Julgamento de massacre na Guatemala deixa de fora papel dos EUA

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A história do apoio americano ao Exército guatemalteco passou despercebida no julgamento do ex-ditador Efraín Ríos Montt, o personagem mais identificado com a brutalidade da guerra

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Em 1999, o presidente Bill Clinton (1993-2001) foi à Guatemala e pediu desculpas. Apenas duas semanas antes, uma comissão da verdade da ONU tinha revelado que as forças de segurança da Guatemala foram responsáveis por mais de 90% das violações de direitos humanos cometidas durante a longa guerra civil do país.

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Montt fala durante julgamento de genocídio na Guatemala (11/05)

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O pedido de desculpas de Clinton foi uma admissão de que os militares da Guatemala não agiram sozinhos. O apoio dos EUA às forças de segurança da Guatemala, que haviam se envolvido em "repressão violenta e generalizada", disse o presidente, "foi algo errado".

No entanto, essa longa história de apoio dos EUA aos militares da Guatemala, que começou com um golpe projetado pela CIA em 1954, passou despercebido durante o julgamento do genocídio e da condenação do homem mais estreitamente identificado com a brutalidade da guerra, o ex-general ditador Efraín Ríos Montt.

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Durante um mês de testemunho perante o painel de três juízes que decidiu no dia 11 que Ríos Montt é culpado, o Ministério Público nunca levantou a questão do apoio militar dos EUA na guerra do Exército contra a guerrilha de esquerda. O ditador de 86 anos quase não mencionou os EUA quando argumentou em sua defesa que não tinha comando operacional sobre as tropas que massacraram e aterrorizaram a população durante seu governo de 1982 a 1983.

"Esse foi um julgamento sobre a Guatemala, sobre a estrutura do país, sobre o racismo", disse Kate Doyle, especialista em Guatemala no Arquivo de Segurança Nacional, em Washington, uma organização de pesquisa independente que busca a liberação de documentos governamentais confidenciais.

Adrian Zapata, um ex-guerrilheiro que agora é professor de ciências sociais da Universidade de San Carlos de Guatemala, disse que, para provar uma acusação de genocídio, "não era pertinente ressaltar o contexto internacional e os atores externos".

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Mas a aliança da Guerra Fria (1947-1991) de Washington com Ríos Montt há três décadas não foi esquecida na sala de audiências em que o atual embaixador dos EUA, Arnold A. Chacon, sentou-se como um espectador em uma demonstração de apoio ao julgamento.

"Parte da responsabilidade histórica foi que os EUA tentaram usar a Guatemala como um baluarte contra o comunismo", disse Doyle. "Os EUA desempenharam um papel muito forte e direto na vida dessa instituição, o Exército, que passou a cometer genocídio."

Em 1983, Elliott Abrams, o secretário de Estado adjunto para Direitos Humanos sob a presidência de Ronald Reagan (1981-1989) sugeriu que o governo de Rios Montt "trouxe progressos consideráveis" para os direitos humanos.

Abrams defendia o levantamento de um embargo de cinco anos em ajuda militar à Guatemala pela administração Reagan. Rejeitando crescentes preocupações de grupos de direitos humanos sobre a crescente escala dos massacres em aldeias maias, Abrams declarou que "a quantidade de mortes de civis inocentes está sendo reduzida passo a passo".

Falando sobre "O Relatório MacNeil / Lehrer", argumentou, "acreditamos que esse tipo de progresso precisa ser recompensado e encorajado".

Depois que o golpe de 1954 depôs o presidente reformista Jacobo Arbenz, os EUA apoiaram uma série de ditadores militares que eram vistos como um baluarte contra o comunismo, especialmente após a vitória da revolução cubana em 1959.

Quando Ríos Montt assumiu após um golpe em março de 1982, funcionários do governo Reagan estavam ansiosos para abraçá-lo como um aliado. Os funcionários da Embaixada caminharam até a cena de massacres e endossaram o argumento do Exército de que os guerrilheiros eram responsáveis pelos assassinatos, de acordo com documentos descobertos por Doyle.

Ao longo dos dois anos seguintes, cerca de US$ 15 milhões em peças e veículos dos EUA chegaram aos militares guatemaltecos, disse o professor Michael E. Allison, um cientista político da Universidade de Scranton, que estuda a América Central. Mais ajuda veio de aliados dos EUA, como Israel, Taiwan, Argentina e Chile. Na década de 1990, o governo dos EUA revelou que a CIA pagou altos oficiais militares durante todo o período. "Era como um monstro que criamos e sobre o qual tivemos pouca influência", disse Allison.

*Por Elisabeth Malkin

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