Informações sobre Coreia do Norte e seu líder continuam fora do alcance dos EUA

Por NYT |

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Acesso restrito a país e a seu novo líder, Kim Jong-un, dificulta coleta de inteligência e elaboração de estratégia para conter regime que trabalha para se tornar potência nuclear

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O buraco negro da coleta de informações de inteligência sobre a Coreia do Norte está cada vez mais profundo.

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Líder norte-coreano Kim Jong-un (C) usa binóculos para observar território sul-coreano em unidade militar na ilhota de Jangjae (07/03)

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Quando o presidente Barack Obama e a nova presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, encontraram-se pela primeira vez na Casa Branca em 7 de maio, funcionários de inteligência e especialistas externos disseram que eles trabalharam, por necessidade, em uma base de compreensão profundamente incompleta de seu adversário em comum.

Num momento em que os EUA aprenderam a lançar ataques aéreos precisos no Paquistão e a direcionar armas cibernéticas contra específicas centrífugas nucleares nas profundezas do deserto iraniano, seu entendimento sobre a liderança e os sistemas de armas norte-coreanos piorou.

A mais recente falha de inteligência incluiu o que autoridades do governo agora reconhecem como o julgamento inicial da CIA - agora revertido - de que o novo líder jovem da Coreia do Norte, Kim Jong-un, estava provavelmente mais interessado em reforma econômica do que em seguir a política de seu pai e avô de privilegiar o Exército, aumentando os arsenais nucleares e de mísseis do Norte e ameaçando usá-los se o mundo não viesse bater à sua porta.

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Ao mesmo tempo, a capacidade da Coreia do Norte de esconder fatos relevantes sobre sua capacidade de armas melhorou. Mais de três meses depois de o terceiro teste nuclear norte-coreano intensificar perigosamente as tensões na Península Coreana, os EUA continuam  incapazes de responder a pergunta mais importante sobre a explosão: o país descobriu uma maneira de enriquecer urânio e acelerar drasticamente seu arsenal nuclear? O Norte conseguiu conter as emissões de gases que teriam fornecido a resposta, frustrando os esforços dos EUA de encontrar as provas por meio de sensores da Força Aérea que foram posicionados ao longo da costa norte-coreana.

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Em um sinal de confusão contínua, a Agência de Inteligência de Defesa - braço da inteligência do Pentágono - declarou recentemente com "confiança moderada" que o Norte agora pode construir uma ogiva nuclear do tamanho necessário para caber em um míssel, mas teve sua avaliação contestada, em público, por Obama e pelo diretor da Inteligência Nacional (ver informações mais abaixo).

A Coreia do Norte tem sempre sido um alvo difícil, mas as dificuldades de descobrir o que está acontecendo agora variam de questões de longa data para novidades. O Norte figura entre os Estados policiais mais brutais do mundo, “muito bom em localizar espiões humanos”, disse um funcionário da inteligência dos EUA e de “acabar com eles rapidamente”. Assim, os serviços de inteligência da Coreia do Sul enfrentam muita dificuldade em infiltrar qualquer um de seus agentes. É quase impossível para uma estrangeiro viajar sem ser percebido na Coreia do Norte, uma terra de muitos postos de controle, poucos carros e muitos informantes.

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Além disso, a técnica que tem sido muito útil no caso do Irã – recrutar seus cientistas e outros em conferências internacionais – tem sido praticamente impossível no caso da Coreia do Norte, cujos funcionários raramente viajam. Quando se aventuram no exterior, há autoridades políticas e outros que monitoram o que fazem e dizem. Até mesmo a maior mina de ouro em potencial – a chegada de redes de telefonia celular – tem sido de uso limitado para funcionários de inteligência.

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Soldado sul-coreano monta guarda em Ponte da Unificação perto da vila fronteiriça de Panmunjom, que separa as duas Coreias desde a Guerra da Coreia em Paju, Coreia do Sul (11/04)

Mas o centro da fraqueza da inteligência gira em torno de Kim, que se estima ter quase 30 anos. Os chineses, que convidavam regularmente seu pai, Kim Jong-il, a Pequim para consultas, relataram ter tido algumas reuniões com ele. O único americano que lidou com ele foi Dennis Rodman, ex-astro do basquete, que o FBI teria interrogado após retornar de uma recente viagem a Coreia do Norte.

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Na verdade, na Coreia do Sul há uma teoria que diz que, por trás do olhar ingênuo e sorriso maroto de Kum Jong-un, esconde-se um indivíduo maquiavélico que já intimidou generais e secretários do partido e que aposta poder forçar Washington a aceitar a Coreia do Norte como uma potência nuclear.

Autoridades sul-coreanas ficaram surpresas ao concluir nos últimos meses que, apesar da juventude e inexperiência de Kim, seu governo e partido estão exercendo controle sobre o Exército, que muitos consideravam demasiadamente influente e corrupto para que isso ocorresse. De acordo com algumas contagens, dois terços dos generais da Coreia do Norte foram rebaixados, substituídos ou transferidos para cargos menos poderosos; alguns foram banidos pelo jovem líder. Todos tiveram de assinar cartas de fidelidade.

No entanto, a visão de que Kim tornou-se tão poderoso quanto seu pai não é universal. "Quem está no comando da Coreia do Norte? É difícil dizer", disse um graduado político da Coreia do Sul. "Quão forte é Kim Jong-un? Não sabemos exatamente. Quem está dando ordens em Pyongyang? Aparentemente, é Kim Jong-un, mas não temos certeza sobre o processo de tomada de decisão no círculo íntimo.”

O governo de Kim também adotou um jogo complexo com as agências de inteligência dos EUA. Ele sabia que o Ocidente ficaria intensamente interessado em saber se ele testou outra arma de plutônio ou sua primeira arma de urânio, o produto de uma nova capacidade de enriquecimento de urânio que a Coreia do Norte revelou apenas recentemente.

Mas o local do teste foi selado para torná-lo mais difícil de reunir evidências atmosféricas. "É inevitável que, mais cedo ou mais tarde, eles vão querer que saibamos se são capazes de construir uma arma de urânio", disse Gary Samore, o ex-conselheiro de Obama para armas de destruição em massa. "Mas ninguém sabe ao certo por que ele está esperando." Uma possível explicação para o segredo é que a tecnologia não está funcionando como anunciada: uma combinação de erros de principiante e sabotagem também diminuiu muito os esforços do Irã com a mesma tecnologia.

Ogiva nuclear num míssil

Em 16 de abril, Obama disse em uma entrevista à Savannah Guthrie, da NBC News, duvidar que a Coreia do Norte tenha capacidade de miniaturizar uma ogiva para que caiba em um míssil, afirmando também que nada o faria mudar de postura e "recompensar" o tipo de comportamento provocativo demonstrado por Kim Jong-un.

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A declaração de Obama foi uma rejeição implícita de conclusão da Agência de Inteligência de Defesa, que em um relatório de março afirmou possuir um certo grau de "confiança moderada" de que o regime de Pyongyang já dominava esse tipo de tecnologia. Após a conclusão ter sido exposta em uma audiência no Congresso em 11 de abril, o diretor da Inteligência Nacional, James R. Clapper Jr., emitiu uma declaração dizendo que a posição da agência não refletia a opinião de consenso das outras 15 agências de inteligência do país.

Obama concordou. "Com base em nossas avaliações de inteligência atuais, não acredito que eles possuem essa capacidade", afirmou. "Mas temos de ter certeza de que estamos lidando com todas as contingências existentes. E é por isso que reposicionei sistemas de defesa antimísseis para proteger contra qualquer erro de cálculo por parte deles.”

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Pela primeira vez, Obama falou a respeito de Kim, cujas motivações foram analisadas desde o início da última escalada de ameaças e tensões.

"Não sou um psiquiatra", disse Obama, sugerindo que ele tinha de julgar Kim por suas ações em vez de suas palavras. Mas acrescentou: "Este é o mesmo tipo de padrão que vimos em seu pai, e em seu avô antes disso. Desde que tomou posse, a única coisa que ficou clara é que não apoiaremos esse tipo de comportamento provocador. As coisas não funcionam dessa maneira – não basta espernear para conseguir o que se quer."

Por David E. Sanger, Choe Sang Hun e Michael R. Gordon

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