Morte no Egito reflete dificuldade do governo islâmico em controlar policiais

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Morte de manifestante crítico ao presidente é envolto em mistério; forças de segurança são acusadas de usar brutalidade contra Mohammed Al-Gindy em colaboração com o governo

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Mohammed Al-Gindy passou três dias participando dos violentos protestos na Praça Tahrir, no Egito. Em uma entrevista para a televisão, prometeu que haveria uma reação caso o novo governo islâmico tentasse recriar o Estado policial egípcio. Ele também ridicularizou o presidente Mohammed Morsi.

"Não aceitaremos ser ameaçados, filhinho da mamãe", Al-Gindy escreveu em uma mensagem no Twitter.

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Algumas horas mais tarde, Al-Gindy foi encontrado caído na rua, com a cabeça ensanguentada. Hoje, depois de quase três meses, a morte de Al-Gindy é um mistério envolto em acusações de brutalidade policial, retaliação política, encobrimento oficial, e uma colaboração entre os novos líderes islâmicos e as mesmas forças de segurança que uma vez os prenderam e lutaram contra eles.

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Sua morte trouxe à tona um dos desafios mais complicados enfrentados pelo novo governo: como domar forças de segurança irresponsáveis e profundamente desprezadas. Mas também levantou questões a respeito do comprometimento de Morsi com uma reforma da polícia, sua vontade de fechar os olhos para o assassinato de um adversário político, e seu medo de entrar em conflito com seu próprio Ministério do Interior.

Os conselheiros de Morsi disseram que ele apoia uma abordagem "gradual" para a reforma das forças de segurança. Ele teme uma revolta da polícia no momento em que os seus serviços são necessários para conter o caos nas ruas e para estabilizar a economia e o processo político. Mas grupos de direitos humanos e a oposição política alertaram para uma possível volta ao autoritarismo.

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Al-Gindy foi descoberto morto com sangramento de cortes acima de um olho e em seu couro cabeludo de acordo com testemunhas e socorristas da ambulância.

Incapazes de encontrar Al-Gindy em hospitais, delegacias de polícia ou em necrotérios, seus amigos ligaram desesperadamente para um conhecido no Ministério do Interior. Al-Gindy finalmente foi localizado em 31 de janeiro no hospital do Cairo, onde a ambulância o havia deixado. Quatro dias depois, ele morreu e sua família acusou Morsi de assassinato.

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Mas o então ministro da Justiça declarou que a morte de Al-Gindy foi causada por um atropelamento. "O médico legista anunciou que o relatório da autópsia mostrou que ele morreu por ter sido atropelado por um carro", declarou o então ministro Ahmed Mekki. "O paramédico testemunhou e o relatório da autoridade forense provou isso."

O médico legista, no entanto, não tinha emitido tal relatório. Tanto o motorista da ambulância quanto o paramédico disseram que não deram tal testemunho.

Mais tarde, Mekki reconheceu que sua fonte para tal informação havia sido relatada apenas pelo ministro do Interior. Mekki apresentou sua renúncia em 21 de abril, aparentemente por razões não relacionadas ao ocorrido.

Por David D. Kirkpatrick

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