EUA lançam competições com hackers para encontrar defensores cibernéticos

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Jovens participam de gincanas nas quais devem romper códigos, pois Departamento de Segurança Interna do país necessita se proteger de ciberataques estrangeiros

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Na oitava série, Arlan Jaska descobriu como escrever um script simples que fazia com que a tecla Caps Lock do teclado de seu computador ligasse e desligasse 6 mil vezes por minuto. Quando seus colegas não estavam olhando, ele instalava o programa em seus computadores. Tudo isso era apenas uma diversão até que o programa se espalhou pela escola. "A escola chamou meus pais para dizer que eu estava hackeando os computadores", lembrou Jaska, 17 anos.

Ele ficou de castigo em casa e sofreu represálias na escola, mas é o tipo de jovem que o Departamento de Segurança Interna americano está querendo contratar. Janet Napolitano, secretária da agência, conhece um problema que só tende a piorar: o ataque de hackers estrangeirosao seu sistema de computadores.

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Eles também se ocupam tentando desviar a riqueza do país e roubando valiosos segredos comerciais. E começaram a sondar a infra-estrutura do país - a rede de energia e sistemas de água e transporte.

Então, ela precisa ter seus próprios hackers – 600 deles, de acordo com estimativas da agência. Mas potenciais recrutas com as habilidades certas para o serviço têm muitas vezes optado por fazer parte de empresas, e aqueles que escolhem o governo muitas vezes vão para a Agência de Segurança Nacional, onde participam de ataques digitais ofensivos à nações estrangeiras.

Na Segurança Interna, a ênfase está em impedir que hackers ataquem o país. "Temos que mostrar a eles o quão legal e emocionante pode ser participar deste setor", disse Ed Skoudis, um dos principais treinadores de segurança da computação do país. "E nós temos que mostrar a eles que aplicar essas habilidades no setor público é importante."

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Em março, Jaska e seu colega de classe Collin Berman ficaram nos primeiros lugares do Desafio Cibernético da Copa do Governador de Virgínia, um evento para hackers estudantes do ensino médio criado por Alan Paller, especialista em segurança, além de outros do ramo.

Com exercícios militares como o NetWars, parecia que inúmeros estudantes estavam apenas jogando videogame. Paller ajudou a criar a competição, a primeira de uma série, para ajudar a Segurança Interna, e comparou a necessidade da agência por hackers com a escassez de pilotos de caça durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945).

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"Eu gosto de quebrar as coisas", disse Berman, 18 anos. "Eu sempre quero saber, como posso mudar isso para que faça outra coisa?'"

É um exercício muito diferente - e que, de acordo com alguns hackers, requer mais inteligência - do que simplesmente hackear websites. "É bom contratar pessoas que perguntam como é que as coisas funcionam. Mas as melhores conseguem mudar o jogo", disse Paller, diretor de pesquisa do SANS Institute, uma organização de treinamento em segurança de computador.

Não foi coincidência que a ideia de utilizar competições como parte de recrutamento veio, em parte, da China, onde o Exército de Libertação Popular administra competições toda ano para identificar sua próxima geração de guerreiros digitais.

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Tan Dailin, um estudante de pós-graduação, ganhou vários dos eventos em 2005. Logo depois, colocou suas habilidades em prática e foi pego hackeando a rede do Pentágono e enviando documentos para servidores na China.

"Não temos nenhum programa parecido com esse nos Estados Unidos", disse Paller. "Ninguém sequer está ensinando isso nas escolas. Se não resolvermos este problema, enfrentaremos dificuldades mais para frente. "

Jaska e Berman ouviram falar sobre a competição de Virgínia através de sua escola. Para se qualificar, eles tiveram que identificar senhas e limpar configurações de segurança – muito diferente de criar um programa de Caps Lock. Cerca de 700 estudantes de 110 escolas da Virginia se inscreveram, mas apenas 40, incluindo Jaska e Berman, foram escolhidos.

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Assim, há três semanas atrás, os amigos foram participar Desafio Cibernético da Copa do Governador na Universidade de George Mason. Lá, eles encontraram algo que raramente encontrariam em sua escola - uma próspera comunidade de adolescentes com os mesmos objetivos, os melhores e mais brilhantes executores de uma prática altamente especializada.

"Para algumas das crianças, que tendem ser um pouco solitárias, esta foi a primeira vez que puderam participar de um grupo ", disse Paller. "Todos estavam tendo conversas sobre questões técnicas - algo que nunca chegaram a fazer com outros colegas - e seus pais os apoiavam."

Os estudantes enfrentaram o mesmo teste de cinco etapas que os militares utilizam para testar seus próprios especialistas em segurança. Eles ganhavam pontos por conseguir decifrar senhas, sinalizar vulnerabilidades e invadir a conta de um administrador do site, e, se tivessem alterado qualquer configuração ou desfigurado o site, eram eliminados. Suas notas eram apresentadas em tempo real em uma placar.

Depois de várias horas, os vencedores foram anunciados. Um terço dos alunos haviam chegado até a terceira etapa – uma etapa que o contra-almirante Gib Godwin, presidente da Copa do governador, disse que normalmente requer alguém com sete a 10 anos de experiência para atingir. Jaska venceu, ganhando uma bolsa de US$ 5 mil. Berman ganhou US$ 1,5 mil e ficou no terceiro lugar.

Agora, Jaska está aguardando uma vaga para fazer um estágio na Northrop Grumman. Napolitano poderá ficar feliz ao saber que Berman está considerando um estágio na Segurança Interna. Mas pode ser que ela tenha que ser ainda mais convincente em sua proposta.

Quando perguntados sobre seu emprego dos sonhos, ambos estudantes disseram que queriam trabalhar no setor privado. "O problema em trabalhar para o governo é que você vai ganhar muito menos", disse Berman. "Tudo é mais devagar, há cortes no orçamento e há burocracia por todos os lados e você não pode falar sobre o que você faz", Jaska acrescentou. "Não parece ser tão divertido quanto no setor privado."

Por Nicole Perlroth

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