Chat criptografado e reunião secreta possibilitaram expor vigilância dos EUA

Por NYT | - Atualizada às

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Edward Snowden orquestrou um plano elaborado para revelar a jornalistas os segredos do monitoramento de telefones e comunicações online pelo governo americano

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A fonte instruiu os seus contatos para que viajassem a Hong Kong, fossem até uma parte incomum de um certo hotel e pedissem em voz alta informações para chegar a uma outra entrada do local. Se tudo parecesse estar de acordo, a fonte passaria por eles segurando um cubo mágico.

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Ônibus passa perto de cartaz em apoio a Edward Snowden, ex-técnico da CIA que vazou documentos ultrassecretos, em distrito central de Hong Kong (17/06)

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Então três pessoas – Glenn Greenwald, um ativista de direitos civis que recentemente hospedou seu blog no The Guardian; Laura Poitras, uma documentarista de cinema especializada em segurança; e Ewen MacAskill, repórter do Guardian — voaram de Nova York a Hong Kong no final de maio. Eles seguiram as instruções, e um homem com o cubo mágico apareceu.

Ele era Edward J. Snowden, que parecia ainda mais jovem do que seus então 29 anos – a aparência jovem chocou Greenwald, que esperava alguém muito mais velho e experiente em vista do tipo de acesso a informações que possuía. Snowden entregou arquivos com “milhares” de documentos e, segundo Greenwald, “dezenas” deles podiam virar notícia.

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A capacidade de Snowden de vasculhar fundo no aparato de segurança nacional dos EUA e retirar alguns dos segredos mais bem guardados é em parte uma história da era pós-11 de Setembro, quando a monstruosa expansão da vigilância do governo e dos complexos sistemas de computador deram a especialista em rede com habilidades técnicas um poder tremendo.

Enquanto alguns legisladores em Washington acusam Snowden de traição, ele se classifica como alguém que diz a verdade. Snowden explicou suas ações em uma entrevista ao Guardian, dizendo que o povo americano tem o direito de saber sobre os abusos do governo.

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Ele alega ter selecionado cuidadosamente o que revelar, para evitar ser acusado de negligência, como foi o soldado Bradley Manning, que confessou ter vazado centenas de milhares de documentos secretos para o WikiLeaks, pode ser condenado à prisão perpétua por uma corte marcial.

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“Ele não tem nenhum arrependimento. Está convencido de que fez a coisa certa”, disse Greenwald sobre Snowden. “E ele é completamente racional. Entende que há grandes chances de que vá acabar como Bradley Manning ou pior. Ainda assim está tranquilo.”

Não está claro como Snowden conseguiu extrair os documentos secretos, e seu retrato de uma pessoa que se transformou de repente de alguém de confiança da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) em alguém que vaza informações ainda é pouco realista.

Ano passado, ele doou dinheiro para a campanha de Ron Paul, um pré-candidato republicado à presidência que é crítico da atuação cada vez mais ampla do governo. Quem conheceu Snowden na adolescência o retrata como alguém fascinado por computadores. “Ele estava sempre em seu computador – sempre. Era um menino muito quieto”, diz Joyce Kinsey, uma antiga vizinha.

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Snowden, que cresceu na Carolina do Norte, não terminou o ensino médio e esporadicamente participou de aulas em uma faculdade comunitária. Ele se alistou no Exército como recruta das Forças Especiais em 2004, mas foi dispensado menos de quatro meses depois ao quebrar as pernas em um acidente de treinamento.

Ele pediu e conseguiu uma autorização para trabalhar com dados altamente secretos: foi sua entrada no establisment da segurança nacional. Há mais de uma década, as agências de inteligência procuram especialistas em tecnologia para operar seus complexos sistemas que consigam ser aprovados no rigoroso e intrusivo processo de verificação de antecedentes.

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Dentro do governo, Snowden atuou pela CIA na Suíça, e para a NSA no Japão, Maryland e Havaí. Trabalhando por US$ 200 mil (R$ 430 mil) ao ano como administrador de sistemas, teve acesso a enormes quantidades de informações secretas.

Numa entrevista filmada, Snowden conta ter questionado coisas que ele via como abusos, mas percebeu que ninguém se importava. Com o tempo, diz, percebeu que sua vida confortável estava ajudando a construir “uma arquitetura da opressão”.

Snowden relatou ao Guardian que a primeira vez que pensou em vazar segredos do governo foi durante seu trabalho em Genebra para a CIA. Ele disse ter desistido, em parte, porque esperava que a eleição de Obama em 2008 reverteria o crescimento do esquema de vigilância.

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Mas o fato de Obama ter continuado com muitas das políticas de contraterrorismo de Bush deu firmeza a Snowden, que então decidiu que não dava para esperar que outros agissem. “Procurei por líderes, mas percebi que liderança é ser o primeiro a agir”, afirmou.

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Glenn Greenwald, repórter do jornal britânico Guardian, fala com a Associated Press em Hong Kong (11/06)

Primeiro, Snowden fez contato com Laura Poitras em janeiro. No mês seguinte, enviou um enigmático email a Greenwald, identificando-se como um leitor e pedindo para se comunicar de forma criptografada. Greenwald respondeu que não tinha software de criptografia e, então, Snowden enviou um vídeo com instruções para instalar um – mas Greenwald nem assistiu até o fim.

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Frustrado, Snowden voltou a procurar Laura e sugeriu que ela trabalhasse juntamente com Greenwald. No começo de março, Laura ligou para Greenwald, e eles se encontraram pessoalmente. Então, Laura mostrou alguns emails da fonte. Em abril e maio, Greenwald começou a conversar com Snowden via chat criptografado.

“Ele disse algo como 'Meu plano é que, em algum momento, num lugar bem longe, a gente se encontre para uma entrevista e eu lhe passe os documentos'”, lembra Greenwald. Uma semana depois, Snowden mandou uma amostra de 20 documentos, incluindo slides de uma apresentação do chamado programa Prism da NSA. Então Greenwald disse que estava pronto para o encontro pessoal.

Separadamente, em maio, Snowden procurou Barton Gellman, repórter do Washington Post.

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Na última semana de maio, Greenwald voou do Brasil, onde mora, para Nova York, para se encontrar com os editores do Guardian e mostrar os documentos. No dia seguinte, ele e o repórter MacAskill viajaram para Hong Kong.

Depois do encontro com o cubo mágico, os três seguiram Snowden para o seu quarto de hotel e passaram seis horas “perguntando da sua vida, do começo ao final, numa espécie de interrogatório”, lembra Greenwald, que é formado em Direito. No fim, ele se convenceu de que Snowden era mesmo quem dizia ser.

John Schindler, ex-funcionário de contrainteligência da NSA, diz que na era pós-11 de Setembro os administradores de sistema passaram a ter acesso a imensas quantidades de informações secretas. “Eles podem representar um falha crítica de segurança porque veem tudo. Se um deles ficar bravo, você está em apuros”, diz.

Por Charlie Savage e Mark Mazzetti

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