Estupro de menina de 5 anos expõe aumento de abusos de crianças na Índia

Por NYT |

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Relatório de 20 de abril indica que número de estupros notificados anualmente contra crianças mais do que triplicou entre 2001 e 2011 no país asiático

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O caso de uma menina de 5 anos que foi estuprada e torturada em 15 de abril, e que ainda se recupera dos ferimentos em um hospital em Nova Délhi, chocou a Índia, trazendo de volta memórias de um estupro coletivo de uma estudante de medicina em dezembro. Durante o fim de semana posterior ao ataque, enquanto a menina era tratada em um hospital em Nova Délhi, os médicos cuidavam de outra criança em uma cama próxima.

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Em uma mensagem publicada em sua conta no Twitter em 20 de abril, depois de ter visitado a primeira garota em seu quarto de hospital, Sushma Swaraj, líder do Partido Bharatiya Janata, disse: "Vi outra menina de 5 anos na sala ao lado. Ela também havia sido vítima de estupro." Swaraj então acrescentou que os médicos lhe informaram que recentemente haviam dado alta a um menino que também havia sido abusado sexualmente.

Protestos e questionamentos dolorosos reapareceram na Índia, poucos meses depois de a morte da estudante de 23 anos ter desatado um clamor público e demandas por leis mais rígidas contra crimes sexuais e mais proteções para as mulheres.

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Depois que vários homens atacaram a estudante em dezembro, houve diversas reportagens relatando atos igualmente abomináveis contra as mulheres, e a Índia parecia enfrentar uma epidemia de estupros. Em 21 de abril, os jornais relataram casos recentes em diversas partes da Índia, onde crianças de 4 anos foram estupradas.

Um relatório divulgado em 20 de abril pelo Centro Asiático para os Direitos Humanos indicou que 48.338 casos de estupro de crianças foram denunciados na Índia entre 2001 a 2011. Segundo o documento, o número de casos notificados anualmente mais do que triplicou durante o período: de 2.113 em 2001 para 7.112 em 2011.

"Isso é apenas a ponta do iceberg, pois a grande maioria dos casos de estupro infantil não é comunicada à polícia, enquanto as crianças se tornam regularmente vítimas de outras formas de violência sexual", afirmou o relatório, acrescentando que "crimes sexuais contra crianças na Índia atingiram uma proporção epidêmica”.

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Manoj, um dos dois suspeitos presos pelo estupro e tortura da menina de 5 anos, morava em um apartamento térreo no mesmo prédio da família da criança. De acordo com seu testemunho à polícia, ele sequestrou a menina em torno das 18 horas locais de 15 de abril e fugiu de seu apartamento logo após as 19 horas, pois temia que a tivesse matado.

Ele pegou um trem para Bihar, onde nasceu e onde os pais de sua esposa residem. Os pais da menina relataram seu desaparecimento no mesmo dia do sequestro, mas disseram que a polícia não levou a sério sua queixa. Eles a encontraram no apartamento do suspeito do dia 17, depois de ouvi-la chorando. Segundo os pais, a polícia lhes ofereceu 2 mil rúpias, ou US$ 37, para não falar nada a respeito do caso.

Um dos poucos estudos que comparam os índices de violência doméstica em vários países revelou que as indianas relataram muito menos ataques do que mulheres em outros países. Mas tais estudos são difíceis de ser realizados na Índia, onde condições de superlotação e habitação multifamiliar dificultam que as pessoas respondam perguntas sobre violência sexual sem se sentir constrangidas.

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Diferentemente dos protestos violentos de dezembro, os organizados em reação ao estupro da menina pareciam muito mais políticos enquanto os manifestantes se queixavam de que o governo e a polícia não faziam o suficiente para combater crimes sexuais.

Com as eleições nacionais marcadas para o próximo ano, a coalizão de governo parecia ansiosa para mostrar que está respondendo imediatamente ao clamor público. Três policiais foram suspensos, dois deles por causa de erros na investigação inicial do desaparecimento da menina e outro por ter sido filmado dando um tapa em uma mulher que protestava no hospital.

Sonia Gandhi, presidente do Partido do Congresso Nacional Indiano, divulgou um comunicado insistindo que o foco do governo deveria estar em "ações e não palavras" para acabar com a onda de estupros.

No domingo, o primeiro-ministro Manmohan Singh disse em um discurso que era necessário que mais ações fossem tomadas para proteger as mulheres e as crianças. "É amplamente aceito que, como país, temos uma grande melhoria para fazer nessa área vital", disse.

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Em março, o Parlamento aprovou uma lei que visa a acelerar e melhorar o julgamento de casos de estupro, mas o governo ainda não abordou problemas nas forças policiais da Índia, que geralmente são mal treinadas, com falta de profissionais e altamente politizadas.

Por Gardiner Harris

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