Posição da Irmandade Muçulmana sobre mulheres estimula temores no Egito

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Em comunicado contra proposta de declaração da ONU para condenar a violência contra as mulheres, grupo opina que elas têm de se submeter aos homens em todas as questões

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Durante suas décadas como um movimento islâmico secreto, a Irmandade Muçulmana há muito pregava que as mulheres do Islã precisavam obedecer seus maridos em todas as questões.

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"Uma mulher precisa ser confinada dentro de uma estrutura em que seja controlada pelo homem da casa", disse Osama Yehia Abu Salama, um especialista em família da Irmandade, a respeito da abordagem geral do grupo durante um seminário recente para mulheres treinando em se tornar conselheiras matrimoniais.

Mesmo que uma mulher apanhasse de marido, aconselhou: "Mostre-lhe como ela teve culpa pelo que aconteceu", acrescentando: "Se ele é o culpado, ela compartilha 30% ou 40% da responsabilidade."

Agora, com um líder do braço político da Irmandade no palácio presidencial do Egito e uma grande quantidade de seus membros dominando o Parlamento, alguns pontos de vista profundamente patriarcais que a organização há muito tempo ensina a seus membros vêm à tona para o conhecimento do público.

Declarações estridentes da Irmandade reforçam temores entre muitos liberais egípcios sobre as potenciais consequências da ascensão do grupo ao poder e criam constrangimento para o presidente Mohammed Morsi enquanto ele se apresenta como um novo tipo de islâmico moderado que tenta agradar o Ocidente.

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Em um comunicado emitido na quarta-feira de 13 de março sobre um projeto de declaração da ONU que condena a violência contra as mulheres, a Irmandade publicou uma lista de objeções, formalmente definindo seus pontos de vista sobre as mulheres pela primeira vez desde que chegou ao poder.

No comunicado, a Irmandade disse que as mulheres não deveriam ter o direito de apresentar queixas contra seus maridos por estupro, acrescentando que os maridos não deveriam estar sujeitos às mesmas punições aplicadas a autores de estupro sem parentesco com as vítimas.

Um marido deve ter "tutela" sobre sua mulher, e não uma "parceria" de igualdade, declarou o grupo. Filhas não deveriam ter os mesmos direitos de herança que filhos. A lei também não deveria anular "a necessidade de consentimento do marido em assuntos como trabalho, viagens ou uso de contraceptivos" - uma reforma na lei de família tradicional islâmica que foi promulgada pelo ex-presidente Hosni Mubarak e creditada à sua mulher, Suzanne.

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As declarações pareciam de muitas maneiras refletir a doutrina de longa data da Irmandade, ainda discutida em aulas como a de Abu Salama e no fórum do grupo de mulheres. Feministas disseram que o comunicado também reflete a opinião da maioria das mulheres na cultura tradicionalista e conservadora do Egito.

Em uma entrevista em 14 de março, Pakinam El-Sharkawy, conselheira política de Morsi e representante do Egito na última comissão da ONU, procurou distanciar o governo dele da nota da Irmandade.

O grupo, enfatizou, não fala pelo presidente; ele renunciou à Irmandade, mas continua sendo um membro do seu partido político.

"Será que qualquer declaração emitida por qualquer partido político ou grupo representa a presidência?", perguntou. "Eles não são a instituição da presidência, não são uma entidade oficial." O governo egípcio, disse, "explora todos seus poderes e políticas para impedir todas as formas de violência contra as mulheres".

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O governo contestou a declaração da ONU condenando a violência contra as mulheres, ela disse, somente em questões como a de descrever restrições ao aborto como um ato de violência contra as mulheres. Segundo ela, isso ofendeu as normas culturais em muitos países árabes e africanos.

Em seu seminário para futuras conselheiras matrimoniais islâmicas, Abu Salama justificou a abordagem do grupo ao casamento explicando que o Islã requer dos maridos que sejam compassivos, assim como requer das mulheres obediência.

Citando a prescrição de Maomé de que um homem "não deve agir com sua mulher como se fosse um animal", um livro didático na aula de Abu Salama indicou que o Islã instrui os homens a fazer preliminares antes do sexo e a atender a satisfação de sua parceira. Quanto à herança, estudiosos islâmicos argumentam que um filho deve ter uma maior participação, mas também a obrigação de cuidar do bem-estar financeiro de sua irmã.

Mas Abu Salam também argumentou que os maridos devem manter suas mulheres sob um rígido controle. "É da natureza do fraco desrespeitar os limites caso a mulher tenha espaço e liberdade para fazer isso, assim como acontece com crianças", disse no seminário. A maioria das mulheres presentes concordou.

Concluindo sua declaração sobre a declaração da proposta da ONU, a Irmandade parecia querer ir ainda além. As disposições discutidas são "ferramentas destrutivas destinadas a minar a família como uma instituição importante", conclui o comunicado, e "voltar para a ignorância da sociedade pré-islâmica".

*Por David D. Kirkpatrick e Mayy El Sheikh

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