Distúrbios de jovens imigrantes põem identidade da Suécia em questão

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Protestos causados por morte de homem por disparos da polícia empurram país para debate sobre a imigração e as tensões que provoca durante a recessão econômica na Europa

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Eva Bromster, uma diretora de escola primária, foi acordada por um telefonema na noite do dia 23. "Sua escola está em chamas", disse seu chefe, o diretor do departamento de educação local.

Vídeo: Estocolmo tem terceira noite de protestos e distúrbios

AP
Bombeiros apagam carro incendiado no subúrbio de Kista, Estocolmo, durante distúrbio de jovens (21/05)

Bromster correu para a escola, no bairro de maioria imigrante de Tensta, ao norte de Estocolmo, e encontrou uma sala destruída pelo fogo e outra cheia de água até os tornozelos depois que os bombeiros apagaram as chamas. Foi o segundo incêndio na escola em três dias.

Em Estocolmo e em outras cidades na semana passada, grupos compostos principalmente de jovens imigrantes atearam fogo em prédios e carros em um surto de raiva destrutivo raramente visto em um país orgulhoso de suas maneiras normalmente tranquilas e que cumprem a lei.

Os distúrbios, que ecoam os tumultos urbanos da França em 2005, e do Reino Unido em 2011, levaram a Suécia ao centro de um acalorado debate sobre a imigração e as tensões que provoca durante uma recessão econômica na Europa.

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Os tumultos, que duraram quase uma semana, produziram menos danos do que os de Paris e Londres, que também envolveram imigrantes. Mas o tumulto abalou a Suécia, que tem a reputação de ser um país acolhedor de estrangeiros e de requerentes de asilo, incluindo aqueles que fogem da violência em países como Iraque, Somália e Síria, e regularmente está nos rankings como um dos lugares mais felizes do mundo.

"Não sei por que alguém iria querer queimar a nossa escola", disse Bromster. "Não consigo entender isso. Talvez eles não estejam tão felizes com a vida."

Os motins não são inéditos aqui. Em 2008 e 2010, os imigrantes entraram em confronto com a polícia na cidade portuária de Malmo. Mas os incêndios da semana passada na capital Estocolmo e o espetáculo de jovens atirando pedras contra os bombeiros deixaram muitos suecos se perguntando o que deu errado em uma sociedade que investe fortemente para ajudar os mais desfavorecidos.

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A violência se concentrou em bairros relativamente pobres, onde moradores foram protegidos da miséria por um sistema de bem-estar social que é um dos maiores do mundo.

O primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, de centro-direita, descreveu os tumultos como "vandalismo", enquanto os Democratas da Suécia, um partido de extrema direita, aproveitaram a violência para impor sua postura anti-imigrante e pedir a deportação de não nativos que infringem a lei. "Essa não é apenas uma questão de polícia", disse Jimmie Akesson, líder do partido, mas "um resultado direto de uma política irresponsável que criou rachaduras profundas na sociedade sueca".

A esquerda, que dominou a política sueca por décadas e criou o atual sistema de bem-estar social, culpou benefícios estatais reduzidos e uma mudança modesta em direção à privatização dos serviços públicos pela agitação.

"Os ricos estão ficando mais ricos, e os pobres estão ficando mais pobres", disse Barbro Sorman, um ativista do opositor Partido de Esquerda. "A Suécia começa a se parecer com os EUA."

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Mas enclaves de imigrantes de Estocolmo, incluindo Tensta e o subúrbio próximo de Husby, onde os motins começaram em 19 de maio, depois que a polícia matou a tiros um imigrante de 69 anos empunhando uma faca, mostram poucos sinais exteriores de privação.

Estabelecidos na década de 1960 como parte de uma iniciativa de construção estatal para criar 1 milhão de novas casas em uma década, os subúrbios do norte de Estocolmo oferecem parques bem cuidados, habitações públicas modestas (mas bem conservadas), escolas bem equipadas, centros de juventude, bibliotecas e legiões de assistentes sociais financiados pelo Estado.

Dejan Stankovic, o gerente sérvio de uma equipe de jovens funcionários do governo que se juntaram a pais e outros voluntários no patrulhamento noturno de ruas da cidade, lembrou de uma visita à região por um grupo de assistentes sociais americanos. "Eles disseram: 'Ele é verde e seguro, então qual é o problema?"

Um grande problema é a falta de empregos. O desemprego nacional é de cerca de 8%, mas a taxa é pelo menos duas vezes maior em áreas de imigrantes e quatro vezes mais alta para os menores de 25 anos. Mas, disse Nima Sanandaji, curda-sueca autora de vários livros sobre a imigração, áreas remotas do norte da Suécia têm mais desempregados, "mas eles não estão jogando pedras e colocando fogos em carros".

A raiva dos jovens imigrantes tem desnorteado e assustado as pessoas de suas comunidades. Após confrontos com a polícia na semana passada, os imigrantes mais velhos montaram o seu próprio esforço para aliviar as tensões. "Não há desculpa para a violência", disse Abdullah Ahmed, um professor que imigrou da Somália há 23 anos e agora passa as noites andando pelas ruas à procura de possíveis encrenqueiros.

O esforço parece estar funcionando pelo menos em Estocolmo, onde alguns carros foram incinerados no fim de semana de 25 e 26 de maio, uma queda de cerca de 50% em relação à terça anterior. No dia 25, as ruas de Husby ficaram quietas enquanto os jovens se reuniram para assistir a um jogo do campeonato europeu de futebol em um telão montado na estação de metrô.

Por Andrew Higgins

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