Defensores de parque turco, primeiros manifestantes abraçam novas causas

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Protestos pela defesa de parque que viraram maior crise enfrentada por premiê Erdogan deixam questão em aberto: grupo tão heterogêneo pode ter força para substituir governo?

NYT

Era um pouco antes da meia noite de segunda-feira da semana passada quando três amigos viram o trator se aproximar do parque. “Nós ficamos na frente dele e chamamos outros amigos. De três pessoa, virou isto aqui”, disse Birkan Isin, um advogado de 40 anos, enquanto apontava para fora da janela de um café, para as milhares de pessoas protestando na Praça Taksim.

O governo turco está enfrentando a mais grave crise política em muitos anos, e ela começou com alguns amigos determinados a salvar o parque na Taksim. De maneira inesperada, eles inflamaram a frustração popular contra o poderoso primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan.

Leia todas as notícias sobre os protestos na Turquia

NYT
Manifestantes gritam palavras de ordem contra o governo em uma marcha na praça Taksim, em Istambul

Na terça-feira: Manifestantes enfrentam polícia turca na Praça Taksim

Segunda-feira: Premiê da Turquia concorda em receber líderes de protestos

Esses primeiros manifestantes representam um dos lados do abismo que divide toda a política e sociedade turcas. Enquanto o premiê e sua base de apoio são religiosos e conservadores, os precursores do movimento são seculares, de esquerda, liberais e, no caso de Isin, até um pouco Nova Era.

Bebendo uma garrafa e água e comendo um chocolate no café, Isin falou muito sobre natureza e liberdade, com um discurso bem diferente do de Erdogan, cuja reação aos protestos foi intolerante e de negação. Por duas vezes, Isin puxou um livro de meditações e leu para si mesmo por alguns instantes. Ele fez referência ao possível começo de uma nova civilização com o fim do calendário maia no ano passado, e enfatizou que, no começo, o protesto era realmente para salvar as árvores.

Saiba mais: Vice-premiê da Turquia pede desculpas a manifestantes pacíficos feridos

“Nascemos nus. Somos parte da natureza, como as árvores e animais”, falou o advogado, que é filho de um médico e cresceu em uma vila de classe média secular próxima a Istambul. Isin é um dos ativistas originais da mobilização contra os planos do governo de transformar o parque que existe na praça Taksim em um shopping-center. Ele ajudou a fundar uma associação para proteger o último parque do centro de Istambul – ela tem o canhestro nome de Associação para Proteção e Embelezamento do Parque Taksim Gezi.

Erdogan: Milhares protestam nas ruas e premiê turco faz discurso desafiador

Nas ruas: Milhares de turcos desafiam chamado de premiê para encerrar protestos

O que ele não contava era com a resposta agressiva do governo, que enviou a polícia com gás lacrimogêneo, canhões d’água e a licença para combater os manifestantes na rua. “Sinto como se Istambul fosse minha casa e a praça Taksim, a minha sala de estar. Senti-me como se alguém chegasse com um trator na minha sala de estar”, contou ao lembrar seu ultraje.

Mas agora a causa de Isin e seus amigos misturou-se a outras; somadas a ela estão queixas mais amplas de cidadãos deixados de lado. Todas parecem unidas por um ponto: a raiva contra a elite governante e seu partido de raízes islâmicas, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP). Eles reclamam que a nova elite está interferindo em suas vidas privadas e mudando a paisagem local. Taksim não será apenas renovada, dizem, mas também sanitarizada e elitizada.

Do norte da África: Premiê da Turquia retorna a país assolado por protestos

Uma questão crucial permanece: como tudo vai acabar e se é possível que um movimento com grupos tão díspares – esquerdistas, ambientalistas e liberais seculares – transforme-se em uma força política viável? Até agora não há evidências de que os grupos ocupando Taksim possam se unir em torno de uma visão comum de futuro e um único líder.

“Eu não sei. Veremos”, afirmou Isin e depois acrescentou que vários líderes da manifestação e políticos de oposição têm se encontrado nos últimos dias para pensar em uma forma de seguir adiante. “Nenhum partido na Turquia me representa. Talvez surja um novo daqui”.

Tropa de choque da polícia fica coberta pela fumaça do gás lacrimogêneo durante confrontos na praça Taksim, Istambul (11/06). Foto: APManifestante joga uma lata de gás lacrimogêneo durante confrontos com a polícia na praça Taksim, Istambul (11/06). Foto: APManifestante tenta ficar de pé enquanto polícia joga jatos de água durante confrontos na praça Taksim, Istambul (11/06). Foto: APManifestantes turcos conversam no Parque Kugulu, ca capital da Turquia, Ancara (10/06). Foto: APTurco gesticula em frente de muro com grafite antigoverno perto da Praça Taksim, Istambul (08/06). Foto: ReutersFoto do premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, é alterada para que ele se parecesse com Adolph Hitler é colocada na praça Taksim, Istambul (06/06). Foto: APManifestante turco grita palavras de ordem com o governo durante marcha sindicalista na Praça Kizilay, Ancara (05/06). Foto: APMulher sentada entre estudantes de ensino médio ergue suas mãos e grita palavras de ordem no Parque Gezi em Istambul (04/06). Foto: APManifestante segura bandeira da Turquia decorada com a imagem do fundador da Turquia Mustafa Kemal Ataturk, durante protesto na praça Taksim em Istambul (03/06). Foto: APPela manhã, manifestações são pacíficas no terceiro dia de protestos na Turquia (02/06). Foto: APPrédios foram pichados por manifestantes em Istambul (02/06). Foto: APMuitas vidraças acordaram quebradas após dois dias de protestos em Istambul (02/06). Foto: APNo domingo, um grupo menor de manifestantes se reúne na Praça Taksim (02/06). Foto: APônibus foram queimados durante confrontos da polícia com manifestantes (02/06). Foto: APÀ noite, polícia deixou a praça Taksim e manifestantes comemoraram (01/06). Foto: APÀ noite, manifestantes tentaram se aproximar do antigo Palácio Otomano, onde trabalha o primeiro-ministro em Istambul (01/06). Foto: APTensão entre policiais e manifestantes continuou na noite de sábado (01/06). Foto: APNo sábado, quase mil pessoas foram presas e dezenas ficaram feridas nas manifestações em várias cidades (01/06). Foto: APViolência policial espantou turistas e turcos no fim de semana (01/06). Foto: APManifestantes e forças de segurança se enfrentam pelas ruas de Istambul (01/06). Foto: APPolícia usou água para espantar manifestantes em Istambul (01/06). Foto: APForças polícias usaram gás lacrimogêneo contra manifestantes na praça Taskim, em Istambul (01/06). Foto: APManifestantes usaram pedras contra a polícia em Istambul (01/06). Foto: AP

O fato de um grupo tão eclético de cidadãos ter usado esse tema como ponto comum para desafiar o governo é ainda mais espantoso quando se considera que o parque em si, apenas uma parte de uma praça mais ampla, nem era muito apreciado pelos moradores. Ele era considerado sujo e até perigoso à noite.

NYT: Premiê da Turquia tenta ampliar poderes enquanto manifestantes pedem sua saída

Análise: Protestos na Turquia revelam luta mais ampla pela identidade do país

“Muitos dizem que o parque não estava sendo usado, então começamos a organizar eventos”, disse Isin. Em semanas de ativismo para salvar o parque, antes do confronto com a polícia, ele ajudou a organizar eventos como concertos, performances teatrais, exposição de fotos e flash mobs.

Enquanto um fotógrafo tirava fotos de Isin e outros ativistas, Mustafa Uysal, 32 anos, insistiu para que não saísse nenhum cartaz de grupos políticos ao fundo. “Eles querem salvar as árvores, e todos os partidos que vieram aqui lutam para salvar as árvores”, afirmou.

Por Tim Arango

Leia tudo sobre: protestos na turquiaturquiaerdoganpraça taksimistambul

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas