Passeio turístico deixa cidade da Cisjordânia ao alcance dos israelenses

Por NYT |

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Ramallah está fora dos limites para muitos israelenses, mas um novo tour que requer autorizações de Israel e da Autoridade Palestina, dá a alguns um vislumbre da vida palestina

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Um homem de Haifa lembrou de ter levado seus filhos para Ramallah, Cisjordânia, na década de 1970 para comprar produtos que ainda não estavam disponíveis em Israel: Ovomaltine, alcaçuz, 7-Up e goma de mascar Wrigley. Uma mulher que vive em um subúrbio de Jerusalém disse que costumava ir à cidade nos anos 1980 para participar de manifestações políticas.

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The New York Times
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Maya Bar-Hillel, professora de psicologia na Universidade Hebraica de Jerusalém, visitou o local pela última vez em agosto de 2004, acompanhando um jornalista para uma audiência rara com Yasser Arafat, no que acabou sendo o último aniversário do então líder da Organização de Libertação da Palestina. Noam Rumack, 26, visitou a cidade recentemente, em 2006, mas "como um soldado", disse. "Dentro de um tanque."

Esses quatro israelenses estavam entre os dezenas de participantes de uma peregrinação a Ramallah, uma das várias cidades palestinas que ficaram oficialmente fora dos limites para a maioria dos cidadãos de Israel durante mais de uma década. Para fazer a viagem, organizada pelo Centro da Palestina e Israel de Pesquisa e Informação, precisaram de licenças especiais emitidas pela Autoridade Palestina e pelas Forças de Defesa de Israel.

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O passeio ocorreu antes da visita do presidente Barack Obama à região, mas quase poderia ter sido uma resposta a uma das frases memoráveis de seu discurso em Jerusalém: "Coloque-se no lugar deles", Obama pediu para seu público israelense, referindo-se aos palestinos. "Veja o mundo com seus olhos."

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Fazer isso tornou-se mais difícil. Com o processo de paz em um impasse e com a barreira de separação de Israel e a rede de postos de controle há muito tempo elementos intrínsecos da paisagem, os contatos entre os dois povos diminuíram. Menos palestinos trabalham dentro de Israel. Grupos de diálogo se separaram. Acampamentos conectando crianças são mais difíceis de encontrar. As comunidades cada vez mais funcionam como em universos alternativos.

Fora do serviço militar, os israelenses que visitam a Cisjordânia geralmente permanecem nos assentamentos; sinais vermelhos colocados do lado de fora de cidades como Ramallah desde 2004 alertam que, para os israelenses, entrar não é apenas ilegal, mas também perigoso. Moradores de Tel Aviv ficam amendrotados quando escutam que alguém fez compras em Jenin ou travessou Hebron de carro. "Você se sentiu seguro?", é uma pergunta muito comum. "Como foi a sensação de dirigir por lá?"

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Mas quando o Centro da Palestina e Israel anunciou neste ano que levaria israelenses para passear em Ramallah, o atual centro do governo e da vida cultural palestinos, 150 pessoas se inscreveram em 24 horas. "Os israelenses querem conhecer os palestinos e ir à Cisjordânia", disse Goldie Orlan, gerente do projeto, que também leva israelenses a Jericó e Belém. "Eles só querem andar pelas ruas e conversar com as pessoas normais sobre o dia a dia de suas vidas."

Muitos dos que participaram da viagem eram aposentados: acadêmicos e advogados, um corretor de imóveis e uma atriz. Alguns eram ativistas políticos veteranos, outros estudantes como Rumack, que havia acabado de cumprir seu serviço militar e cuja visão de mundo foi moldada pela violência da segunda intifada (levante).

Alguns disseram que decidiram participar do passeio para testar suas posições políticas. "Precisamos ver, aprender e não apenas deitar no sofá e dizer: 'Sou de esquerda'", disse Suzy Ben Dori, que mora em Tel Aviv e trabalha com turismo. Sammy Berls, israelo-australiano que trouxe seus filhos para visitar o local na década de 1970, viu o passeio como uma maneira de ver o quão precisos são os "estereótipos que Israel possui a respeito da região".

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Para a maioria, foi simplesmente uma questão de curiosidade.

Os Acordos de Oslo, assinados por israelenses e palestinos na década de 1990, dividiram a Cisjordânia em áreas A, B e C. A maioria dos palestinos vive na área A, onde os israelenses não estão autorizados a ir desde outubro de 2000, após o assassinato de dois soldados em uma delegacia de polícia em Ramallah. A área corresponde a 13% da Cisjordânia e está sob total controle palestino.

Em um ponto, Jubran pediu ao motorista para que estacionasse no acostamento da estrada para que pudesse ter uma vista mais próxima de um dos sinais vermelhos que marcam as fronteiras da cidade. "É proibida a entrada de cidadãos israelenses", dizia o sinal. "Perigoso para sua vida. E é contra a lei israelense."

O guia discordou das palavras usadas no aviso. "Eles estão basicamente dizendo que lá dentro é praticamente um zoológico”, disse ao grupo. "Os animais vivem lá, então é perigoso para você. Simplesmente transmite uma imagem muito negativa sobre os palestinos."

A maioria dos israelenses apenas vê os sinais de passagem enquanto dirigem. Esse grupo ao menos entrou no território, mesmo que a maior parte do que viram tenha sido pela janela.

*Por Jodi Rudoren

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