Ataque em Boston impôs decisão difícil a médicos: amputar ou não uma perna?

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Cirurgiões foram obrigados a fazer escolhas que mudariam para sempre a rotina dos feridos pelas duas explosões na Maratona de Boston - muitas vezes, para salvar suas vidas

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Tantos pacientes chegaram ao mesmo tempo, com variados ferimentos horríveis nas pernas. Ossos quebrados, tecidos rompidos, pregos presos nas profundezas da carne. Decisões tiveram de ser tomadas, inúmeras vezes, com pouco tempo para deliberações. Será que essa perna precisa ser amputada? E essa?

"Nós cirurgiões ortopédicos estamos acostumados a ver pacientes com membros mutilados, mas não 16 deles ao mesmo tempo com ferimentos de explosão", explicou Peter Burke, chefe da ala de traumatologia no Boston Medical Center.

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Sydney Corcoran recebe ajuda depois da primeira explosão perto da linha de chegada da Maratona de Boston, nos EUA (15/4)

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As bombas que explodiram em 15 de abril na Maratona de Boston, matando pelo menos três e ferindo mais de  200, serão para sempre sentidas por qualquer pessoa envolvida com o icônico evento esportivo da cidade. Para as vítimas, o legado físico pode ser especialmente cruel para quem sofreu traumas graves e amputações.

"Antes de tomarmos a decisão de amputar a perna de alguém - e é uma decisão extremamente difícil - muitas vezes pedimos que dois cirurgiões concordem", disse Tracey Dechert, cirurgião do Boston Medical Center. "Nesse caso, todos sabiam o que não podia ser salvo. Então, sabemos que não tiramos uma perna sem necessidade."

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Em um instante, médicos em hospitais de toda a cidade que estavam preparados para problemas comuns de uma maratona - desidratação ou hipotermia - enfrentavam a necessidade de tomar decisões profundas que poderiam mudar vidas.

Em alguns casos, até duas vítimas foram transportadas em uma única ambulância - algumas com enormes buracos em suas pernas, de onde pele, gordura e músculo foram arrancados pelas bombas. Outros tinham as artérias das pernas dilaceradas e vários ossos quebrados. Pelo menos nove pacientes - cinco no Boston Medical Center, três no Hospital Beth Israel Deaconess e um no Hospital Brigham para Mulheres - tiveram suas pernas ou seus pés tão mutilados que a amputação seria necessária.

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O baixo número de mortes, segundo os médicos, decorre do fato de que as explosões aconteceram perto do chão, ferindo principalmente pernas e pés, em vez de abdomens, peitos e cabeças.

Allan Panter, 57 anos, um médico de pronto-socorro de Gainesville, Geórgia, estava a 10 metros da explosão perto da linha de chegada, esperando por sua esposa, Theresa, completar a Maratona de Boston. Ajudado por outros, ele usou gaze para aplicar torniquetes e salvar várias vítimas. Ele disse que viu seis ou sete vítimas com cintos amarrados em torno de seus pés feridos.

"Com ferimentos de explosão nas extremidades inferiores, como os que acontecem no Oriente Médio, você sangra", disse. Torniquetes "podem ajudar a salvar vidas. Eu não sei se eles ajudaram nessa situação, mas com certeza não piorariam."

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Alok Gupta, que coordenou a resposta cirúrgica no Hospital Beth Israel, disse que muitas vezes fica na linha de chegada da maratona para assistir ao fim da corrida. Mas este ano ele estava tão cansado que optou por tirar um cochilo.

Então, ouviu as sirenes de ambulâncias e helicópteros do lado de fora de sua casa em Back Bay, perto da chegada da maratona. Ele começava a se perguntar por que as sirenes não cessavam e por que helicópteros sobrevoavam o local quando seu celular tocou.

"A ligação estava ruim", disse. "Tudo o que eu ouvi foi 'vítimas em massa'. E 'nós precisamos de você'", disse.

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Um minuto depois ele já estava fora de sua casa e, em cinco minutos, chegou ao hospital. Ele e seus colegas começaram a trabalhar. Limparam a sala de emergência, mandando para casa os que podiam receber alta e enviando outros para macas em outras partes do edifício.

"Os cirurgiões foram notificados, os médicos de emergência foram notificados, o pessoal da sala de operações foi notificado, todos foram notificados", disse. O serviço de telefonia celular em Boston havia sido limitado para impedir os terroristas de usarem celulares para detonar outras bombas. Os médicos, enfermeiros e outros profissionais foram contatados com mensagens de texto.

Cerca de 10 minutos depois, os pacientes começaram a chegar. Cada um deles foi colocado em uma sala e avaliado. Médicos descreveram a situação como tranquila e eficiente.

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Michael Yaffe, cirurgião no Beth Israel Medical Center, tratou de vários feridos na Maratona de Boston

Sete pacientes no Beth Israel foram diretamente submetidos a cirurgias de emergência para estabilizá-los, parando o sangramento, por exemplo. Cinco foram levados à Unidade de Tratamento Intensivo. No Hospital Brigham para Mulheres, seis pacientes foram para a sala de cirurgia e nove foram para a UTI.

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"Muitas dessas lesões eram tão devastadoras que a decisão era muito simples - os médicos não seriam capazes de salvar muita coisa", disse Burke. Uma amputação precoce, segundo Burke, pode significar um retorno mais rápido a uma vida normal.

O dia da Maratona de Boston é considerado especial para celebrar o atletismo e a emoção do esporte. Para corredores que treinaram durante meses e agora podem estar diante de longos períodos de reabilitação e do fim de seus dias como maratonistas, as bombas tiraram "a coisa que mais amavam", disse Yaffe.

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Nos momentos após as explosões, alguns pacientes afirmaram que "achavam que morreriam ao ver o sangue jorrando de seus ferimentos", disse George Velmahos, chefe de traumatologia do Hospital Geral de Massachusetts. Quando acordaram em 16 de abril e perceberam que ainda estavam vivos, disseram que se sentiram extremamente gratos, alguns até mesmo considerando-se sortudos, disse Velmahos.

"É quase um paradoxo", disse, "ver esses pacientes sem um membro acordando e sentindo-se sortudos".

Por Gina Kolata, Jere Longman e Mary Pilon

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