Aparelhos e serviços digitais abrem caminho para a imortalidade virtual

Por NYT |

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Aposentados atuais pertencem à primeira geração de idosos com acesso a tecnologias que lhes permitem deixar registro completo de suas vidas a seus descendentes

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Ninguém confundirá os típicos aposentados de hoje com o Imperador Augusto, que construiu um enorme mausoléu para celebrar sua vida para a eternidade. Mesmo assim, eles pertencem à primeira geração de idosos com fácil acesso a algo antes tão raro e valioso que relativamente poucas figuras históricas puderam aproveitar até agora: a imortalidade virtual.

The New York Times
Cathi Nelson, organizadora de fotos especializada em ajudar pessoas a compilar scrapbooks tradicionais, mas que agora também usa formatos digitais, em West Hartford (6/3)

Enquanto seus avós deixaram apenas algumas fotos amareladas, os aposentados de hoje têm a capacidade de deixar um registro completo de suas vidas. Seus descendentes serão capazes de testemunhar nascimentos e primeiros passos, jogos de futebol da juventude e formaturas do colegial, casamentos e primeira residência, férias e reuniões de família. Eles também poderão ler suas opiniões sobre política e religião, saber que eles amavam as músicas de Junior Kimbrough, os filmes de Billy Wilder, o New York Yankees e sorvete de chocolate com menta.

Os ancestrais do passado distante são, no máximo, nomes na bíblia da família. Pessoas em 50, 100, até mesmo 500 anos poderão ver como seus antepassados eram, ouvi-los falar, aprender sobre suas aspirações e conquistas e sobre aquela viagem de esqui em Vermont.

Ron W. Henriksen, um aposentado de 66 anos de Houston, afirmou que o nascimento de seus sobrinhos levou-o a contratar uma empresa para produzir um filme sobre sua mãe de 98 anos que combina fotos antigas, recortes de jornais e documentos de família com entrevistas ao vivo.

"Percebi que haveria gerações de nossa família que nunca conheceriam essa mulher notável", disse, "e apenas nos últimos anos um projeto como esse se tornou viável".

Duas forças principais estão orientando a imortalidade virtual. A primeira e mais óbvia são tecnologias relativamente novas, hoje tão comuns que as pessoas as subestimam: câmeras de vídeo baratas, programas de edição, computadores e sites de mídia social. Eles permitem que as pessoas tirem milhares de fotos e gravem centenas de horas de vídeo, registrando facilmente qualquer ideia que lhes surgir.

Durante séculos, as pessoas registraram suas vidas em diários. Mas isso era "um impulso bastante estranho, adotado por um fragmento da população", segundo Thomas Mallon, cujas obras incluem "A Book of One's Own: People and Their Diaries" ("Seu Próprio Livro: Pessoas e Seus Diários", em tradução livre). Manter um diário era trabalho duro: exigia tempo, esforço e vontade.

Hoje, muitas pessoas criam diários virtuais sempre que entram na internet ou tiram uma foto com seu celular.

Essas tecnologias acompanham uma mudança cultural mais ampla que reconhece a importância das vidas comuns. Onde Plutarco ajudou a definir um padrão para biografias históricas ao narrar as vidas de nobres gregos e romanos, escritores mais recentes, como Robert Coles e Studs Terkel, mostraram o valor de celebrar as vidas dos não celebrados.

A mudança ajuda a redefinir o conceito de história, conforme as pessoas subitamente possuem as ferramentas e o desejo de registrar as vidas de quase todos. O antigo problema que assolava os historiadores – a falta de informações – foi superado. Infelizmente, ele foi vencido com uma vingança.

O problema do excesso de informação é dolorosamente familiar aos historiadores profissionais. H.W. Brands, professor da Universidade do Texas, em Austin, leu todos os 35 volumes dos escritos de Benjamin Franklin para sua biografia do fundador dos EUA, "The First American" ("O Primeiro Americano", em tradução literal) (2000). O foco de seu próximo livro, o presidente Ronald Reagan, deixou mais de 60 milhões de documentos.

"O desafio à frente estará mais em identificar o material que interessa do que em propriamente encontrar material", afirmou.

Os aposentados enfrentam um problema similar. Eles precisam fazer a pergunta difícil: quanto tempo os seus descendentes – ou mesmo seus parentes vivos – realmente querem gastar revivendo suas vidas? É mais provável serem 20 horas ou apenas duas?

"Você não está fazendo um favor ao futuro deixando 4 mil fotos borradas de uma partida de futebol", argumentou Sarah E. White, presidente da Associação de Historiadores Pessoais. "Precisamos descobrir como fazer a curadoria de nossas vidas, examinar todo o material que produzimos para contar uma história de nós mesmos que faça sentido para outras pessoas depois de nossa morte."

Em resposta, um crescente número de empresas e organizações vem surgindo nas últimas duas décadas para ajudar as pessoas a preservar e moldar seu legado. Segundo White, que administra a First Person Productions em Madison, Wisconsin, sua associação foi fundada em 1995 para profissionais que ajudam outras a pessoas a escrever suas memórias. Inicialmente, os computadores pessoais eram a maravilha moderna que simplificava o processo.

"Então, quando programas de edição de vídeo como iMovie e Final Cut Pro ficaram disponíveis, as pessoas também podiam começar a contar suas histórias com áudio e vídeo", explicou.

Cathi Nelson, de West Hartford, Connecticut, que se especializou em ajudar pessoas a compilar álbuns de recortes tradicionais, disse ter adotado a tecnologia há uma década, quando percebeu que seus clientes estavam "atolados com uma vida de fotos impressas, fotos digitais, mídias e recordações".

Em 2009, ela fundou a Associação de Organizadores Pessoais de Fotografias, cujos membros pagantes chegaram a 650 no ano passado.

Segundo Nelson, a maioria dos clientes dos membros é formada por aposentados que finalmente têm tempo para refletir sobre suas vidas. Muitos precisam de ajuda para digitalizar o passado – escanear fotos vincadas e certidões de nascimento, além de transferir materiais de formatos obsoletos como fitas cassete e VHS. Ela acrescentou que os formatos atuais – discos rígidos, DVDs, até mesmo a nuvem – também não são confiáveis para permanência, e que é essencial ter um plano para manter os arquivos atualizados conforme as tecnologias evoluem. Ela disse que o livro impresso, paradoxalmente, segue como um dos formatos mais duradouros.

Enquanto seus clientes trabalham para organizar pilhas de material, Nelson os ajuda a diferenciar entre o pequeno número de fotos que valem a pena num álbum e as muitas fotos que vão para o lixo. Eles organizam as fotos e clipes de vídeo, escrevendo legendas e gravando narrações, e acabam contando uma história.

"Tento ajudar as pessoas a determinar o objetivo", continuou Nelson. "Qual é a história principal que desejam contar? Quais são os temas de sua vida? Por exemplo, você viajava todo verão para algum lugar? Qual a história por trás das férias de verão? Vamos reunir tudo que você tem para contar uma história."

Segundo Stefani Twyford, que cria biografias em vídeo em sua empresa, a Legacy Multimedia, de Houston, muitos de seus clientes são pessoas da geração do baby boom querendo registrar a vida de seus pais. "Há uma verdadeira noção de que podemos finalmente contar essas histórias, e eles querem agir antes que seja tarde demais", contou.

Uma das filhas de John Butterfield contratou Twyford para fazer um DVD sobre sua vida para seu aniversário de 80 anos.

"Eles me filmaram e conversaram com parentes e amigos", lembrou-se Butterfield, que hoje tem 87 anos e mora em Sarasota, na Flórida. "Hoje, todas as pessoas que eles filmaram estão mortas, exceto meu irmão. Isso me disse para me apressar."

Novos dispositivos e tecnologias estão determinados a promover essa revolução da imortalidade; futuristas já estão imaginando o dia em que as pessoas poderão ter uma conversa virtual com hologramas de seus ancestrais.

"As pessoas sempre quiseram se conectar com outras pessoas e ver que elas tocaram outros e fizeram alguma diferença", disse Twyford. "O que mudou é que agora temos as ferramentas para registrar e compartilhar seu legado, para sempre."

*Por J. Peder Zane

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