Shaheena, funcionária de uma fábrica no prédio Rana Plaza, ficou por 100 horas sob os escombros após desabamento que deixou mais de 900 mortos

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Equipes de resgate descobriram o paradeiro dela por meio de um som fraco e distante. Bombeiros e socorristas passaram quatro dias se rastejando pelos destroços do edifício Rana Plaza, com toneladas de concreto e aço, salvando milhares de sobreviventes. Depois de tudo isso, apenas os mortos permaneceram. Com exceção de uma mulher, uma trabalhadora de uma das fábricas de roupas.

Ela estava presa atrás de uma pilastra caída em uma sufocante abertura com apenas meio metro de altura. Primeiramente, as equipes de resgate conseguiram ver apenas as pontas dos seus dedos pressionando por meio de uma pequena abertura. Depois de horas gastas tentando cavar um buraco, eles conseguiram ver o rosto. O nome dela era Shaheena, 32, e ela pedia para ver seu filho.

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Jesmina Akhtar, irmã de Shaheena, funcionária do Rana Plaza, segura o seu sobrinho Robin no colo
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Jesmina Akhtar, irmã de Shaheena, funcionária do Rana Plaza, segura o seu sobrinho Robin no colo

A história de Shaheena, envolvendo uma operação de resgate já sem expectativas, ofereceu a última gota de esperança para os socorristas de encontrar alguém vivo no que hoje é considerado o pior acidente na história da indústria têxtil. Durante horas, no dia 28 de abril, enquanto repórteres transmitiam atualizações sobre procedimentos do resgate, salvar Shaheena tornou-se prioridade nacional. Ela ficou presa sob os escombros por mais de 100 horas.

Sua situação atraiu atenção devido ao horror do desabamento do edifício , com um número de mortos que na quinta-feira, 9 de maio, havia chegado a 950 , o drama do longo resgate, e o desejo humano de encontrar um pouco de esperança em meio à tragédia. Mas a atenção também era uma anormalidade: Há mais de 2,5 milhões de mulheres que trabalham em fábricas de roupa em Bangladesh, cujas vidas costumam atrair pouca atenção, mesmo que elas sejam a força que movimenta uma grande parte da economia nacional.

Para as mulheres, como Shaheena, a indústria têxtil tem sido uma fonte de poder, assim como de exploração. Antigamente, poucas mulheres do interior trabalhavam fora dos campos em Bangladesh, uma nação predominantemente muçulmana.

Agora, a indústria tem dado oportunidade para que muitas mulheres deem o primeiro passo para sair da angústia rural, com algumas tornando-se líderes trabalhistas ou gerentes em suas fábricas.

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Mas conquistar um emprego em uma fábrica significa uma luta diária para sobreviver com os baixos salários consumidos pelo aumento dos aluguéis e despesas de sobrevivência. Um dia antes do desabamento do Rana Plaza no dia 24 de abril, as cinco fábricas no interior do edifício foram temporariamente fechadas quando rachaduras foram encontradas na estrutura. Mas os parentes disseram que Shaheena insistiu em voltar a trabalhar em sua fábrica, Fantasma Tec, mesmo quando seu cunhado a advertiu de que o edifício poderia estar em condições perigosas para se trabalhar.

"Se eu não ir trabalhar amanhã, estarei ausente e não vou ser paga pelo dia", disse Shaheena, de acordo com sua irmã, Jesmine Akhtar. "Eles podem atrasar o meu salário do mês. Preciso pagar o aluguel e leite para o meu filho."

Sua preocupação era referente aos US$ 25 (R$ 50) que ela iria deixar de ganhar. Ela e seu filho viviam com a família de sua irmã em uma área chamada Mojidpur. Eram sete pessoas compartilhando duas pequenas salas com um aluguel mensal de US$ 56 (R$ 112). Mesmo assim esse valor era alto, e, por isso, as famílias encontraram um lugar por US$ 38 (R$ 74) por mês. Todo mundo havia se mudado, exceto Shaheena. Ela ainda precisava ganhar US$ 25 (R$ 50) para ter sua parte do adiantamento do aluguel.

Sua família disse que o trabalho tinha dado a Shaheena um senso de independência. Ela deixou o marido quando estava grávida de três meses de seu filho Robin, pois ele a maltratava. No entanto, isso significava que ela era a única provedora da família, apesar de ganhar cerca de US$ 100 (R$ 200) por mês, depois de uma década de trabalho nas fábricas. "Havia tantas noites que ela trabalhou até à meia-noite", lembrou a irmã. "Ela precisava de dinheiro."

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A família de Shaheena a procurou desde o desabamento, mas não encontrou nada durante quatro dias. Em seguida, os vizinhos ouviram algo na televisão e entraram contato com a família. "Ouvimos que as equipes de resgate estavam tentando salvá-la", disse seu pai, Abdul Motaleb Golder, 72 anos. "Eles disseram que Shaheena estava lutando para sobreviver."

"Ela só se preocupava cos os quatro dias em que não pôde segurar seu bebê", disse o tenente-Ashraful Alam Anik, um dos comandos envolvidos na operação de resgate. "Ela queria ver seu filho."

Robin, que está agora com um ano e oito meses de idade, passava a maior parte de seu tempo com sua tia, já que sua mãe trabalhava por longas horas. Na noite que Robin nasceu, Shaheena trabalhou até um pouco antes de dar a luz e voltou para a linha de produção dois meses depois.

As equipes de resgate que trabalharam no resgate de Shaheena trocaram de turno duas vezes. Os mesmos bombeiros que a encontraram voltaram no dia 28 de abril para tentar terminar de cavar o túnel para que ela pudesse ser salva. A pilastra na qual ela estava presa tinha barras de ferro que eram difíceis de ser removidas em um espaço tão apertado. Assim, as equipes de resgate decidiram cortar a parte inferior da coluna, abaixo das barras, e, em seguida, tentaram abrir um vão no andar de baixo.

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Eles empurraram um tubo de oxigênio através da abertura e utilizaram outro tubo para lhe dar soro fisiológico, glicose e suco. Quando o buraco se expandiu, eles lhe deram biscoitos. Quando o calor se tornou insuportável, eles a refrescaram com rajadas de uma mangueira de alta pressão. Em um determinado momento, ela pegou uma serra e um martelo e começou a ajudar, mas deitada de costas, mal conseguia se mexer.

Finalmente, na noite de 28 de abril, o buraco era quase grande o suficiente. De acordo com as equipes de resgate, Shaheena conseguia passar sua cabeça pelo buraco, mas não os ombros e peito. Era necessário que algumas varas no chão precisassem ser cortadas para abrir espaço, um trabalho que poderia levar uma hora. Lá fora, milhares de pessoas se reuniram enquanto repórteres de televisão transmitiam o progresso.

"A nação inteira estava acompanhando essa senhora", disse o major Mostafa Arif, um oficial do Exército envolvido na operação.

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Retrato de Shaheena, funcionária do Rana Plaza que morreu no desabamento em Bangladesh
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Retrato de Shaheena, funcionária do Rana Plaza que morreu no desabamento em Bangladesh

Dentro dos destroços, um engenheiro civil que se juntou à equipe de resgate achou que poderia cortar as hastes de ferro com um pequeno moedor elétrico. Um erro. No espaço apertado estreito, faíscas voaram contra os rolos de tecido e as camisas espalhadas pelo chão e isso provocou um incêndio.

"O túnel era escuro", lembrou o capitão Mahmudul Hasan, um outro oficial do Exército no local. "Mas, de repente, vimos uma luz se aproximando de nós."

As equipes de resgate subiram até o telhado, alguns desmaiaram devido à fumaça. O engenheiro civil sofreu queimaduras graves e faleceu. Quando as equipes de resgate recuperaram seu corpo mais tarde, Shaheena não tinha sofrido queimaduras; ela provavelmente morreu por inalação de fumaça.

"Ficamos tão chateados", disse Abdur Rob, um dos bombeiros. "Faltava tão pouco para tirar ela de lá. Mas no final, tudo foi em vão. Choramos muito."

No fim de semana, enquanto equipes de resgate continuavam retirando corpos, Jesmine Akhtar segurou firmemente o filho de sua irmã. Ele está com os olhos arregalados e rindo e ainda não sabe que sua mãe está morta. "Eu vou cuidar de Robin", sua tia declarou. "Eu tive três filhos. Agora eu tenho quatro. Ele estará comigo durante o resto da minha vida. "

Por Jim Yardley

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