Sedentos por armas, rebeldes sírios fabricam morteiros improvisados

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Lutando contra Exército que recebe armamentos da Rússia, do Irã e do Hezbollah, opositores do regime constroem armas em oficinas clandestinas que oferecem riscos a combatentes

NYT

Os trabalhadores chegam ao escurecer e assumem seus postos. Logo, há faíscas e lascas de metal voando; suas criações ficam empilhadas a seus pés: morteiros improvisados para serem disparados de canhões retirados de tanques velhos do Exército sírio.

Pelo norte da Síria, fábricas como essa fazem parte de uma rede clandestina de primitivas oficinas de armas, marcas de uma guerra muito desigual quando se trata de força militar.

Saiba também: Líderes do G8 pressionam Rússia sobre conflito na Síria

NYT
Soldador molda morteiro improvisado em oficina rebelde em Saraqib, Síria

Leia mais: Obama autoriza envio de ajuda militar a rebeldes sírios, dizem autoridades

Seus produtos – foguetes, morteiros, granadas de mão, bombas e metralhadoras – ajudam a formar o arsenal de uma força de guerrilha que sofreu sérias derrotas este ano em seu esforço de derrubar o presidente Bashar al-Assad.

“Todos sabem que não temos as armas que precisamos para nos defender”, disse Abu Trad, comandante em um dos frontes rebeldes, logo após autorizar a visita à fábrica. “Mas temos a vontade, meios humildes e algumas ferramentas.”

Sarin: EUA confirmam uso de armas químicas por forças de Assad na Síria

Contagem: Número de mortos em conflito na Síria chega a 93 mil, diz ONU

Há cerca de um ano, quando Assad teve dificuldades para enfrentar a oposição armada, oficinas como essas forçaram o Exército sírio a mudar de tática. As estradas ficaram tão repletas de bombas escondidas que os militares deixaram de ir a áreas onde os rebeldes tinham mais força e se retiraram para defender suas posições. As oficinas eram a marca do poder de organização e letalidade dos rebeldes.

Mas o governo passou o último ano rearmando seus soldados, com ajuda do Hezbollah, Irã e Rússia. E as forças sírias estão se expondo menos em patrulhas, o que reduz sua vulnerabilidade às bombas improvisadas dos rebeldes. E a maioria das outras armas dos rebeldes não tem precisão, alcance ou poder de fogo suficientes para fazer estragos nos pontos onde o Exército está entrincheirado – e de onde os soldados podem disparar com armas mais potentes e certeiras.

Em maio: UE levanta embargo de armas contra rebeldes sírios, diz Reino Unido

Além disso, algumas das armas confeccionadas localmente são propensas a apresentar defeitos que podem matar quem as usa. Apesar de tudo, as oficinas de armas continuam sendo uma parte importante da logística da oposição, pois as armas vindas do mundo árabe não são suficientes para atender a demanda.

E mesmo que a União Europeia tenha levantado o embargo à transferência de armas para a oposição no mês passado, os rebeldes dizem que essa é uma tática diplomática para aumentar a pressão sobre o governo. Na semana passada, Obama também autorizou o envio de armamentos para os rebeldes, mas não definiu quando nem que tipos de armas serão entregues.

Abu Trad avalia que as oficinas têm sido essenciais para quem está na linha de batalha, e diz que os trabalhadores são parte de uma fundação revolucionária. “A mãe que cozinha para os combatentes é um revolucionária, assim como o médico que ajuda aos feridos, e o trabalhador que faz um morteiro."

Conflito violento: Acirramento de confronto na Síria coloca pressão sobre Washington

NYT
Rebelde segura um morteiro caseiro em Saraqib, Síria

Mas as armas fabricadas pelos rebeldes representam um risco não apenas para quem as usa, mas também para quem as faz. Em uma fábrica visitada pelo New York Times, o jovem engenheiro eletricista Abu Walid contou que sabe de cerca de dez rebeldes que morreram em acidentes enquanto trabalhavam com explosivos para granadas e bombas.

Os próprios rebeldes se dividem sobre o valor dos projéteis fabricados nas oficinas. Alguns os veem com bons olhos. Outros reclamam que morteiros e foguetes frequentemente não disparam, ou fazem rotas imprevisíveis. E as armas, dizem, são as maiores responsáveis pelos ferimentos nos rostos dos rebeldes.

Em um fronte numa árida região rural no norte de Hama, Khaled Muhammed Addibis, um comandante rebelde, aponta para uma pilha de foguetes que seus homens tentaram lançar no dia anterior e simplesmente não funcionaram. Outros voaram para muito longe do alvo; nenhum funcionou como deveria. “Tudo o que precisamos são armas eficientes. Nada mais”, ele diz.

C.J. Chivers

Leia tudo sobre: síriamundo árabeprimavera árabearmaeuaunião europeiarússiahezbollah

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas