Protestos na Turquia revelam luta mais ampla pela identidade do país

Por NYT | - Atualizada às

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Para muitos turcos, o desenvolvimento dos espaços urbanos não é tanto um progresso, mas um reflexo das crescentes ambições autocráticas do premiê Recep Tayyip Erdogan

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Por toda Istambul, capital de três antigos impérios, guindastes pendem sobre canteiros de obra, tapumes bloqueiam antigas favelas e arranha-céus sobem acima dos minaretes das mesquitas, que dominaram o horizonte por séculos – sinais de audaciosos projetos já em andamento.

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Pôster com foto do premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, foi queimado durante protesto antigoverno em Istambul (02/06)

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Para muitos turcos, porém, isso não é progresso e sim um reflexo das crescentes ambições autocráticas do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan e seu governo. Raiva e ressentimento transbordaram pelas ruas nos últimos dias, quando a polícia atacou manifestantes com gás lacrimogêneo e canhões d’água – e os que protestavam retaliaram tendo como alvo tratores e contêineres enfileirados perto do último parque do centro da cidade.

A disputa pelos espaços urbanos está se tornando uma luta mais ampla pela identidade turca, da qual fazem partes assuntos sensíveis como religião, classes sociais e divisões políticas. E, apesar de a maioria da população concordar que cada classe de governantes que chegou ao poder tentou deixar sua marca em Istambul, acredita-se que nenhuma delas o fez de forma tão intensa como o atual governo.

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No domingo, Erdogan, do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), de raiz islâmica, foi à TV rejeitar as acusações de comportamento ditatorial e atacar a legitimidade dos manifestantes. “Não nos curvaremos a uns poucos saqueadores que provocam nossa população, nossa nação, baseados em informações equivocadas”, afirmou em um discurso provocativo até mesmo quando pedia o retorno da ordem. Manifestantes voltaram à praça Taksim e também tomaram as ruas em Ancara, a capital, e várias outras cidades.

Domingo: Premiê turco acusa oposição por prostestos

Edhem Eldem, historiador da Universidade Bogazici, em Istambul, criticou o governo por iniciar projetos de larga escala sem procurar aprovação do público. “De certa forma, eles estão embriagados pelo poder. Eles perderam os reflexos democráticos e estão voltando ao que é a essência da política turca: autoritarismo”, disse.

A mudança no panorama físico de Istambul simboliza os temas que competem para definir a Turquia moderna – Islã versus secularismo, rural versus urbano. Ela destaca uma economia em expansão e uma autoconfiança da elite religiosa conservadora que desfiguram a tristeza pós-império que permeia os romances de Orhan Pamuk, ganhador do Prêmio Nobel e mais famoso escritor turco.

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Manifestantes antigoverno gritam slogans enquanto se escondem atrás de barreiras durante choques com a polícia em Istambul, Turquia (02/06)

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O governo de uma década de Erdogan modificou dramaticamente a cultura turca ao estabelecer o controle civil do Exército. Ele acabou com regras da antiga ordem secular e agora permite expressões públicas da religião, vista na proliferação de mulheres com véus. Também alimentou uma classe capitalista religiosa, cujos membros vieram de regiões rurais para cidades como Istambul, o que aprofundou as divisões de classe.

A antiga elite secular, que se considera a herdeira do legado de Mustafa Kemal Ataturk, fundador da Turquia moderna, irritou-se com as transformações. Da mesma forma que os liberais, que não se intitulam seguidores de Kemal e toleram demonstrações religiosas, mas se opõem ao estilo de liderança de Erdogan. Estes dizem que os projetos desenvolvimentistas em andamento são de mau gosto e revelam uma visão de elitismo social.

Para muitos, também criou uma sensação de ressentimento e perda – para residentes antigos, intelectuais urbanos e membros das classes mais baixas que foram expulsos de suas casas para que os imensos complexos residenciais e shoppings fossem construídos.

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E nas pranchetas há ainda muito projetos que evocam grandes ambições e polêmicas: o maior aeroporto do mundo, a maior mesquita do país e um canal que vai cortar o lado europeu de Istambul, algo tão audacioso que mesmo seu maior defenso, o próprio Erdogan, chamou de “loucura”. O terreno já está sendo preparado para uma terceira ponte sobre o Bósforo, batizada com o nome de um sultão otomano acusado de massacrar muçulmanos alevitas, um grupo minoritário no país.

“Nasci e cresci na cidade, mas não há mais nada por aqui que me conecte com minha juventude. Istambul é vista como um lugar para enriquecer; é uma corrida do ouro”, afirmou Ersin Kalaycioglu, professor de relações internacionais na Universidade Sabanci. Refletindo uma sensação de elitismo amplamente partilhada pelos turcos seculares em Istambul, ele reclama que a cidade “foi invadida por incultos camponeses de Anatólia”.

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Manifestantes antigoverno entram em confronto com polícia perto do Palácio Dolmabahce, em Istambul, Turquia (02/06)

Aos 87 anos, Dogan Kuban é talvez o mais conhecido historiador urbano de Istambul – escreveu inúmeros livros e trabalhou com a ONU em temas de preservação da Turquia. Ele se queixa de nunca ter sido consultado pelo atual governo. “Sou um historiador de Istambul. Eles não consultam ninguém”, disse.

Kuban critica o governo por ignorar a história pré-islâmica do país e não preservar certas estruturas e sítios arqueológicos, algo que significaria que a Turquia está se afastando da cultura ocidental. “Apenas as mesquitas são preservadas. Preservação é uma parte muito refinada da cultura. É uma parte muito importante da civilização europeia”, afirmou.

O resultado das manifestações nas ruas ainda é incerto. Como Erdogan ainda conta com o apoio dos conservadores religiosos, poucos acreditam que sua manutenção no poder esteja ameaçada. Mas há sinais de potenciais danos políticos – e a retirada das forças policiais no sábado, permitindo a manifestação de centenas de milhares naquele dia e no domingo foi vista por alguns como sinal de fraqueza.

Mas no domingo, o premiê leu seu discurso desafiador. Apesar de dizer que nenhum shopping será erguido na praça Taksim, ele prometeu construir uma nova mesquita no local.

*Tim Arango

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