Inteligência e carisma escondiam lado obscuro de suspeito de ataque a Boston

Por NYT | - Atualizada às

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Dzhokhar Tsarnaev era saudável, atlético, tinha um humor seco e uma atitude descontraída, mas aos poucos revelava problemas que guardava para si, mas insistiam em inquietá-lo

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No dia seguinte à explosão de duas bombas perto da linha de chegada da Maratona de Boston, Dzhokhar Tsarnaev enviou uma mensagem de texto para um colega de classe na Universidade de Massachusetts em Dartmouth. "Vamos sair?", ele perguntou. "Claro", seu colega respondeu.

Em Boston, a polícia e o FBI realizaram investigações que após três dias resultaram na captura de Tsarnaev e na morte de seu irmão, Tamerlan. No entanto, naquela terça-feira à tarde, foi ao apartamento de seu amigo, onde disputou uma partida do jogo FIFA Soccer no PlayStation. Naquela noite, foi se exercitar na academia do campus.

Na quinta-feira à tarde, comeu com seus amigos em uma lanchonete da faculdade. Na sexta-feira, foi alvo da maior operação policial da história de Massachusetts.

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Até mesmo para seus amigos mais próximos, Dzhokhar era um garoto de 19 anos de idade inteligente, saudável, atlético, com um humor seco e uma atitude descontraída, gostava de futebol e de frequentar festas e também gostava de fumar maconha. Eles raramente ficavam sabendo do outro aspecto de sua vida: a desintegração de sua família, seu irmão controlador. Os problemas com os quais ele entrava em contato apenas em seus momentos mais íntimos.

"Eu tive quase duas semanas para pensar a respeito disso, e mesmo assim ainda não faz nenhum sentido para mim", disse Jason Rowe, colega de quarto de Tsarnaev, em uma entrevista. "Nada a respeito dele parecia suspeito."

Tsarnaev agora se encontra em uma clínica penitenciária, acusado pelas autoridades federais de ter utilizado uma arma de destruição em massa - as bombas, repletas de explosivos extraídos de fogos de artifício - que deixou três mortos e feriu mais de 260 no dia 15 de abril. Diante de evidências convincentes, muitos amigos ainda acham difícil acreditar que o adolescente que conheciam - o "cara legal", o "grande aluno" com um "coração de ouro", o garoto que "não iria provocar violência" - poderia deliberadamente cometer tal atrocidade.

No entanto, há sinais oblíquos de que o abismo entre sua vida particular e pública estava aumentando. Entre piadas obscenas e publicações sobre garotas e carros no Twitter, Dzhokhar também descreveu terríveis pesadelos relacionados a assassinato e destruição. No ano passado, comentou a respeito de sua insatisfação com o estilo de vida e mentalidade americana.

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E conforme o dia da maratona se aproximava, dava pistas enigmáticas sobre um plano de ação e a justiça de uma causa silenciosa. 

Dzhokhar Tsarnaev nasceu em julho de 1993 no Quirguistão, parte da antiga União Soviética, o mais jovem de quatro filhos em uma família que percorreu por décadas todo o Cáucaso e o centro da Ásia, buscando um lar estável.

Ele falava mal em inglês no ano de 2002, quando seu pai, Anzor, de etnia chechena, o levou do Daguestão para Massachusetts, eventualmente obtendo asilo alegando perseguição política. No momento em que foi matriculado na Cambridge Rindge and Latin School, em 2007, entretanto, ele falava com pouco sotaque, adaptando-se perfeitamente a um corpo discente que era uma mistura de imigrantes com estudantes norte-americanos.

Ele prosperou na escola. Jahar, como seus amigos o chamam, se tornou um aluno brilhante, conquistando uma bolsa de estudos no valor de US$ 2,5 mil após sua formatura em 2011. Ele amava literatura e história mundial, particularmente estudos sobre sua terra natal.

Em seu segundo ano, ele se juntou ao time de luta greco-romana da escola e rapidamente se tornou habilidoso e forte. Seus colegas de equipe afirmaram que olhavam par aele como um professor e incentivador. "Estávamos subindo e descendo escadas havia horas", disse Zeaed Abu-Rubieh, hoje com 21 anos. "Toda vez que eu parava, quando eu pensava em sair, ele me incentivava. Ele dizia: 'Vai, corre. Você consegue'. Ele acreditava nas pessoas."

Seus colegas da equipe votaram nele para capitão. Um dos treinadores, Peter Payack, disse que ele merecia. "Você sempre enxerga os traços da personalidade das pessoas no curso de uma temporada (de lutas)", disse. "Se alguém tem pavio curto, quando perde uma luta, pode talvez jogar uma cadeira. Há algumas pessoas mal-humoradas, ou que tendem a ser solitárias. Ele não era nenhuma dessas coisas."

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Reprodução de vídeo mostra Dzhokhar Tsarnaev, suspeito por ataque em Maratona de Boston, em ambulância depois de ser capturado em barco

"Após uma luta, há uma oportunidade para ficar furioso, dizer que o juiz roubou. Ele simplesmente aceitava. Se ele perdia uma luta, ele dizia: 'Bem, eu fiz o melhor que pude'. E quando ele vencia, ele levantava os braços e dizia: 'Eu venci!'. Mas nunca foi de forma alguma excessivo."

Mas como com quase todo mundo, no entanto, a relação de Payack com Dzhokhar nunca foi profunda.  Dzhokhar se desviava com facilidade de perguntas curiosas que buscavam saber mais a respeito de seus assuntos pessoais. Ele raramente falava sobre seu passado, exceto para dizer que era checheno ou que tinha vivido na Rússia.

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Ele era popular - "havia um monte de meninas querendo conhecê-lo melhor", disse Umarov Junes, 18 anos, um grande amigo que também é de origem chechena - mas até mesmo outros amigos íntimos dele não sabiam se ele tinha uma namorada. Quase ninguém sabia nada a respeito de sua família, além de algumas breves aparições de seu irmão mais velho, Tamerlan.

Todo ano, o time de luta da escola onde Dzhokhar estudava pedia para cada alguno levar um parente para a última luta do ano para entrar no ginásio, ganhar uma flor e tirar uma foto. Na noite da última luta de Dzhokhar, "um dos treinadores entrou no ginásio. Sem pai, sem irmão, nada".

Poucos sabiam o outro lado da vida de Dzhokhar. Mas aos poucos ela ia se revelando.

Umarov conhece Dzhokhar desde 2004, logo depois que sua família veio para os Estados Unidos. Dzhokhar às vezes passava semanas em casa durante o verão brincando com Junes e seus irmãos.

De repente, as visitas a casa de Tsarnaev se tornaram diferentes. "Toda vez que íamos na casa de Dzhokhar, seu irmão nos mandava fazer um monte de flexões para entrarmos em forma, pois ficávamos o dia inteiro trancados jogando videogames", disse Umarov. "Seu irmão nunca lhe deu conselhos errados. E por isso Dzhokhar o admirava. "

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Um segundo amigo checheno desde a infância, Baudy Mazaev, 18 anos, disse que o irmão mais velho e sua mãe, Zubeidat Tsarnaeva, “tiveram uma epifania religiosa profunda" há cerca de dois ou três anos. Na época, a nova devoção de Tamerlan apenas irritou Dzhokhar. 

Durante uma visita cerca de dois anos atrás, segundo Mazaev, Tamerlan fez com que ele e Dzhokhar se sentassem e obrigou que os dois adolescentes lesses um livro sobre os fundamentalismos do Islã e da oração. Depois disso, eles passaram a evitar ir ao apartamento.

"Ele dizia: 'Não vamos para minha casa. Tamerlan vai nos fazer ler'. E ele era um cara grandão, então nós tínhamos que escutá-lo."

Durante uma troca de mensagens de texto, segundo Mazaev, Dzhokhar indicou que Tamerlan estava no apartamento com ele. Quando Mazaev demorou para responder, ele disse: "Pare de me ignorar. Volte. Não me deixe sofrer sozinho."

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Dzhokhar Tsarnaev ao lado de colega no dia de sua formatura no ensino médio

Apesar da conversão, Tamerlan não perdeu seu brilho diante dos olhos do irmão mais novo. "Eu sei que ele o respeitava por ser mais velho, especialmente quando seu pai foi para a Rússia", disse. "Ele era seu irmão mais velho e o único homem da casa, então ele dependia mais dele."

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Enquanto o irmão mais jovem rezava diariamente durante oa intervalos do almoço na escola, e pelo menos em uma ocasião em seu dormitório, ele nunca aparentou ser um firme devoto, e chegou até a dizer a uma professora: "Eu não estou muito ligado a isso". Até sua prisão, ele bebia e fumava maconha - mais maconha que a maioria dos seus colegas no colégio e na universidade - apesar da clara desaprovação de Tamerlan.

O Dzhokhar que Mazaev e Umarov conseguiam enxergar era o mesmo Dzhokhar que eles conheciam há uma década. Dentro dele, entretanto, algumas coisas estavam mudando.

Em fevereiro de 2011, quando a mãe dos meninos se converteu ao Islã, ela se separou de seu marido, Anzor, um homem formado em advocacia na Rússia, que se contentou em trabalhar consertando carros em uma garage em Cambridge. Os dois se divorciaram em setembro daquele ano e Anzor voltou para a Rússia, seguido mais tarde por sua ex-esposa.

Tamerlan preencheu o vazio como chefe da filial americana da família. No Twitter, Dzhokhar escreveu que ele sentia falta de seu pai.

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Na faculdade, as notas de Dzhokhar despencaram e ele se vangloriou na internet por matar aulas e por receber uma prova "com todas as respostas".

Ele obteve a cidadania americana em 11 de setembro de 2012 e estava "muito feliz com isso", disse seu primeiro colega de quarto, Rowe. Porém, em março, ele escreveu: "Há dez anos nos EUA e eu quero uma saída", e depois: "Sinto falta da minha terra natal #daguestão #chechênia."

Dias antes da cerimônia de obtenção da cidadania, ele expressou admiração por que não mais pessoas percebiam que os ataques do 11 de Setembro contra o World Trade Center se tratavam de um "crime interno".

Esse e outros comentários sugerem uma postura defensiva sobre a confluência do Islã e do terrorismo estranha para um jovem que anteriormente havia dito que "não estava muito ligado a isso".

Apenas há um ano, ele esperava se tornar engenheiro e se preocupava com suas notas, de acordo com Sanjava Lamichhane, que era do time de luta greco-romana de Dzhokhar no ensino médio e também estudava na mesma universidade que ele.

Depois que ele surgiu como suspeito do ataque à maratona, segundo Lamichhane, um amigo em comum da Universidade de Massachusetts, relatou sua última conversa com Dzhokhar, duas semanas antes do atentado. Dzhokhar teria dito ao amigo: "Deus é tudo que importa. Não me importo com a faculdade ou com engenharia", disse Lamichanne. "Ele disse: 'Quando se trata de vir para a faculdade e se tornar um engenheiro, você pode trapacear facilmente. Mas quando se trata de ir para o paraíso, você não pode trapacear'."

Em 15 de abril, o treinador Payack estava há mais de uma quadra da linha de chegada, se apressando para ver seu filho completando a prova quando a primeira bomba explodiu. Ele ainda tem dificuldades para escutar em um dos ouvidos. 

Uma noiote, exatamente um mês antes disso, Dzhokhar foi até a casa de Umarov em Chelsea com um amigo. Eles levavam uma série de fogos de artifício. Os três conversaram sobre a faculdade comendo hamburgeres em um restaurante. Então, voltaram para casa. "Aquela foi a última vez que eu vi Dzhokhar."

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Na tarde de 15 de abril, o outro amigo, Mazaev, recebeu uma mensagem de texto dele. A maratona havia sido atacada e a cidade estava mergulhada em caos.

"Ei, amigo. Você está bem?", perguntou Dzhokhar

"Duas bombas explodiram", respondeu Mazaev. "As pessoas perderam seus membros."

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Foto mostra homem que acredita-se ser Dzhokhar Tsarnaev, um dos suspeitos do ataque em Boston (15/4)

"Sim, cara. Boa mashallah", escreveu Dzhokhar de volta, usando uma frase em árabe geralmente dita quando se houve uma boa notícia. "Eu automaticamente pendei em você, cara."

Mazaev respondeu: "É muito louco, eu pensei em ir ver (a maratona) com amigos, mas dormi durante todo dia."

"Ok, cara. Se cuida e mantenha contato", disse Dzhokhar.

Quatro dias depois, com Tamerlan morto e Dzhokhar foragido, Mazaev escreveu outra mensagem: "Jahar, cara, se você ler isso apenas se entregue pelo bem dos seus pais. Será muito mais seguro. Não há motivos para isso. Apenas se entregue para fazer com que todos fiquem seguros. NÃO FAÇA ISSO PIORAR."

Dzhokhar nunca respondeu.

Por Michael Wine e Ian Lovett

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