Violência sectária visceral afasta chance de perdão nacional na Síria

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Massacre recente de ao menos 322 vítimas na costa síria revela novos graus de depravação de conflito, em que rebeldes e governo se filmam cometendo atrocidades para o mundo ver

NYT

Depois de arrastar 46 corpos das ruas perto de sua cidade natal na costa da Síria, Omar perdeu a conta. Durante quatro dias, relatou, ele não conseguiu comer, lembrando-se do corpo queimado de um bebê de poucos meses de idade, de um feto arrancado da barriga de uma mulher, de um amigo morto, seu cão ainda fazendo guarda a seu lado.

ONU: Número de refugiados sírios passa de 1,5 milhão

AP
Reprodução de vídeo mostra corpos em Bayda, Síria (03/05)


NYT: Rússia envia mísseis avançados em apoio a Assad na Síria

Saiba mais: Veja o especial do iG sobre a Primavera Árabe

Omar sobreviveu ao que moradores, ativistas antigoverno e monitores de direitos humanos consideram um dos episódios recentes mais obscuros da guerra da Síria, um massacre na província de Tartus (dominada pelo governo), que inflamou divisões sectárias, revelou novos graus de depravação e tornou a possibilidade de recompor o país cada vez mais distante.

O assassinato em massa foi um de uma série de recentes ataques sectários que sírios em ambos os lados se aproveitam para demonizar uns aos outros. Forças do governo e rebeldes se filmaram cometendo atrocidades para o mundo ver.

Gravações rotineiramente mostram combatentes pró-governo espancando, matando e mutilando rebeldes sunitas detidos, forçando-os a se referir ao presidente Bashar al-Assad como Deus. Um rebelde recentemente se filmou extirpando um órgão de um membro das forças pró-governo morto, mordendo-o e prometeu o mesmo destino aos alauítas, membros da seita muçulmana xiita de Assad.

Abu Sakkar: Vídeo em que rebelde sírio arranca coração de soldado provoca indignação

Esse tipo de violência alimentou o pessimismo sobre os esforços internacionais para acabar com o conflito. Enquanto os EUA e a Rússia trabalham para organizar negociações de paz no próximo mês entre Assad e seus adversários, a carnificina cada vez mais extrema faz a reconciliação parecer cada vez mais remota.

Nadim Houry, diretor do Human Rights Watch em Beirute, disse sentir "uma total desconexão entre a diplomacia e os acontecimentos no campo de batalha". "O conflito está cada vez mais visceral", afirmou. Sem medidas concretas de construção de confiança, disse, e com mais pessoas "vendo a guerra como uma luta existencial, é difícil imaginar como seriam as negociações".

Dia 3: Oposição síria acusa governo de cometer massacre em vila sunita

As execuções recentes, reconstituídas por meio de conversas com os residentes e monitores de direitos humanos, aconteceram ao longo de três dias em dois enclaves sunitas em Tartus, província amplamente alauíta e cristã, primeiramente na aldeia de Bayda e, em seguida, no distrito de Ras al-Nabeh da cidade vizinha de Banias.

Dia 4: Sunitas fogem de área costeira da Síria após relatos de dois massacres

Soldados do governo e milícias de apoio foram de casa em casa matando famílias inteiras e esmagando cabeças dos homens com blocos de concreto.

Ativistas antigoverno divulgaram listas de 322 vítimas que disseram ter identificado. Vídeos mostraram ao menos mais de dez crianças mortas. Há relatos de centenas de desaparecidos.

"Como poderemos alcançar um ponto de perdão nacional?", indagou Ahmad Abu al-Khair, um blogueiro bem conhecido de Bayda. Segundo ele, os ataques começaram nessa vila, em que 800 dos 6 mil residentes estão desaparecidos.

Aliado: Hezbollah assume riscos ao combater rebeldes sírios em defesa de Assad

Várias imagens de vídeo feitas pelos moradores em Bayda e em Ras al-Nabeh - de crianças pequenas mortas, algumas se abraçando ou envoltas nos braços de seus pais - eram tão duras que mesmo partidários do governo rejeitaram a versão oficial da televisão síria de que o Exército "reprimiu vários terroristas".

Líderes da oposição caracterizaram os massacres de "limpeza" sectária com o objetivo de expulsar os sunitas de um território que pode fazer parte de um eventual Estado alauíta se a Síria acabar se desintegrando. Houry disse que a matança inevitavelmente desencadeou esses temores, embora não haja evidência de que essa política seja disseminada.

Por Anne Barnard e Hania Mourtada

Leia tudo sobre: baniasmassacre em baydasíriaassadmundo árabeprimavera árabe

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas