Com eleitorado apático, votação no Irã desperta pouco entusiasmo

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Em contraste com a atmosfera festiva de 2009, agora cada vez mais eleitores são consumidos pelas preocupações a respeito da economia e da insegurança

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A rede de televisão estatal do Irã transmitiu um programa ao vivo no início de maio em que os transeuntes eram colocados em uma cadeira e perguntados sobre o que fariam se fossem eleitos presidente.

Um homem disse que iria "trabalhar para o povo." Um segundo pulou quando ouviu a pergunta. "Eu não quero essa cadeira!", disse.

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Candidatos do Irã (sentido horário), Mohammad Gharazi, Mohsen Rezaei, Mohammad Bagher Qalibaf, Gholam Ali Haddad Adel, Saeed Jalili, Ali Akbar Velayati e Hasan Rowhani

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De repente, uma jovem mulher pegou o microfone. "Este programa é um absurdo", disse. "Aqueles que realmente se sentam nessa cadeira estão lá apenas para encher seus próprios bolsos."

O programa chamou rapidamente uma propaganda, mas foi um momento improvisado raro e revelador na disputa estritamente controlada da eleição presidencial de 14 de junho.

A eleição presidencial do Irã em 2009 foi um espetáculo exuberante e emocionante que despertou uma poderosa onda de otimismo na população, mas acabou com o trauma de uma violenta repressão. A votação deste ano, que ocorrerá em circunstâncias extremamente diferentes, promete ser muito mais amena.

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Para a maioria, o entusiasmo de 2009 foi substituído, pelo menos por agora, por uma indiferença provocada pelo medo e alimentada pela falta de candidatos carismáticos. Há pouca conversa sobre um boicote, mas a população mostrou pouco entusiasmo ou expectativas de que a eleição faça diferenças em suas vidas.

Enquanto a eleição do dia 14 de junho se aproxima, algumas vozes dizem abertamente - e cuidadosamente - o que muitos vinham falando há muito tempo nos bastidores. O ex-presidente Mohammad Khatami criticou a "sufocante atmosfera de segurança" no país. "A confiança entre o governo e o povo está dividida", disse. "Os jovens e as classes médias perderam toda a esperança nele."

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Mas para muitos no Irã, Khatami é uma figura do status quo, talvez tolerada pelo governo como alguém que carece de seguidores e representa pouco mais do que um desafio retórico.

Em contraste com a atmosfera festiva de 2009, quando as pessoas foram às ruas por diversas semanas que antecederam a votação, agora cada vez mais eleitores são consumidos pelas preocupações a respeito da economia, da inflação de dois dígitos e da insegurança sobre a direção política da República Islâmica.

Recentemente, em um casamento perto da cidade de Karaj, a noroeste de Teerã, duas mulheres resumiram o dilema enfrentado por aqueles que vivem no Irã, mas são críticos do sistema dominante. "Precisamos eleger o melhor do ruim", disse Simin. "Dessa forma, poderemos obter algum tipo de mudança."

Sua amiga Maral não tinha tanta certeza. "A última vez presenciamos o que eles fizeram com nosso voto. Eu nunca mais votarei.”

Muitos nas grandes cidades do Irã disseram estar se concentrando em suas vidas privadas. A melancolia tomou conta de muitos.

Pouco antes de uma apresentação recente de Seus Olhos, um monólogo escrito e realizado pela atriz famosa Bahareh Rahnama, o ex-vice-presidente, Mohammad Ali Abtahi, entrou para assistir a apresentação por uma porta lateral com sua filha adolescente.

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Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, participa de coletiva no Cairo, Egito (5/2)

Abtahi sorriu timidamente depois que vários espectadores na plateia se levantaram de seus assentos, como um sinal de respeito.

Ele foi um dos primeiros iranianos proeminentes a ser declarado um inimigo do Estado após a eleição de 2009. Meses depois, apareceu em um julgamento em massa na televisão, onde confessou ter participado de uma conspiração para derrubar o governo.

Agora, depois de ter saído da prisão, ele disse que um retorno à política não estava em seus planos. "Pra que?", disse. "Não há mais lugar para nós. Eles não nos escutam.”

Em certo momento da apresentação, Rahnama, 38 anos, olhou ao redor do teatro, enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto, até que seus olhos se encontraram com os das pessoas nas primeiras fileiras. "Maldito seja esse câncer chamado nostalgia," ela chorou. "Maldito seja o passado."

Por Thomas Erdbrink

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