Em busca de equilíbrio entre mídia estatal e oposição, jornais nascem na Síria

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Absi Smesem se tornou editor-chefe de um novo semanário para tentar vencer a desinformação e realizar uma cobertura mais objetiva sobre a guerra civil no país

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Absi Smesem tornou-se editor-chefe de um novo jornal semanal sírio na esperança de deixar para trás o que descreveu como a "fase Facebook" da insurreição. A total desinformação e os absurdos relatados que foram divulgados sobre a Síria o convenceram de que uma cobertura de imprensa mais objetiva era essencial para reforçar o esforço para derrubar o presidente Bashar al-Assad.

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Absi Smesem, editor-chefe do jornal semanal Sham, trabalha no escritório da publicação em Antakya, Turquia (1/3)

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Muitas vezes, ele não conseguia acreditar no que se passava por meio das notícias em populares canais por satélite, como o Qatar, propriedade da Al-Jazeera, e o Al Arabiya, que é administrado pela Arábia Saudita, ambos apoiadores da oposição. Segundo ele, os dois canais se baseiam fortemente em relatos não filtrados de ativistas locais contratados como correspondentes, ou, na falta disso, pegam informações publicadas no Facebook para utilizarem nos seus relatos de notícias.

"Não há fontes objetivas de informações de ambos os lados, tanto com o regime quanto com os rebeldes", disse Smesem, 46, um repórter veterano. Ele contou sua história em um café na cidade de Antakya, no sul da Turquia, um centro essencial para sírios que vêm lutando para moldar seu futuro Estado, apesar de a guerra civil já ter feito dois anos.

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"Precisamos sair dessa fase Facebook de nos lamentarmos o tempo inteiro e de nos queixar a respeito do regime", disse.

Smesem disse acreditar que o exagero de certos relatos prejudicava a causa da rebelião. "Quando o regime simplesmente negou a notícia, e eles tinham razão, isso deu ao regime mais credibilidade", revelou.

Para analistas da mídia, a cobertura da guerra síria prejudicou a reputação de canais como a Al-Jazeera e Al Arabiya. Noticiários que antes traziam objetividade em uma região dominada pela mídia estatal, estão hoje cada vez mais sendo vistos como porta-vozes da política externa do Catar e da Arábia Saudita.

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Foi no espírito de objetividade que o jornal de Smesem, Sham, outro nome para a Síria em árabe, entrou em circulação em fevereiro. Foi uma das várias publicações que passaram a ser publicadas na mesma época.

Sham é de muitas formas um dos jornais mais profissionais do grupo, com uma diagramação bem-ordenada e nítida. O jornal é uma extensão da Rede de Notícias Sham, uma organização de notícias ativista e um centro de pesquisa. Ela foi fundada por um sírio que retornou a Damasco do exterior no início da revolta, e o jornal é financiado com dinheiro arrecadado privadamente.

Uma vez que a guerra chegue a seu fim, Smesem e seu editor disseram esperar que Sham se torne um império de mídia completo, incluindo estações de rádio e televisão. Esta também é uma ambição comum para outros jornais sírios que surgiram recentemente.

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Embora o jornal firmemente apoie a revolução, Smesem se esforça para incluir o ponto de vista do governo sírio com declarações oficiais, como a imprensa ocidental costuma fazer.

Smesem disse ter enfrentado mais críticas por parte dos revoltosos do que do governo. "Alguém disse que se sentiu como se estivesse lendo um jornal russo", disse ele. "As pessoas que estão entusiasmadas com a revolução acham que não deveríamos incluir o ponto de vista do outro lado, porque eles não merecem, mas tentamos ser os mais neutros possíveis."

Smesem utilizou o jornal como meio para enfrentar o clima de intimidação que, segundo ele, havia atingido cidades como Binnish, onde partidários do movimento fundamentalista salafista usufruíram de seu sucesso no campo de batalha para assumir o conselho da cidade.

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Em um editorial, criticou as mudanças no tom dos protestos semanais da cidade de sexta-feira desde que a Frente Al-Nusra começou a organizá-los. As mesmas pessoas que hoje protestavam a favor de matar todos os alauítas uma vez foram membros da Comissão de Coordenação Binnish que marchavam toda sexta-feira em apoio da sociedade civil, ele escreveu.

Agora, os editores do Sham se preocupam se esta nova liberdade de expressão que surgiu nas áreas apreendidas do controle do governo irá persistir caso o governo de Assad seja derrubado.

"Estamos presenciando os frutos da revolução ", disse o editor-chefe do jornal, falando anonimamente para evitar repercussões para sua família que ainda vive na Síria. "O que não sabemos é o que vai acontecer depois da queda do regime."

Por Neil Macfarquhar

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