Hezbollah assume riscos ao combater rebeldes sírios em defesa de Assad

Por NYT |

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Treinado para enfrentar Israel, grupo se envolve em guerra civil para garantir abastecimento de armas, mas tem como ônus a perda de reputação no mundo árabe e dentro do Líbano

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Perto de Damasco, combatentes do grupo militante libanês Hezbollah defendem o santuário de Sayida Zeinab, reverenciado pelos muçulmanos xiitas, de ataques dos rebeldes sunitas. Ao norte, eles não são apenas parte de uma campanha do governo sírio para recuperar a cidade estratégica de Qusair, disseram os rebeldes, mas lideram tal esforço.

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The New York Times
Cartaz do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, e do presidente da Síria, Bashar al-Assad, é visto em Baalbak, Líbano (22/01)

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Em 6 de maio, ativistas da oposição síria informaram que rebeldes mataram 15 combatentes do Hezbollah em Qusair. Mas os rebeldes, relataram, estavam sitiados na cidade e em risco de perdê-la depois de combatentes do Hezbollah os terem expulsado de cidades vizinhas.

Recrutados e treinados para lutar contra Israel e defender o Líbano, os combatentes xiitas libaneses do Hezbollah cada vez se engajam mais em uma luta muito diferente: na vizinha Síria, contra outros muçulmanos árabes que tentam derrubar o presidente Bashar al-Assad. Seus líderes têm deixado cada vez mais claro que a guerra de Assad também é sua guerra.

Embora nunca tenha sido tão forte militarmente quanto agora - o Hezbollah mais do que recompôs as armas e combatentes perdidos em sua breve guerra com Israel em 2006 -, o grupo encontra-se em uma situação inusitada. Ele luta para preservar a credibilidade em casa e afastar uma série de novos desafios no exterior enquanto trava o que vê como uma batalha para preservar o governo de Assad e o fundamental envio de armas que ele proporciona.

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Seu patrono chefe, o Irã, sofre sanções por seu programa nuclear. Alguns de seus membros foram presos sob acusação de ajudar a matar turistas israelenses na Bulgária enquanto a Europa considera se unir aos EUA em rotulá-lo como uma organização terrorista. Ele enfrenta questões sectárias de seus rivais no Líbano - enquanto tenta manter seu foco em seu principal inimigo, Israel.

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Esse desafio ficou evidente em 3 e 5 de maio, com uma série de ataques aéreos que iluminou o céu da capital da Síria, Damasco. Autoridades americanas disseram que Israel lançou o ataque para destruir sofisticados mísseis de longo alcance enviados do Irã ao Hezbollah.

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Israel atingiu essas transferências regularmente no Líbano e em dois meses diferentes na Síria, mas o grande alcance e ousadia dos ataques dos dias 3 e 5, segundo analistas, impôs um desafio para o Hezbollah, o Irã e a Síria, que poderia colocar o grupo libanês em maior risco enquanto Israel parece tirar proveito do caos na Síria para atingir seu inimigo.

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O Hezbollah já pagou um preço político por sua postura com a Síria. Seu apoio à repressão brutal de Assad destruiu sua reputação no mundo árabe como uma figura central dos menos favorecidos. Agora ele atrai insatisfação em parte do Líbano, onde dizem que o Hezbollah, o mais poderoso ator político, traiu sua promessa de usar suas armas apenas para defender o país.

Mas em vez de se afastar de Assad, o Hezbollah dobrou sua presença. No início do conflito sírio, silenciosamente tentou mediar uma solução para, em seguida, subestimar seu envolvimento na Síria. Agora, em comparação, praticamente anuncia sua presença. De acordo com autoridades israelenses e americanas, o Hezbollah também ajuda a treinar os combatentes pró-governo da Síria para se tornar uma força mais formal de Defesa Nacional.

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O sucesso no terreno intensifica a reação dos sunitas, contribuindo ainda mais para o ódio sectário. Combatentes sunitas filmam incêndios contra centros religiosos xiitas na Síria e enviam pedidos para receber ajuda contra os "cães" xiitas do Hezbollah ou "do partido do diabo", uma brincadeira com o nome do Hezbollah, o Partido de Deus.

No mês passado, os rebeldes lançaram bombas através da fronteira na cidade de Hermel, controlada pelo Hezbollah, matando um menino e um homem que visitava sua noiva, informou o grupo de direitos humanos Human Rights Watch. Isso apenas aumentou ainda mais a convicção do Hezbollah de que o levante na Síria é uma ameaça para os xiitas, que seriam o maior grupo no Líbano, mas uma minoria na região.

Sunitas e xiitas do Líbano lutam em lados opostos na Síria, mas até agora não no Líbano, embora a fronteira ao longo do Vale do Bekaa esteja repleta de militantes do Hezbollah e dos sunitas entrando e saindo da Síria.

Apesar de tudo isso, o Hezbollah ainda está vigilante na fronteira com Israel, e seu contingente militar não está tão sobrecarregado assim para lutar contra Israel, disse Nicholas Blanford, autor de um livro biográfico do grupo. De acordo com analistas, ele possui, no máximo, alguns milhares de combatentes na Síria, e sua força total cresceu para cerca de 5 mil combatentes em tempo integral e até 15 mil na reserva.

Se Assad cair, Hezbollah teme que Israel poderia ir atrás dele, sabendo que não poderia mais reabastecer suas unidades. Nesse ínterim, a Síria é "uma batalha de treinamento", disse o Kamel Wazni, outro analista libanês do Hezbollah. "Tudo isso faz parte dos preparativos para uma batalha maior."

Por Anne Barnard

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