Antes ambivalente, Obama manteve abordagem de Bush para defesa dos EUA

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Em vez de desmantelar métodos antiterrorismo de predecessor, como a interceptação de dados telefônicos e da internet, presidente os validou e os apoiou em base mais sustentável

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Há mais de duas semanas, o presidente Barack Obama disse a uma plateia de generais e espiões que “todas as guerras devem terminar” e que podia ver o dia em que a luta amorfa contra terroristas chegaria ao fim. Mas obviamente esse dia não é agora.

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AP
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A notícia de que o governo monitora chamadas telefônicas de americanos e e-mails e outras comunicações virtuais de estrangeiros serviu para lembrar que Obama continua a usar muitas das ferramentas de segurança nacional herdadas de seu predecessor.

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Independentemente da ambivalência no seu discurso sobre o que o ex-presidente George W. Bush (2001-2009) chamava de uma “guerra global”, Obama usa alguns dos mesmos poderes agressivos em nome da segurança nacional, às expensas das liberdades civis, dizem os críticos. Em vez de desmantelar a abordagem de Bush, Obama a validou e a apoiou sobre uma base mais sustentável.

A mudança no cenário das políticas contra o terrorismo 12 anos depois do 11 de Setembro é ilustrada pela reação à reportagem do jornal britânico Guardian sobre o programa secreto do governo. De um lado estão Obama e Bush, assim como os líderes do establishment de ambos os partidos. Do outro está uma coleção de críticos de esquerda e de direita, um amálgama que juntou no mesmo campo a União pelas Liberdade Civis Americanas e o grupo Liberdade Funciona, afiliado ao Tea Party (setor conservador do Partido Republicano).

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“Sou apenas eu, ou esse esquema de vigilância secreta é obscenamente ultrajante?”, questionou no Twitter o ex-vice presidente Al Gore, do Partido Democrata. Também no Twitter, o senador pelo Kentuchy Rand Paul, possível candidato republicano à presidência, condenou a vigilância como “um ataque assombroso à Constituição”.

Mas líderes do Congresso de ambos os partidos defenderam o programa. Em um comunicado em conjunto alguns deles disseram: “A ameaça do terrorismo continua real, e essas atividades de inteligência legítimas devem continuar, sob a fiscalização cuidadosa do Executivo, Legislativo e Judiciário.”

O próprio Obama parece resumir o debate. Ele chegou à presidência prometendo o fim do que classificou como excessos de seu predecessor, mas descobriu que muitas das políticas já haviam sido modificadas por Bush, sob pressão da Justiça e do Congresso, e não quis torná-las mais palatáveis.

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Depois da posse em 2009, Obama assinou uma ordem banindo o que Bush eufemisticamente chamava de “técnicas intensas de interrogatório” e os críticos, de tortura. Mas o fato é que a simulação de afogamento já não era praticada havia quase seis anos. Obama prometeu fechar a prisão de Guantánamo, em Cuba, mas descobriu que isso seria tão difícil como foi para Bush, que também chegou a expressar o desejo de acabar com a prisão, embora de maneira mais branda.

Na época em que assumiu, o programa de vigilância sem mandado que Bush começou já estava legalizado por um ato do Congresso, com o apoio de Obama quando era senador. Obama desistiu de levar os acusados de planejar o 11 de Setembro a cortes civis e manteve o sistema de comissões militares, embora tenha adicionado algumas salvaguardas processuais. Ele liberou alguns documentos secretos de programas passados, mas continuou a evocar o sigilo em outras instâncias.

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Quando falou que todas as guerras devem acabar, em seu discurso na Universidade de Defesa Nacional no mês passado, Obama disse que era hora de começar uma nova fase na batalha contra a Al-Qaeda e extremistas aliados à rede terrorista, estreitando o escopo do conflito e reduzindo o uso de aviões não tripulados - os drones - em ataques no exterior. Ele sugeriu que a ameaça do terrorismo retrocedeu aos níveis anteriores ao 11 de Setembro, para um perigo regular.

Mas assim como um veículo aéreo não identificado atacou o Paquistão dias após o discurso, deixando claro que a guerra dos drones não terminou, as novas revelações sobre a vigilância do governo indicam pouca redução das táticas amplas do passado.

“Você tem um presidente que basicamente está argumentando contra ele próprio. É quase shakespeariano”, disse James Jay Carafano, membro da Heritage Foundation. O ex-senador Ben Nelson, um democrata do Nebraska, questiona se essa varredura tão ampla de dados chega a ser efetiva. “Se tudo é uma prioridade, então nada é. Acredito que priorizar é muito melhor. Apenas porque eles têm a autoridade, não significa que deveriam exercê-la”, diz.

Conselheiros dizem que a abordagem de Obama é sutil; não é excessivamente dura nem restritiva demais. O presidente acredita na manutenção de algumas habilidades pós-11 de Setembro para lutar contra a Al-Qaeda, mas impôs uma fiscalização mais rígida, algo que não houve logo após os ataques.

“Evoluímos muito em termos de estreitar nosso foco e restringir nossas ações. É natural e saudável que, enquanto a nação avalia a atual escala de ameaça terrorista, também verifique qual equilíbrio entre segurança e privacidade é apropriado”, disse Benjamin J. Rhodes, um conselheiro de segurança nacional de Obama. Rhodes destacou também que o Congresso “aprovou esmagadoramente a manutenção do programa”.

*De Peter Baker

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