Consumo de álcool reflete embate entre seculares e religiosos na Turquia

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Entre manifestantes da Praça Taksim, tentativa do governo de restringir bebidas era a queixa mais frequente

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Depois de retomar à Praça Taksim em Istambul, depois de horas de confrontos com policiais, muitos dos fatigados manifestantes abriram garrafas de cerveja e levantaram um brinde irônico ao primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, que recentemente redigiu uma lei restringindo o consumo de bebidas alcoólicas.

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Turcos tomam cerveja na Praça Taksim, Istambul

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E mesmo em Isparta, uma região religiosa e conservadora que apoia amplamente Erdogan, um pequeno grupo de residentes, com os copos nas mãos, se reuniu na frente do escritório do governo local, aliado do premiê, e brindou: “Saúde, Erdogan”.

As bebidas não são o único assunto que levou aos intensos protestos antigoverno que sacudiram a Turquia por semanas. Mas elas se tornaram a queixa mais frequente dos manifestantes lutando contra o que dizem ser o crescente autoritarismo do governo.

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Elas também estão no centro da questão sobre a identidade turca, com ambos os lados considerando o tema como uma briga entre os valores islâmicos e seculares. Os manifestantes veem o estabelecimento de novos limites para se beber como uma afronta aos valores seculares da Turquia moderna. Erdogan disse que “a religião demanda” controles à bebida. O premiê chegou a se referir implicitamente a Mustafa Kemal Ataturk, fundador da Turquia moderna e conhecido por beber bastante, como “bêbado”, e numa série de discursos acusou os manifestantes de levar bebidas para dentro de mesquitas.

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Há sinais, no entanto, de que a tentativa de limitar o álcool pode estar perdendo força. Um tribunal local de Istambul determinou o fim de uma lei regional que restringia a venda e o consumo de álcool. O mesmo aconteceu em uma pequena comunidade nos arredores de Ancara, a capital do país.

O presidente Abdullah Gul, que ainda precisaria assinar o texto para ele entrar em vigor, levantou a possibilidade de veto, ao dizer que levaria em consideração a opinião pública.

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Mas apesar de a defesa do álcool ter se tornado neste momento um assunto nacional, o número dos que não bebem supera por larga margem o dos que bebem.

Em Isparta, terra natal de um importante líder muçulmano, mesmo antes da proposta de lei nacional a comunidade já inibia o consumo de álcool. Mas Isparta é uma cidade universitária, e alguns residentes bebem. Esse grupo fez com que o debate ganhasse nova força também na cidade.

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"Não é uma questão religiosa. Para nós é questão de bêbados, brigas e violência contra a mulher", diz o prefeito, Yusuf Gunaydin, que, como a maioria dos moradores, é abstêmio. Mas ele acrescenta: "E, é claro, no Islã, beber álcool é haram (pecado)."

Turan Eroglu, gerente de um dos poucos bares com permissão para funcionar no centro de Isparta, compara os planos de Erdogan e seu partido, o AKP, a atos de um brutal sultão otomano que reinou no século 17. “Estamos voltando ao tempo de Murad 4º, quando o álcool era banido. O AKP está nos fazendo retroceder. Isso só acontece no Irã – e agora, também na Turquia”, disse.

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Para além das considerações religiosas, o álcool faz parte da história da Turquia. Para o bem ou para o mal, a bebida está fortemente associada a Ataturk, que passou a beber muito quando frequentou a Faculdade de Guerra de Istambul.

Beber se tornou uma marca dos valores seculares na sociedade e, no passado, soldados que não bebiam era vistos como amigos dos islâmicos e enfrentavam dificuldades para serem promovidos.

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Na Turquia, escolhas de vida como usar véu ou não, beber ou não, são altamente politizadas. Jenny White, antropóloga da Universidade de Boston que recentemente publicou um livro sobre as mudanças no país durante a década em que Erdogan esteve no poder, descreve o ato de beber na Turquia como uma “forte marca de classe social, estilo de vida e valores políticos”.

Em um bar de Istambul, Cagri Tazgel, de 25 anos, que trabalha em uma companhia de softwares, coloca a questão da bebida não só como religiosa, mas como uma divisão de classes. "A Turquia é um país de pessoas sem estudo e com forte sentimento religioso – é isso que o AKP representa. Mas este não é o meu governo. No fim das contas, talvez eu acabe deixando o país."

Por Tim Arango

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