Casa de atirador de escola em Newtown tinha livros que ofereciam esperança

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Adam Lanza, autor de massacre de dezembro, teria a síndrome de Asperger. A polícia encontrou em sua casa em Connecticut a biografia de um autor que sofreu com a doença

NYT

The New York Times
Capa do livro 'Look Me in the Eye', biografia de John Robison que descreve a incompreensão que separa as pessoas com asperger do mundo ao seu redor (30/03)

Palavras de encorajamento, conforto e empatia estavam disponíveis a Nancy Lanza e seu filho, Adam, dentro de alguns livros que foram encontrados pela polícia durante uma busca em sua casa em Newtown, Connecticut, depois do massacre cometido por Adam em 14 de dezembro.

Dezembro: Atirador forçou entrada na escola para cometer massacre

Ex-colegas: Atirador era tímido e inteligente

Saiba mais: EUA rejeitam ampliar análise de antecedentes de compradores de armas

É quase impossível saber se a mãe ou o filho foram ajudados pelos livros: "Look Me in the Eye: My Life With Asperger’s” (Olhe-me Nos Olhos: Minha Vida com Asperger, em tradução literal) e “Born on a Blue Day: Inside the Extraordinary Mind of an Autistic Savant", (Nascido em um Dia Triste: Dentro da Mente Extraordinária de um Autista Erudito", em tradução literal), ou se eles sequer abriram esses livros. Enquanto aqueles familiarizados com Lanza e sua família disseram que ele tinha uma variante do autismo conhecido como síndrome de Asperger, os investigadores ainda não confirmaram o diagnóstico.

"Look Me in the Eye" (2007), de John Elder Robison, e "Born on a Blue Day" (2006), de Daniel Tammet, descrevem memórias que narram o abismo doloroso de incompreensão que separa as pessoas com asperger do mundo à sua volta dela. Ambas histórias expressam esperança à medida que seus autores ficam cada vez mais confortáveis com quem são e se tornam mais bem-sucedidos em se comunicar com os outros.

Adam Lanza: Polícia confirma identidade do atirador de Newtown

Galeria de fotos: Veja fotos das vítimas do massacre em escola primária nos EUA

É por isso que Robison, 55, disse que era esperado que seu livro fosse encontrado entre os pertences dos Lanzas. "É o livro mais lido a respeito do asperger ", Robison disse por telefone de sua casa em Amherst, Massachusetts. "Centenas, se não milhares de pais, me contataram nos anos posteriores à publicação do livro e me disseram: 'Suas histórias me ofereceram uma janela para enxergar o que se passa na mente do meu filho ou filha'. Não é nenhuma surpresa ver que o livro está presente na casa de qualquer família afetada pelo autismo."

No entanto, a descoberta não é totalmente bem-vinda se reforça uma ligação imaginária entre o autismo e crimes violentos - uma relação para algo que os especialistas disseram não haver nenhuma evidência. Durante os últimos cinco meses, muitos americanos tentaram entender por que Lanza matou primeiramente sua mãe, depois 20 alunos da primeira série e seis educadores da Escola Fundamental Sandy Hook, antes de tirar sua própria vida.

Vítimas: Crianças mortas tinham 6 e 7 anos e foram atingidas várias vezes

Legista: Vítimas de ataque à escola foram mortas por vários tiros de fuzil

Durante esse mesmo período, Robison tem se preocupado com a possibilidade de pessoas mal informadas tirarem suas próprias conclusões. "Os repórteres dizem que o assassino tinha síndrome de asperger, uma forma de autismo", escreveu em seu blog em 20 de dezembro. ''Toda vez que uma notícia faz isso - ligando ‘assassino' e 'Asperger' na mesma frase -, os jornalistas estão em algum nível dizendo que há uma ligação entre o autismo e o assassinato em massa. Não há", escreveu, acrescentando: "Os estatísticos têm uma frase para essa situação: correlação não implica em causalidade."

The New York Times
John Elder Robison, autor de 'Look Me in the Eye', biografia que descreve a incompreensão que separa as pessoas com asperger do mundo ao seu redor (30/03)

Quando tinha 12 anos, Robison sorriu depois que um dos amigos de sua mãe lhe disse que um rapaz que ele não conhecia tinha acabado de ser morto por um trem. O amigo ficou horrorizado. O jovem John ficou envergonhado e confuso. Apenas mais tarde descobriu que tinha sorrido pelo fato de que nem ele nem sua família nem seus amigos haviam morrido, e porque ele nunca teria sido louco de se jogar nos trilhos de um trem.

Harrold: Cidade no Texas permite professores com armas na escola

Desafio: Leis imperfeitas refletem dificuldade no controle de armas de fogo nos EUA

"'Sociopata' e 'psicopata' foram dois dos diagnósticos mais comuns para meu olhar e expressão", escreveu Robison. "Ouvia isso o tempo todo: 'Eu li sobre pessoas como você. Eles não têm expressão pois não têm sentimento. Alguns dos piores assassinos da história eram sociopatas'."

"Comecei a acreditar no que as pessoas diziam a meu respeito, pois muitas diziam a mesma coisa, e também me dei conta de que eu tinha um problema. Tornei-me mais tímido, mais retraído. Comecei a ler sobre personalidades desviadas e me perguntava se algum dia me tornaria uma pessoa má. 'Será que eu vou ser um assassino?' Eu tinha lido que eles não conseguiam encarar as pessoas nos olhos."

Utah: Professores são treinados a usar arma após massacre em Newtown

Leia também: Expectativa de vida americana é abalada por violência

Ele aprendeu tudo o que podia a respeito de prisões e decidiu que, se algum dia fosse preso, gostaria de ir para uma prisão federal de média segurança, e não para uma prisão Estadual como a Attica.

"Foi na adolescência que descobri que não era um assassino ou algo pior", disse Robison. ''Foi aí que percebi que não estava sendo desonesto ou evasivo quando não conseguia encarar alguém nos olhos.”

"E naquela época", acrescentou, "tinha encontrado pessoas desonestas e evasivas que me olhavam nos olhos, e isso me fez pensar que as pessoas que se queixavam de mim eram hipócritas.”

Por David W. Dunlap

Leia tudo sobre: ataque em newtownlanzaconnecticuteuaaspergerautismo

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas