Disputa por Mandela transforma seu legado em troféu na África do Sul

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Enquanto ex-presidente desaparece do cenário político, ações para reivindicar seu legado, sua imagem e seu potencial para ganhar dinheiro são cada vez mais fortes no país

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"Sorria!", o visitante solicitou com um tom de cordialidade forçado em sua voz, enquanto segurava uma câmera de celular para tirar uma foto.

29 de abril: Mandela aparece frágil em primeira imagem na TV em nove meses

AP
Hussein Gallo, 7, é visto em mural de Nelson Mandela em Soweto, Johannesburg (07/06)

Neste sábado: Mandela é internado em estado grave com infecção pulmonar

Mas o rosto de Nelson Mandela, o líder de 94 anos da luta contra o apartheid (regime de segregação racial), que se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul, permaneceu impassível como uma pedra. Ele parecia confuso e irritado, como se seus olhos tivessem deixado de registrar os rostos dos principais líderes do governista Congresso Nacional Africano (CNA), que vieram vê-lo em abril, mesmo que os tivesse conhecido décadas atrás.

As imagens, captadas por uma equipe de filmagem do governo e transmitidas em todo o país, foram as primeiras a ser exibidas em mais de nove meses de Mandela, que foi internado várias vezes em meses recentes. A última aconteceu neste sábado, quando o governo anunciou que ele enfrenta uma infecção respiratória.

Longe de ser homenageado, parentes de Mandela ficaram furiosos com a transmissão, dizendo que os líderes partidários haviam invadido sua privacidade e explorado sua fragilidade para colher os benefícios políticos de serem vistos em sua companhia pelo menos mais uma vez.

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"Fiquei muito furioso", disse Makaziwe Mandela, filha mais velha de Mandela, argumentando que as filmagens ocorreram contra a vontade da família. "Eles deveriam ter tido o bom senso de não publicar essas imagens."

Enquanto Mandela desaparece do cenário político, a luta para reivindicar seu legado, sua imagem, seu potencial para ganhar dinheiro e até mesmo o tempo em que ele continua vivo está cada vez mais séria.

O CNA, que Mandela liderou durante décadas, é acusado de usá-lo como um suporte para lembrar os eleitores das nobres raízes do partido em um momento em que a legenda passou a ser vista como um grupo de elitistas corruptos e egoístas. A principal rival do partido, a Aliança Democrática, também foi criticada pelo uso de uma foto de Mandela abraçando um de seus progenitores brancos, estimulando as reclamações de que a oposição está tentando cooptar a imagem de Mandela para derrubar seu próprio partido.

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E, enquanto tudo isso, seus descendentes estão engajados em uma luta abertamente pública sobre o legado financeiro de Mandela. Enfurecida com o fato de que um fundo estabelecido para seu bem-estar e manutenção é parcialmente controlado por alguém que consideram um estranho, seu amigo George Bizos, a família foi à justiça para remover Bizos como diretor.

Em abril, duas das filhas de Mandela processaram Bizos e outros dois sócios de seu pai para forçá-los a sair do comitê de duas empresas criadas para vender uma série de pinturas de autoria de Mandela, dois dos vários empreendimentos comerciais concebidos para arrecadar dinheiro para ele e seus herdeiros. A família Mandela é composta por três filhas de dois casamentos, 17 netos e 14 bisnetos.

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O processo alega que Bizos e duas outras pessoas foram indevidamente nomeadas para o comitê. Bizos, um proeminente advogado de direitos humanos, parece ter ficado abalado pelo esforço para derrubá-lo. Ele ajudou a defender Mandela contra acusações de sabotagem e conspiração para derrubar o Estado há 50 anos e manteve-se um amigo próximo desde então. O jornal The Star citou Bizos dizendo que as filhas de Mandela "queriam colocar as mãos em coisas que não deveriam ser vendidas e no dinheiro das empresas".

Em um comunicado, os netos de Mandela rejeitaram os esforços para "destacar nossa família como fanáticos por dinheiro sem nenhum respeito", acrescentando que "a maioria de nós tem um emprego remunerado, trabalha para nossas próprias empresas e realiza nossos projetos individualmente”.

Makaziwe Mandela disse em uma entrevista que "essa questão de que somos gananciosos, que queremos esse dinheiro antes da morte de meu pai, é tudo bobagem".

Celebração: África do Sul comemora aniversário de 94 anos de Nelson Mandela

AP
Reprodução de vídeo mostra ícone da luta antiapartheid Nelson Madela durante visita de autoridades à sua casa após três semanas de sua alta de hospital (29/04)

Proteger a imagem de Mandela sempre foi uma tarefa onerosa. Seu rosto e nome estão em toda parte – na moeda da África do Sul, em camisetas e em relógios, em estátuas de bronze e em canções.

Embora Mandela nunca tenha se oposto a que sua imagem e nome fossem usados para outras causas que apoiava - como os direitos das crianças, pesquisa para o HIV e aids e atividades para obtenção de paz -, o combate ao uso comercial não autorizado custa à Fundação Nelson Mandela centenas de milhares de dólares por ano.

Em muitos aspectos, a imagem de Mandela nunca foi realmente sua. Depois que ele foi condenado, em 1964, ele próprio desapareceu por completo da África do Sul.

Mas sua imagem, em silhoueta ou com barras prisionais sobrepostas sobre ela, tornou-se um ícone do CNA e de sua luta antiapartheid. "Assim que Mandela foi preso, o CNA decidiu que ele seria nosso herói", disse Sisonke Msimang, uma ativista que passou a infância no exílio por causa da proeminência de sua família no partido. "Ele seria o rosto de nossa campanha internacional."

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Quando ele finalmente estava para ser libertado da prisão, em 1990, uma revista americana publicou um artigo perguntando: "Qual será sua aparência?"

Em dias recentes, Mandela desejava apenas ser deixado em paz para desfrutar de sua família, disse Makaziwe Mandela. "Nunca pudemos aproveitar a companhia de Tata, até mesmo quando ele saiu da prisão", disse, usando a palavra xhosa para pai. "Esse é o único momento que temos como família para amá-lo sem preocupações. É o nosso momento. Acho que deveríamos ser capazes de aproveitar o tempo de vida que lhe resta para estarmos juntos dele.”

Por Lydia Polgreen

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