Suspeito de ataque em Boston buscou lar em território marcado por violência

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Tamerlan Tsarnaev,morto em confronto com a polícia, foi em 2012 ao Daguestão, onde visitou parentes, ajudou seu pai e reencontrou o lugar onde viveu antes de se mudar para os EUA

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Tamerlan Tsarnaev já era um rapaz religioso no dia em que aterrissou no Daguestão, país que se tornou o epicentro da violenta insurgência islâmica e um centro de recrutamento jihadista. O que ele aparentemente ansiava era ter um lugar para chamar de lar. "Quando ele chegou, falou a respeito de sua religião", disse sua tia, Patimat Suleimanova, que o viu alguns dias depois de sua chegada ao país em janeiro de 2012.

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Patimat Suleimanova, tia dos suspeitos do ataque em Boston, chora em sua casa em Makhachkala, Daguestão

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Isso ocorreu 15 meses antes de Tsarnaev ter sido morto durante um confronto sangrento com a polícia. O FBI acredita que ele e seu irmão mais novo plantaram bombas perto da linha de chegada da Maratona de Boston, que deixaram três mortos e 260 feridos.

Ele aterrissou no aeroporto em Makhachkala, Rússia, onde janelas de vidro na entrada do aeroporto enquadram uma mesquita com minaretes gêmeas apontadas para o céu. Ele já havia parado de consumir bebidas alcóolicas, deixado sua barba crescer e se tornado mais devoto, rezando cinco vezes ao dia.

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O reencontro com sua tia e tio no apartamento localizado no terceiro andar da rua Timiryazeva, foi bastante positivo, e ressaltou os contrastes com sua vida nos Estados Unidos. "Ele disse: 'As pessoas aqui são completamente diferentes. Elas oram de maneira diferente'", Suleimanova lembrou em uma entrevista concedida em 20 de abril.

"'Ouça a chamada para a oração - o azan - que eles tocam na mesquita'", Tsarnaev disse, segundo sua tia. "'Me faz tão feliz, ouvir isso por toda parte. Você sempre pode ouvir isso - me faz querer ir para a mesquita'."

"O que, você não consegue ouvir as mesquitas lá nos EUA?", ela se lembra de ter perguntado, e ele respondeu, "'Algo assim'."

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Tsarnaev permaneceu em Makhachkala, capital do Daguestão, por seis meses. Lá, ele havia passado a maior parte de sua adolescência e onde seus pais passaram a viver depois de morar por anos nos EUA. Esses seis meses se tornaram cruciais para os investigadores que tentam entender por que Tamerlan e seu irmão realizaram o ataque em Boston, e principalmente, se estavam ligados a qualquer rede terrorista organizada.

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Mas o retrato que emerge sobre o período que Tamerlan passou em Makhachkala parece ser controverso. O Daguestão, que é conhecido pelo cultivo e exportação de terroristas como aqueles que realizaram os atentados mortais em 2010 no metrô de Moscou, parece ter sido, neste caso, uma estação de passagem para um jovem cuja trajetória teve início e fim em outro lugar.

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No domingo, 21 de abril, o grupo terrorista mais temido na região do Cáucaso, o Mujahideen do Emirado do Cáucaso, emitiu um comunicado rejeitando especulações de que Tsarnaev se juntou a eles e negou qualquer responsabilidade pelo ataque da Maratona de Boston.

"O Mujahideen do Cáucaso não estão lutando contra os Estados Unidos da América", disse o comunicado. "Estamos em guerra com a Rússia, que não só é responsável pela ocupação do Cáucaso, mas também por crimes hediondos contra os muçulmanos."

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O conflito contínuo entre militantes islâmicos e autoridades russas recebe pouca atenção fora da Rússia, mas rendeu uma série de ataques terroristas, muitos deles no Daguestão, que causou mais mortes que as três em Boston. É um ciclo de derramamento de sangue que Tsarnaev conviveu de perto quando ele vivia no país.

Ainda assim, durante seus seis meses em Makhachkala, segundo parentes, vizinhos e amigos, ele não parecia como um homem em uma missão, ou treinando para uma. Em vez disse, eles afirmam, ele parecia mais um rapaz recém-formado que não sabia o que fazer da vida. Ele dormia até tarde, ficava andando pela casa, visitava seus familiares e ajudava seu pai a remontar a reformar uma loja.

"O filho ajudava seu pai" disse Vyacheslav Kazakevich, um amigo da família, em uma entrevista. "Eles começavam às 8h da manhã. Quando eu passava, eles estavam trabalhando dentro da loja, assentando telhas. Ele não ia a lugar nenhum; nenhum amigo o visitava. Seu pai queria abrir uma loja de perfumes."

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Ainda assim, a narrativa de sua vida foi de constante movimento. Ele nasceu em Kalmykia, um árido corredor de território russo ao logo do mar Cáspio. Sua família se mudou para o Quirguistão, uma ex-república soviética independente na Ásia Central, e, depois para a Chechênia, uma turbulenda república na Federação russa, terra natal dos ancestrais de seu pai. Então, partiu para o Daguestão. E, finalmente, para os EUA, onde Tamerlan concluiu o ensino médio, se casou e teve uma filha.

Onde quer que fosse, no entanto, ele parecia não se encaixar. Ele era de etnia chechena, mas nunca nunca viveu de verdade na Chechênia; era um cidadão russo, mas seus antepassados foram brutalmente oprimidos pelo governo russo; possuía um green card americano (permissão para viver e trabalhar), mas seu caminho para a cidadania estava temporariamente bloqueado.

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Loja pertencente a Anzor Tsarnaev, pai dos suspeitos pelo ataque à Maratona de Boston em Makhachkala, Daguestão

Em janeiro de 2011, ele de alguma forma atraiu a atenção de autoridades na Rússia, que pensavam que ele poderia ser um seguidor de uma seita radical islâmica e pediram aos EUA informação sobre ele. O FBI entrevistou Tsarnaev e sua família em Boston, mas não encontrou sinais de atividades terroristas naquele momento, segundo informou a polícia federal americana.

No Daguestão, ele pode ter se sentido mais em casa do que nos EUA, mas era um lugar estranho para encontrar conforto, dada a contínua violência e o desconforto persistente presente entre aqueles que vivem no país. Nos dias anteriores à sua visita, um menino de 13 anos foi ferido depois de pegar um pacote contendo uma granada de mão, e um posto de polícia rodoviária foi alvejado.

Duas semanas depois de sua chegada, outra granada foi lançada em uma área residencial. Aparentemente, serviu para chamar atenção da polícia para uma emboscada, porque poucos minutos depois, uma bomba escondida no lixo explodiu, matando uma criança pequena e ferindo outra.

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Viver em tais circunstâncias pode ter tido um impacto em Tsarnaev mesmo que ele não tenha se juntado a nenhum grupo militante organizado, disse Maribek Vatchagaev, presidente da Associação dos Estudos sobre o Cáucaso em Paris. Ele destacou que a violência é pior no Daguestão que a Chechênia ou a Inguchétia, repúblicas vizinhas também predominantemente muçulmanas e que possuem um histórico de violência. (Durante seu período no Daguestão, Tsarnaev foi para a Chechênia com seu pai para visitar parentes).

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"É muito óbvio que há uma identificação própria com o islamismo e um profundo radicalismo", disse Vatchagaev. "Talvez, essa atmosfera possa ter influenciado (Tsarnaev) - o fato que há tantas explosões e frequentes textos em sites russos sobre as atividades dos militantes."

Alguma coisa aparentemente levou Tamerlan Tsarnaev à violência, e agências de notícias russas reportaram que investigadores estão procurando conexões que ele poderia ter com mesquitas conhecidas por promover visões extremistas.

Mas parentes dizem que eles não podem fazê-los compreender como os meninos que eles conheciam poderiam ser os terroristas que explodiram a Maratona de Boston. Sua tia, Patimat Suleimanova, disse: “Eles não poderiam cometer um ato como esse.”

Por David M. Herszenhorn e Andrew Roth

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