Ainda minoria, mulheres ganham espaço e poder no Senado dos EUA

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Presença de mulheres no Senado continua sendo anomalia, mas com 20 atualmente no cargo, elas se tornaram peças fundamentais em tomadas de decisão

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Uma hora antes de seus colegas se reunirem para sua primeira votação do Congresso após a eleição em 2010, a senadora Kelly Ayotte entrou no salão do Senado para saborear a grandeza de sua casa legislativa. À medida que Ayotte, uma republicana de Nova Hampshire, sentou-se na mesa de madeira, onde gerações de parlamentares de seu Estado haviam votado, um porteiro caminhou em sua direção para lhe dizer algo. Severamente, ele disse a ela: "as mesas são apenas para os senadores".

A entrada de Kelly naquele dia de janeiro de 2011 para exercer um dos cargos menos comuns para mulheres na política do país tinha começado. "Aquele dia em que o porteiro me falou a respeito da mesa realmente me marcou", disse Kelly. "Ainda são poucas as mulheres que fazem parte do Senado."

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Senadora Kelly Ayotte trabalha em seu gabinete em Washington (02/2013)

Noventa anos depois que Rebecca Felton, da Geórgia, tornou-se a primeira mulher no Senado dos Estados Unidos - permanecendo no cargo por apenas 24 horas - as mulheres continuam sendo uma anomalia na Câmara superior. Mas com 20 senadoras exercendo atualmente o cargo (o maior índice de todos os tempos), as mulheres se transformaram em uma nova e importante força em comitês e legislações.

Um recorde de nove mulheres agora participam de comitês, incluindo alguns dos mais poderosos do país. Pela primeira vez há uma mulher - a senadora Barbara Mikulski, democrata de Maryland - encarregada pelo setor de Dotações do Senado, que gasta bilhões de dólares anualmente com todo o governo e tem sido particularmente dominado por homens. A senadora Patty Murray, democrata de Washington, é a primeira mulher presidente da Comissão de Orçamento e é responsável pela formação da estratégia democrata na batalha fiscal que vem dominando o Capitólio.

Um dos maiores projetos de lei a serem aprovados pelo Senado no ano passado foi a da legislação agrícola liderada pela senadora Debbie Stabenow, democrata de Michigan, que preside o Comitê de Agricultura. A senadora Barbara Boxer, democrata da Califórnia, que é presidente da Comissão de Meio Ambiente e Obras Públicas, conduziu o projeto de lei das rodovias.

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"Estamos crescendo em número", disse a senadora Amy Klobuchar, democrata de Minnesota. "Mas o mais importante é que nosso poder está aumentando. Quando eu comecei, há apenas seis anos, era raro ter uma mulher gerenciando um projeto de lei."De acordo até mesmo com senadores do sexo masculino, o mais importante é o potencial que as mulheres têm para mudar o teor do Senado e para tentar forçar um comprometimento na atmosfera altamente partidária no Capitólio.

"Eu não quero generalizar, porque isso não é verdade em todas elas, mas elas tendem a se interessar em estabelecer um terreno em comum", disse o senador Rob Portman, republicano de Ohio. "Então, eu acho que terá, e está tendo, um impacto positivo sobre o Senado."

Embora a divisão partidária seja a característica central do Congresso atualmente, as mulheres começaram a mudar esse impasse através da formação de coligações que têm surprendido líderes de ambos partidos. A senadora Kirsten Gillibrand, democrata de Nova York, e a senadora Susan Collins, republicana do Maine, abriram os caminhos para a revogação da lei Don't Ask, Don't Tell ("Não Pergunte, Não Conte", em tradução literal) no Senado em 2010, permitindo que os homens e mulheres homossexuais pudessem servir abertamente nas Forças Armadas.

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Rebecca Felton foi a primeira mulher a ocupar o Senado dos EUA (foto de arquivo)

Em questões práticas, as posições que as mulheres ocupam hoje melhoraram as instalações físicas disponíveis para elas. Há, no momento, apenas dois banheiros femininos perto do plenário do Senado, o que muitas vezes significa longas filas. Mas as senadoras têm aprendido a usar a situação a seu favor: Stabenow disse recentemente que ela e a senadora Heidi Heitkamp passavam seu tempo na fila do banheiro criando estratégias sobre como poderiam fazer com que uma nova lei agrícola fosse aprovada.

"De certa maneira, um problema acaba sendo positivo", disse Stabenow. "Temos número suficiente de mulheres para que possamos discutir negócios no banheiro femino."

A estrada frágil da irmandade feminina no Senado, no entanto, tem sido pavimentada lentamente. Das 44 mulheres que foram senadoras nos Estados Unidos, muitas começaram com mandatos curtos, como, por exemplo, para concluir o mandato de um marido morto.

Após a breve permanencia de Rebecca Felton no Senado em 1922, Hattie Caraway, democrata de Arkansas, tornou-se a primeira mulher a cumprir um mandato completo. Nomeada para o Senado em 1931, após a morte súbita de seu marido, Caraway chocou o Estado e o partido, ao concorrer na eleição geral no ano seguinte.

"Todo mundo esperava que ela voltasse a ser a viúva do Arkansas", disse Betty Koed, uma historiadora associada ao Senado. Ela venceu e manteve seu assento até 1945.

Em 1992, conhecido como "O Ano da Mulher", a eleição aumentou o número de mulheres no Senado de 2 para 7. Dianne Feinstein, a democrata da Califórnia que é agora presidente da Inteligência do Senado, foi eleita naquele ano, assim como Boxer.

Os senadores homens oscilavam entre a sensação de alívio - a Câmara finalmente estava saindo de seu estado antediluviano - e medo. "Quando cheguei aqui foi como se todo mundo pensasse: 'O que é que vamos fazer com todas essas mulheres?"', Murray recordou. "Havia um medo enorme, embora nunca tenha sido dito: 'Será que essas mulheres seriam agressivas e a favor de guerras ou legisladoras?'"

"Quando eu comecei era uma desvantagem ser mulher", disse Boxer. "Você tinha que provar que entendia de política, que entendia sobre a história do Senado."

Algumas também estavam visivelmente equilibrando o trabalho e a casa, embora hoje Gillibrand e Ayotte sejam as únicas senadoras com filhos pequenos.

Embora Caraway tenha observado que sua meia-calça poderia "colocá-la nas manchetes", as mulheres de hoje são mais propensas a chamar a atenção por meio de sua legislação. Mas Klobuchar lembrou que, após seis meses no Senado, um senador – que ela não quis citar nominalmente - entrou em um elevador para “Apenas Senadores", deu uma olhada para ela e perguntou o que ela estava fazendo ali.

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Senadores Susan Collins, Kirsten Gillibrand e Joe Manchin caminham até a Câmara do Senado em Washington

Depois de o assessor que a acompanhava dizer ao homem que Klobuchar era, de fato, uma senadora, ela olhou para seu colega diretamente nos olhos e lhe perguntou: "Mas quem é você?"

Por Jennifer Steinhauer

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