Novo primeiro-ministro da Itália precisará ser acrobata político

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Para governar a Itália, premiê Letta terá de contar com seus talentos amplamente reconhecidos: a capacidade de negociar e de conseguir unir lados opostos

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Para selecionar o gabinete que apresentou em 27 de abril ao presidente Giorgio Napolitano, o primeiro-ministro Enrico Letta, o novo líder do governo, contou com habilidades pessoais amplamente reconhecidas: a capacidade de negociar e o dom de conseguir unir lados opostos, mesmo que estes mal falem um com o outro. Ao que se sabe, seu novo cargo testará esses talentos.

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Reuters
Primeiro-ministro italiano, Enrico Letta, cumprimenta presidente do país, Giorgio Napolitano (27/04)

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Letta, que foi empossado no dia 28, deve administrar um governo que tem o bipartidário - e até mesmo relutante - apoio das duas maiores forças políticas rivais do Parlamento, durante um momento extremamente difícil para a Itália, que enfrenta instabilidade econômica e social.

Ao mesmo tempo, ele deve tentar reunificar seu centro-esquerdista Partido Democrata, que implodiu após as eleições nacionais em fevereiro, que deixaram a Itália sem uma maioria governista. Letta vem da ala moderada do partido, mas uma significativa facção de esquerda está abertamente controlando as ações de seu governo.

Amigos e colegas disseram que, se existe alguém que possa conseguir fazer o necessário, este é Letta. "Ele é a pessoa que a Itália precisa neste momento", disse Massimo Bergami, um amigo e reitor da escola de administração de negócios da Universidade de Bologna, apontando para a experiência institucional de Letta, seu histórico em assuntos internacionais e a capacidade de "falar com pessoas de diferentes origens e entender diferentes posições”.

Letta também deve abordar as exigências da União Europeia para manter o curso da responsabilidade fiscal diante da hostilidade generalizada do público italiano às medidas de austeridade. Suas credenciais europeias são sólidas por ser um ex-membro do Parlamento Europeu e por ter criado uma rede de contatos e relacionamentos cultivados ao longo dos anos a partir de suas associações com vários grupos.

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Aos 46 anos, Letta é o terceiro ministro mais jovem desde a 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Sua idade lhe favorece em uma nação onde as demandas por mudança e renovação são o grito de guerra da destituída, e em grande parte desempregada, juventude italiana.

Nascido em Pisa, Letta estudou Ciências Políticas na Universidade da Cidade e fez pós-graduação em direito internacional na prestigiada Escola Sant'Anna de Estudos Avançados. A nova ministra italiana da Educação, Maria Chiara Carrozza, foi reitora da universidade até este ano.

Letta adquiriu sua reputação como mediador por meio de sua personalidade e perseverança, de acordo com pessoas que o conhecem, mas também por ter um exemplo a seguir: seu tio Gianni Letta é um dos conselheiros mais confiáveis do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, o líder de centro-direita, sendo por muitos anos seu negociador em complicadas discussões políticas.

Os dois Lettas ocuparam o importante cargo de secretário do Conselho de Ministros, entregando o cargo um para o outro em governos sucessivos.

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Letta acredita na Previdência Social e ao mesmo tempo apoia políticas de mercado aberto pró-negócios, disse Carlo Alberto Carnevale Maffe, professor de gestão estratégica na Escola de Gestão da Universidade Bocconi, de Milão, que diz ser amigo de Letta. "Ele é mais corporação do que sindicato e segue a lógica de apoiar as forças econômicas, encontrando uma maneira de atender as necessidades dos empreendedores", mas preservando o bem-estar social, disse.

Letta também revelou gostar de música pop italiana; de Dylan Dog, personagem de quadrinhos popular no país que é conhecido por enfrentar aberrações; e de escritores italianos contemporâneos de suspense. Ele é fã do AC Milan, o time de futebol de propriedade de Berlusconi, e joga futebol de botão.

Letta, que ganhou cerca de US$ 185 mil no ano passado, também divulga suas declarações de impostos, atendendo pedidos para uma maior transparência por parte dos políticos, esforços que renderam ao partido Movimento 5 Estrelas um quarto dos votos nacionais nas eleições de fevereiro.

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Em 2005, Letta fundou a Vedro, uma comunidade de contatos e oficina de ideias para o futuro da Itália, que reúne dezenas de especialistas em vários campos. Uma conferência é realizada todo mês de agosto em Dro, uma cidade no Lago Garda, atraindo centenas de participantes e especialistas em diversos campos.

"Queríamos criar um contexto no qual as pessoas pudessem se comunicar sem se preocupar em ser julgadas e pudessem compartilhar uma visão em comum" sobre o futuro da Itália independentemente de crenças políticas, disse Bergami, da Universidade de Bologna, um dos cofundadores. Em seus esforços para encontrar um terreno comum, Vedro antecipa o tipo de acrobacias políticas que Letta poderia realizar nos próximos meses.

"Para o futuro do país, você tem de ser capaz de unir as pessoas em vez de separá-las", disse Bergami.

Mas, mesmo com sua capacidade reconhecida de negociar, não há certeza de que esse governo durará muito.

Ainda assim, é pouco provável que o colapso do governo possa atrapalhar o futuro político de Letta. "Ele é um diplomata, por isso é difícil acabar com ele", disse Carnevale Maffe. "É por isso que ele é a melhor escolha."

Por Elisabetta Povoledo

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