Escândalos levantam dúvidas sobre o que Obama espera de seu segundo mandato

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Controvérsias que atingem governo Obama reforçam temores de administração intrusiva e põem em questão a capacidade do líder americano de controlar sua própria presidência

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Frustrado no Capitólio e no Oriente Médio, agora assolado por escândalos, o presidente Barack Obama chegou a um ponto apenas seis meses após sua reeleição em que o segundo mandato que esperava ter colide com o que de fato tem.

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Presidente dos EUA, Barack Obama, faz pausa durante coletiva na Casa Branca, Washington (30/04)

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Obama saiu de uma campanha bem disputada em novembro com a confiança renovada de que poderia moldar os próximos quatro anos com uma visão de governo ativista agindo como uma força para o bem da sociedade americana. Mas as polêmicas dos últimos dias reforçaram os temores de um governo intrusivo e também impuseram questões sobre a capacidade de Obama de dominar sua própria presidência.

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Os desafios sublinharam um paradoxo a respeito do 44 º presidente. Ele preside um governo que, para os críticos, parece cada vez mais intrusivo, ditando as escolhas da assistência à saúde, fazendo política com a Receita Federal e espionando registros telefônicos dos jornalistas. No entanto, às vezes, Obama parece ser um mero espectador que ocupa o cargo mais poderoso do mundo, fustigado por partidarismo e forças que vão além de seu controle.

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Ao anunciar em 15 de maio a saída do diretor interino da Receita Federal, ele retratou a si mesmo como um espectador do escândalo, mas com o poder para realizar mudanças. "Os americanos têm o direito de estar com raiva dessa situação, eu estou irritado com isso", disse. Assessores disseram que ele também não teve nenhuma relação com a obtenção por parte do Departamento de Justiça de registros telefônicos de jornalistas da Associated Press.

A discussão com os republicanos sobre o ataque contra os EUA em Benghazi em setembro, alega Obama, é uma questão política descarada. O caso, porém, forçou a Casa Branca a divulgar na quarta e-mails para mostrar que assessores próximos do presidente tiveram pouco envolvimento no seu aspecto mais debatido.

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Também segundo seus assessores, Obama não é capaz de forçar o Congresso a aprovar um projeto de lei de controle de armas mesmo modesto. E, em mais um sinal ruim para sua presidência, a matança na Síria desafia a capacidade dos EUA de intervir.

Tudo isso levanta a questão de como um presidente com grandes ambições e horizontes restritos pode usar seu cargo. Obama pode ter razão sobre algumas das coisas que não pode fazer, mas ele também teve dificuldades recentemente de apresentar uma visão do que pode fazer.

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A área mais óbvia para um possível progresso é a imigração, em que os republicanos parecem querer chegar a um acordo para melhorar sua posição com os eleitores latinos. Assessores mantêm a esperança de chegar a um acordo sobre o Orçamento, de ressuscitar o controle de armas e utilizar os poderes executivos para reduzir as emissões de gases-estufa. E Obama poderia moldar as políticas ao colocar sua assistência à saúde em vigor, ao nomear juízes federais e um presidente do Federal Reserva (Banco Central americano) e ao retirar mais soldados do Afeganistão.

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O segundo mandato há muito irrita os presidentes, seja no Caso Irã-Contras de Ronald Reagan ou no impeachment de Bill Clinton. Assim como Obama não conseguiu vencer sua primeira prioridade pós-posse relativa ao controle de armas, o presidente George W. Bush viu seu esforço de reforma previdenciária, em seu quinto ano, ir a lugar nenhum. Com a espiral de violência no Iraque, Bush teve dificuldades em recuperar suas forças.

No entanto, esses presidentes obtiveram avanços em seu segundo mandato mesmo em meio a investigações do Congresso. Reagan assinou um tratado de armas nucleares com a União Soviética e Clinton equilibrou o Orçamento. Bush desafiou a ampla oposição a um aumento de soldados americanos no Iraque, alimentando uma reação dos EUA no país árabe.

Para Obama, a queda acentuada na projeção do déficit, anunciada no dia 14 pelo Escritório de Orçamento do Congresso, serviu como um lembrete de que terminar seu mandato com uma economia mais saudável poderia ser mais importante para seu legado do que os contratempos desta semana.

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Ao lado de premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, presidente dos EUA, Barack Obama, verifica se ainda chove durante coletiva na Casa Branca (16/05)

Ainda assim, os últimos acontecimentos poderiam fortalecer a impressão de uma presidência de Obama que ampliou o alcance do governo para além do que muitos americanos gostariam. E eles podem minar uma ferramenta poderosa da presidência, a capacidade de atrair a atenção pública.

Obama reconheceu essa dinâmica quando senador, dizendo a assessores que um presidente poderia conduzir apenas 15% a 20% da agenda; no restante do tempo, teria apenas de reagir. Tendo isso em perspectiva, dizem assessores, Obama mantém seu famoso equilibrio, livre de pressões de campanha, assumindo uma visão de longo prazo.

Nesta semana, enquanto enfrentava um frenesi de escândalos sem precedentes, ele baixou a gaurda durante um evento de arrecadação de fundos em Nova York. "Pensei que, depois que os derrotasse em 2012, acalmaria a agitação", disse a doadores. "Mas ela ainda não arrefeceu."

Ele soou quase melancólico ao desejar que tivesse mais habilidade para avançar sua agenda. "Eu certamente quero cuidar da administração", disse a um outro grupo de contribuintes. "Quero que algumas coisas sejam feitas. Não tenho muito tempo.”

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Ainda assim, quando viajava no Marine One no dia 13, Obama prestou atenção a notícias descrevendo a última sexta como um dia terrível. "Você sabe o que realmente foi um dia terrível?", um assessor se lembra dele dizendo. "O dia em que Benghazi aconteceu."

*Por Peter Baker

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