Abusos sexuais são provocados por vítimas, dizem conservadores do Egito

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Legisladores ultraconservadores islâmicos afirmam que atitude das mulheres 'contribui para seu próprio estupro'; ataques ressaltam fracasso do governo Morsi em restaurar ordem social

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O número de mulheres que sofreram abusos sexuais e estupros em uma única praça pública tornou-se grande demais para ser ignorado. Ultraconservadores islâmicos da nova elite política do Egito ficaram indignados - com as mulheres. "Às vezes", disse Adel Abdel Maqsoud Afifi, um general da polícia, legislador e ultraconservador islâmico, "uma menina contribui em 100% para o seu próprio estupro quando se coloca nestas condições".

O aumento nas agressões sexuais ao longo dos últimos dois anos, desencadeou uma nova batalha para decidir quem é o culpado, e o debate tornou-se uma ilustração das contradições que afetam o Egito à medida que o país tenta se reinventar.

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Sob o governo de Hosni Mubarak, a polícia protegia as praças públicas contra atos de agressão sexual. Mas, desde a sua saída do poder, a retirada das forças de segurança abriu espaço para uma leva de atos de agressão sexual, aterrorizando as egípcias.

As mulheres, no entanto, também aproveitam um outro aspecto da ausência da autoridade – falam aos meios de comunicação, desafiando tabus sociais e exigindo que seja dada a devida atenção a um problema que o antigo governo costumava rejeitar. Ao mesmo tempo, algumas autoridades islâmicas eleitas têm usado suas novas posições para alavancar algumas das posições mais patriarcais na cultura tradicional do Egito e demonstram uma profunda hostilidade à participação das mulheres na política.

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Essas autoridades declararam que as vítimas dos abusos ofereceram oportunidade para os ataques ao participarem de protestos públicos. "Como é que elas pedem que o Ministério do Interior proteja uma mulher que circula entre os homens?", questionou Reda Saleh Al al-Hefnawi, legislador do partido político da Irmandade Muçulmana em uma reunião parlamentar sobre o assunto.

A revolta no Egito inicialmente prometeu reabrir o espaço público às mulheres. Homens e mulheres protestaram pacificamente juntos na Praça Tahrir durante os inebriantes 18 dias e noites que levaram à queda de Mubarak. Mas, poucos minutos após sua partida, a ameaça ressurgiu quando um grupo atacou a correspondente da CBS Lara Logan. Não existem estatísticas oficiais a respeito das mulheres que foram atacadas - em parte, porque poucas mulheres costumam relatar abusos, mas todos reconhecem que os ataques têm aumentado e se tornado cada vez mais mais ousados e violentos.

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Hania Moheeb, 42 anos, jornalista, foi uma das primeiras vítimas a falar sobre sua experiência naquele dia. Em uma entrevista à televisão, ela contou como um grupo de homens a rodeou, tirou sua roupa e a estuprou por 45 minutos. Moheeb lembrou que os homens gritavam que estavam tentando resgatá-la e, quando a ambulância chegou, ela já não conseguia diferenciar seus agressores de seus defensores.

Para aliviar o estigma social geralmente associado a vítimas de violência sexual na cultura conservadora do Egito, seu marido, Sherif Al Kerdani, apareceu ao lado dela. "Minha esposa não fez nada de errado."

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Os ataques ressaltaram o fracasso do governo de Mohammed Morsi, ligado ao braço político da Irmandade Muçulmana, em restaurar a ordem social. Os comentários de aliados islâmicos do presidente culpando as mulheres pelos estupros foram simplesmente vergonhosos.

Pakinam el-Sharkawy, assessora política do presidente e mulher que ocupa a posição de mais alto escalão em seu governo, chamou essas afirmações de "completamente inaceitáveis".

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Ela atribuiu os ataques a degradação geral da segurança, mas também à recusa dos manifestantes de permitirem que a polícia patrulhe a praça desde a revolta contra Mubarak. "Os manifestantes insistem em manter a polícia fora da praça, até mesmo para controlar o tráfego", disse.

No fim de março, o governo de Morsi convocou uma reunião com as mulheres para que pudessem discutir planos para uma melhoria. Até agora, no entanto, sua medida mais concreta para resolver o problema foi a legislação para criminalizar o assédio sexual.

Mas os defensores dos direitos das mulheres disseram que a lei não faria nada para protegê-las do desprezo que as vítimas de assédio sexual enfrentam em hospitais e delegacias de polícia – sem mencionar no Parlamento - ao tentar abrir queixas legais.

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Os membros da elite política, entretanto, pareciam mais preocupados em colocar a culpa uns nos outros. A Irmandade Muçulmana "planejou o assédio sexual na praça Tahrir" para intimidar os manifestantes, afirmou Mohamed Abu Al Ghar, o presidente do Partido Social Democrata egípcio.

A Irmandade Muçulmana afirmou que os líderes da oposição "ignoraram os acontecimentos de assédio e estupro" na praça, de acordo com uma coluna no site da Irmandade. Os estupros são "uma desgraça para sua reputação".

Outros parlamentares da Irmandade colocaram a culpa nos organizadores do protesto por não terem separado os manifestantes por gênero como os islâmicos costumam fazer.

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Alguns islamistas ultraconservadores, agora um poder político ao lado da Irmandade, condenaram as mulheres por se manifestarem em público sobre os ataques. "Você vê essas mulheres falando como ogros, sem vergonha, sem polidez ou medo e até mesmo sem nenhuma feminilidade", declarou um pregador de televisão, Ahmed Abdullah, conhecido como Sheikh Abu Islam.

Essa mulher é "como se fosse um demônio", disse, perguntando-se por que alguém deveria se simpatizar com aquelas "mulheres nuas" que "foram lá para serem estupradas".

Moheeb disse que tais comentários eram simplesmente "inaceitáveis" e acusou os parlamentares islâmicos de serem cúmplices. "Quando pessoas comuns afirmam algo de uma maneira tão ignorante assim, até dá para entender", disse Moheeb, "mas quando alguém na legislatura faz um comentário desses, eles acabam incentivando este tipo de agressão".

Por Mayy El Sheikh e David D. Kirkpatrick

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