Empresas ocidentais ficam sob pressão por desabamento em Bangladesh

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Com mais de 500 mortes em colapso de prédio, companhias europeias e dos EUA que haviam prometido garantir a segurança das oficinas de costura ficam na berlinda

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Enquanto equipes de resgate procuravam sobreviventes em um dos piores desastres industriais da história, algumas questões vieram à tona sobre por que um edifício de uma fábrica em Bangladesh não foi fechado após operários aterrorizados terem notificado a polícia, autoridades do governo e um poderoso grupo da indústria de vestuário sobre as rachaduras nas paredes.

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Mulher segura foto de irmã desaparecida em colapso de prédio com oficinas de costura em Savar, perto de Daca, Bangladesh (03/05)

Colapso: Número de mortos em desabamento de prédio em Bangladesh passa de 500

Oficiais da polícia e da indústria culparam os chefes das oficinas de costura de garantir que a estrutura do prédio era boa, levando à decisão de permitir que 3 mil operários voltassem ao trabalho. O proprietário do prédio Rana Plaza, cujo colapso no dia 24 deixou até agora mais de 500 mortos, foi preso quatro dias depois do acidente.

Empresas ocidentais que haviam prometido tomar medidas pela segurança das fábricas de Bangladesh que produzem suas mercadorias vinham sendo pressionadas a tomar uma atitude desde um incêndio mortal em novembro. Ativistas que vasculharam os escombros encontraram rótulos e documentos que ligam as fábricas a grande marcas europeias e americanas, como Children’s Place, Benetton, Cato Fashions, Mango e outras.

PVH, a empresa-mãe das marcas Calvin Klein e Tommy Hilfiger, e Tchibo, uma varejista alemão, endossaram um plano no qual os varejistas ocidentais financiariam os esforços de segurança anti-incêndio e as melhorias estruturais nas fábricas de Bangladesh - embora queiram que outras empresas assinem o contrato antes.

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O Wal-Mart se recusou a participar desse esforço. Mas, em janeiro, anunciou que exigiria que as fábricas corrigissem rapidamente quaisquer violações de segurança e demitiria qualquer empreiteiro que utilizasse fábricas não aprovadas ou pouco seguras. Três semanas atrás, o Wal-Mart prometeu US$ 1,8 milhão para criar um instituto de saúde e segurança em Bangladesh para treinar 2 mil gerentes de fábricas sobre segurança contra incêndios.

No dia 25, as autoridades do Bangladesh iniciaram uma investigação sobre o colapso, enquanto a polícia fez acusações de negligência contra o proprietário do edifício, Mohammed Sohel Rana, seu pai, e os proprietários de quatro fábricas no prédio. A Suprema Corte de Bangladesh também emitiu uma intimação a Rana, que está envolvido na política local do partido governista a Liga Awami.

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A principal questão levantada foi por que as fábricas de roupas nos andares superiores do edifício Rana Plaza em Savar, no arredores da capital Daca, operavam normalmente quando a estrutura desabou no dia 24. Os líderes do setor continuaram responsabilizando Rana e o que classificaram como falsas afirmações de que a estrutura era segura. Várias empresas ocidentais de vestuário emitiram declarações reconhecendo que haviam utilizado oficinas no prédio e expressaram suas condolências.

A varejista britânico Primark confirmou que usava uma fábrica no segundo andar do prédio e disse estar "chocada e profundamente triste com esse terrível incidente". A empresa também disse que estava envolvida havia vários anos com organizações não governamentais e outros varejistas "para rever a abordagem da indústria de Bangladesh relacionados aos padrões das fábricas do país".

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Mas algumas empresas ocidentais, incluindo a Benetton, negaram ter utilizado os serviços das fábricas de lá apesar de terem sido encontrados documentos a vinculando às oficinas de costura no Rana Plaza. Defensores dos operários disseram ser possível que os subcontratantes estivessem utilizando as fábricas sem o conhecimento das empresas.

O que está cada vez mais claro é que o colapso não foi uma surpresa. Incêndios em oficinas já mataram centenas de trabalhadores da indústria de vestuário na última década. Ao mesmo tempo, muitos edifícios fabris são precários e pouco seguros. Segundo os bombeiros de Bangladesh, os andares superiores do Rana Plaza foram construídos ilegalmente.

Um dia antes do colapso, a notícia sobre as rachaduras no prédio começou a se espalhar. Nazmul Huda, repórter da TV local, disse que correu para o local, mas que homens contratados pelo proprietário do edifício o impediram de entrar no prédio para filmar os danos.

AP
Mulher deita ao lado de uma fotografia de seu filho que estaria soterrado nos escombros do prédio que desabou em Savar, Bangladesh (01/05)

O governo de Bangladesh declarou 25 de março como dia de luto nacional, mas a ira e a indignação podiam ser presenciadas nas ruas. Centenas cercaram um edifício industrial no centro de Daca, indignadas pelo fato de que fábricas de vestuário continuavam operando no local, e atiraram tijolos nas janelas, exigindo que o trabalho fosse interrompido. Milhares de outros trabalhadores de vestuário também participaram de protestos em distritos industriais ao redor da capital.

Bangladesh é o segundo maior exportador mundial de vestuário, e a indústria têxtil nacional depende de uma fórmula de baixos pagamentos da qual o salário mínimo é de cerca de US$ 37 por mês.

As exportações de vestuário são um fator crítico para a economia de Bangladesh, o que cria pressão para manter os salários baixos e os trabalhadores disciplinados. Os sindicatos são quase inexistentes na indústria. O sindicalista Aminul Islam foi morto no ano passado em um caso que ainda não foi resolvido.

Por Julfikar Ali Manik, Steven Greenhouse e Jim Yardley

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