Americano vítima de ataque de drone buscou 'se purificar' no Paquistão

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Jude Kenan Mohammad teve uma trajetória conturbada em Raleigh, Carolina do Norte, e sob a influência de um mentor adotou uma versão violenta e radical do Islã

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Quando Jude Kenan Mohammad tinha cerca de 18 anos e vivia em Raleigh, Carolina do Norte, estava sob influência de um homem mais velho, Daniel Patrick Boyd, que lhe ensinou uma versão violenta e radical do Islã, segundo amigos que conviviam com ele na época.

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Jude Kenan Mohammad foi morto por um ataque de avião não tripulado no Paquistão

Em 2009, Boyd foi indiciado e condenado como líder de um grupo de moradores da Carolina do Norte que prometiam realizar uma jihad nos EUA e no exterior. Mohammad também foi indiciado, mas, na ocasião, ele viajara para o Paquistão, onde se juntou a um grupo de militantes na região tribal do país.

Na quarta-feira, o governo dos EUA admitiu oficialmente pela primeira vez aquilo que tinha se espalhado como um boato entre seus amigos em Raleigh: que Mohammad havia sido morto em um ataque de aviões não tripulados (drones) da CIA em um composto no Waziristão do Sul, Paquistão, em 16 de novembro de 2011. Ele tinha 23 anos.

Ele foi um dos pelo menos quatro americanos mortos em "operações de contraterrorismo", disse o procurador-geral Eric Holder em uma carta enviada quarta-feira para o senador Patrick J. Leahy, presidente do Comitê Judiciário.

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Apenas um dos militantes mortos, o clérigo radical Anwar al-Awlaki, foi um alvo deliberado do ataque, segundo informou Holder na carta. Os outros foram mortos em ataques que não os visavam especificamente. Entre eles estão Samir Khan, outro jovem de Raleigh que havia se unido à filial iemenita da Al-Qaeda e foi morto junto a al-Awlaki; o filho de 16 anos de al-Awlaki, Abdulrahman, morto duas semanas depois; e Mohammad.

Autoridades americanas nesta quarta-feira afirmaram que Mohammad foi morto com cerca de 12 outros insurgentes no que a CIA chama de "ataque assinado" ("signature strike"), um ataque baseado em padrões de atividade, como homens empunhando armas em regiões controladas por grupos extremistas. Tais ataques provocaram profundas divisões dentro do governo Obama, com algumas autoridades se questionando se a morte de combatentes não identificados é legalmente justificável ou se vale a repercussão negativa.

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Após o ataque, uma amiga da família disse que a esposa de Mohammad, que ele conheceu e com quem se casou depois de se mudar para o Paquistão, ligou para a mãe dele na Carolina do Norte para dizer que ele tinha sido morto.

Refletindo a natureza secreta do programa de drones no Paquistão, o FBI tinha deixado o nome de Mohammad em sua lista de procurados após sua morte. Um porta-voz do FBI, Kathleen Wright, disse quarta-feira que ele seria removido.

Ao passo que Mohammad não era um alvo específico, ele foi submetido a um cada vez mais minuncioso exame pelas autoridades de contraterrorismo, que afirmavam que ele estava envolvido no recrutamento de militantes para a Al-Qaeda e para o Taleban do Paquistão, bem como fazia vídeos para o YouTube incitando a violência contra os EUA.

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Seth Jones, cientista político da RAND Corp. e ex-assessor do Comando de Operações Especiais do Exército, disse que enquanto esteve no Paquistão, Mohammad fez contato com cinco jovens na Virgínia que desapareceram de suas casas durante o período de Ação de Graças em 2009 e acabaram tentando se unir a grupos militantes. Em vez disso, foram presos e permaneceram sob custódia no Paquistão.

A amiga da família, que pediu para não ter seu nome publicado, disse que ele era "um bom menino, mas um seguidor". Seu pai paquistanês, Taj Mohammad, conheceu sua mão, uma católica americana que se converteu ao islã, em Nova York nos anos 80. Eles viveram no Paquistão por anos, mas no final dos anos 90, Elena se mudou de volta para os EUA com seu filho.

Jude Mohammad deixou o Ensino Médio mas, mais tarde, conseguiu um certificado equivalente e passou a estudar na Faculdade Wake Technical Community. Ele era um "frequentador da mesquita" em Raleigh e geralmente se voluntariava para ajudar na cozinha para preparar refeições para os pobres, disse a amiga. "Ele colocava comida na parte de trás de sua bicicleta e pedalava por quilômetros entregando mantimentos ao sair de casa", disse.

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Mais tarde, depois de ter deixado a escola, ele passou a usar drogas e se descrevia como um "perdido", disse a amiga. "Ele estava procurando a figura de um pai."

Depois de se encontrar com Boyd, um islâmico que se autodenominava Saifullah, ele foi ao exterior procurando uma maneira de se purificar. Boyd, que havia treinado em campos terroristas no Paquistão e no Afeganistão de 1989 até 1992, foi depois banido da mesquita em Raleigh por ser encrenqueiro. Em setembro de 2009, foi indiciado junto aos dois filhos, Mohammad e quatro outros homens por conspiração.

Enquanto era um fugitivo no Paquistão, Mohammad ligou algumas vezes para amigos e parentes americanos, especialmente nos feriados muçulmanos. As ligações pararam depois de novembro de 2011, disse a amiga, e os registros de sua morte começaram a circular pela comunidade muçulmana de Raleigh.

Por Scott Shane e Eric Schmitt

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