por estrangeiros que estão destruindo a cultura antiga e diversa do local.

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Hamza, voluntário no Crescente Vermelho da Síria, é visto em local de explosão em Damasco, Síria (07/04)


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Mas os membros das equipes de ambulâncias do Crescente Vermelho Árabe da Síria estão entre os poucos que regularmente veem o que acontece do outro lado. Como todos os voluntários da entidade, eles não têm permissão para falar de política abertamente. Mas passam pelos postos e, ao voltar, contam a amigos e parentes o que viram. Nem sempre os relatos condizem com a descrição do governo.

“Claro que estão atingindo civis, e sabem disso”, afirmou um voluntário que fumava e conversava com colegas. “Não há inimigo externo, estamos matando compatriotas. Os civis estão pagando o preço, dos dois lados”, disse Mohamed, aluno de Odontologia, também voluntário.

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O que faz esses relatos se destacarem é que os voluntários moram e trabalham em Damasco, onde um comentário errado sobre a rebelião contra o presidente Bashar al-Assad pode levar à prisão por tempo indeterminado ou a algo pior. E eles trabalham para uma organização que, como todas as instituições de caridade legais na Síria, é fiscalizada pelo governo.

Sua missão, dizem os voluntários, é levar ajuda a quem estiver precisando, não importa qual seja a filiação política da vítima. No conflito altamente polarizado do país, isso significa algo muito radical. Alguns voluntários pagaram um preço alto: ao menos 17 já foram mortos, por ambos os lados, ao tentar ajudar feridos ou entregar mantimentos, segundo o diretor de operação do Crescente, Khaled Erksoussi. Há dezenas de detidos pelo governo, acrescenta.

O Crescente Vermelho da Síria tem 14 seções e 84 subsseções, um reflexo da diversidade política de suas comunidades. Algumas trabalham inteiramente em áreas controladas pelos rebeldes – são chamadas por oficiais de segurança do governo de “o Crescente Vermelho do mau”. A seção de Damasco, chefiada por um empresário próximo a Assad, é vista pela oposição como uma ferramenta do Estado, acusada de ajudar desproporcionalmente regiões pró-Assad.

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Mas, durante o último ano, algumas das equipes de Damasco se esforçaram para atingir a neutralidade. O Crescente Vermelho tem um bom incentivo para tentar ser neutro; estão em jogo milhões de dólares que líderes da oposição no exílio tentam tirar da organização para dar aos seus próprios grupos de ajuda ou a outras agências internacionais que eles consideram mais imparciais.

Mas membros da ajuda humanitária internacional dizem que a evolução do grupo deve-se sobretudo a novos voluntários, ansiosos por uma ação civil significativa, e que levam muito a sério a missão de servir a ambos os lados.

Os voluntários se comunicam com as forças de segurança e com os rebeldes para cruzar as linhas de batalha. Frequentemente a permissão é negada e, mesmo que seja concedida, não significa proteção.

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Simplesmente por terem visto pessoalmente áreas controladas pela oposição e retornado com suas impressões, os voluntários podem ser encarados como uma ameaça. O governo, por exemplo, retrata os rebeldes sunitas como assassinos de minorias. Mas uma voluntária cristã, que usa uma cruz pendurada ao pescoço, disse que não se sentiu ameaçada nas áreas rebeldes. “Não há o que temer. Não se trata de uma seita contra a outra, mas de oposição contra governo”, falou.

Os voluntários, que sempre pedem para serem identificados apenas com os primeiros nomes por questão de segurança, têm de lidar com memórias dolorosas, como as de pessoas cavando com as próprias mãos construções em ruínas atrás de sobreviventes ou de corpos mutilados por carros-bombas dos rebeldes ou ataques aéreos do governo.

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Voluntários do Crescente Vermelho Árabe da Síria esperam por chamadas de emergência em uma de suas clínicas em Damasco (07/04)

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Mohammed diz que é assombrado pela imagem de um casal e seu filho de 2 anos. Um foguete atingiu a casa da família no subúrbio de Moadhamiya, controlado pelos rebeldes. Todos ficaram gravemente feridos. Enquanto a equipe de Mohammed tentava ressuscitá-los, a ambulância se desestabilizava com buracos na estrada e várias vezes foi parada; primeiro pelos rebeldes, depois por soldados do governo. Apenas a mãe sobreviveu.

“Tudo estava contra nós apenas porque tentávamos mantê-los vivos. Um cara dizia ‘Vocês podem ir’, então outro dizia ‘Não pode’. E nós perdíamos tempo”, relatou.

Os celulares dos voluntários tocam constantemente. Eles precisam tranquilizar seus parentes que ainda estão vivos. Hamza e seu irmão trabalham sempre em ambulâncias diferentes, pois, se uma delas for atingida, não morrerão os dois. Mas o trabalho lhes dá um novo propósito.

“Quando você salva uma alma, vê o sorriso de uma criança, isso te dá energia por meses”, disse Mohammed. “Passei a amar meu país. Muitos de nós começam a ter uma sensação real de pertencimento”, afirmou Raghad.

Por Anne Barnard, Damasco

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