Doador anônimo ajuda afegão a cancelar venda de filha de 6 anos para casamento

Por NYT |

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Caso de Taj Mohammad, que havia prometido filha para quitar dívida de US$ 2,5 mil, mostra como guerra corroeu vínculos sociais e redes de proteção de milhares de afegãos do interior

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O pagamento há quase um mês da dívida do afegão Taj Mohammad por um doador anônimo põe fim ao drama de sua filha Naghma, de 6 anos, que em janeiro havia sido vendida pelo pai para um casamento com o objetivo de pôr fim a um endividamento que ele havia contraído previamente.

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O afegão Taj Mohammad (C), com seu filho (E) e a filha Naghma, 6, que seria dada em casamento em pagamento de dívida, no campo de Charahi Qambar, em Cabul (23/02)

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Fugidos da violência da Província de Helmand, Mohammad e sua família vivem há quatro anos no campo de refugiados de Charahi Qambar, um dos maiores de Cabul (capital do Afeganistão), e se ele não tivesse conseguido quitar a dívida em um ano seria obrigado a dar a menina em casamento para o filho de 17 anos de seu antes credor.

Mohammad havia pedido emprestado US$ 2,5 mil ao longo de um ano para pagar o tratamento médico de sua mulher e nove filhos - incluindo Janan, 3, que morreu congelado durante o inverno, pois a família não tinha dinheiro suficiente para se manter aquecida. Quando o homem que lhe havia emprestado o dinheiro exigiu a quantia de volta, Mohammad não teve como pagar.

"Eles disseram: 'Queremos nosso dinheiro', e eu não tinha, então tive de dar a minha menina", disse. "Senti-me agradecido no momento, e a decisão foi minha, mas os mais velhos também exigiram que eu fizesse isso", disse referindo-se ao fato de que o acordo foi fechado durante um conselho de idosos, processo extrajudicial conhecido como "jirga", no campo de refugiados.

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Depois de ouvir sobre o caso em reportagens anteriores, o doador ofereceu-se para pagar a dívida, mas com a condição de que a origem da doação permanecesse anônima. Kimberley Motley, uma advogada americano pela qual o doador atuou, disse que a transação aconteceu no início de março.

Corrosão dos laços sociais

A história de inesperado final feliz de Mohammad, um refugiado de Helmand que antigamente sobrevivia como cantor e músico, é em parte uma saga das escolhas terríveis a que são submetidas algumas das famílias mais pobres do Afeganistão. Mas também é uma história de como a guerra corroeu os laços sociais e redes de segurança da comunidade que sustentavam as vidas de milhares de afegãos.

Mulheres e meninas estão entre as principais vítimas - até pelo fato de que, segundo defensores dos moradores dos acampamentos, o governo afegão faz pouco esforço nesses locais para que as leis que protegem as mulheres e crianças sejam cumpridas.

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Afegã Naghma, 6, é vista durante aula no campo de refugiados de Charahi Qambar, em Cabul (23/02)

A maioria dos refugiados nesse acampamento de Cabul vem de áreas rurais do sul do Afeganistão e continua agindo de acordo com códigos tribais e as "jirgas", que resolviam disputas em suas aldeias de origem.

Poucos, no entanto, ainda possuem o apoio de uma rede mais ampla de parentes para que possam contar com ajuda em tempos difíceis da mesma maneira que tinham em casa. Fora de contexto, os códigos pashtun que já eram rígidos se tornaram ainda piores.

"Esse tipo de coisa nunca aconteceu em casa, em Helmand", disse a mãe de Mohammad, sentada na parte de trás da sala. Observando sua neta enquanto ela sorria com seu professor Najibullah, que também atua como um trabalhador social no acampamento e foi visitar a família no acampamento, ela acrescentou: "Não me lembro de nenhuma situação em que uma menina tenha sido negociada para pagar um empréstimo."

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Do ponto de vista de quem participou da "jirga", a resolução era uma boa opção, disse Tawous Khan, um ancião que liderou a reunião e é um dos dois principais representantes do acampamento. "Você vê, Taj Mohammad teve de dar sua filha. Não havia outra solução", disse antes da intervenção do doador anônimo. "E assim foi resolvido o problema."

Algumas ativistas que ficaram sabendo do caso por meio da mídia ficaram indignadas e disseram ter pedido a intervenção do Ministério do Interior, já que o casamento infantil é uma violação da lei afegã, assim como é ilegal vender uma mulher. Mas nada aconteceu, disse Wazhma Frogh, diretora-executiva do Instituto de Pesquisa para as Mulheres, Paz e Segurança.

"Tem de haver algum tipo de intervenção", disse Frogh, "caso contrário os outros pensarão que esse comportamento é aceitável e a situação piorará".

Os acampamentos

Como a maioria dos homens nos acampamentos, Mohammad busca emprego quase todos os dias como mão de obra não qualificada, em funções que pagam cerca de US$ 6 diários - nem mesmo o suficiente para comprar o básico para que sua família sobreviva: chá verde, pão e, quando conseguem comprá-las, batatas. Carne e açúcar são luxos raros.

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Criança coleta lixo de vias que servem como ruas em um campo de refugiados em Cabul, Afeganistão (25/02)

Durante muitos dias ninguém contrata os homens do acampamento por causa das condições de suas roupas e barbas. "As pessoas sabem de onde somos e pensam que integramos a milícia islâmica do Taleban", relatou Mohammad.

Depois de quatro anos no acampamento, ele pensa em voltar para Helmand como um trabalhador migrante para a colheita de papoula para que possa ganhar o suficiente para alimentar sua família e economizar para comprar lenha para o próximo inverno.

Mundo das mulheres

Como a maioria das moradias no acampamento, a cabana de Mohammad tem um teto de lona, levemente reforçado com madeira, uma sala de entrada sem aquecimento e uma sala interior com um fogão. Uma pequena janela permite que um pouco de luz entre, e a sala contém as poucas posses da família: cobertores, roupas velhas, alguns potes e panelas e dez gaiolas de pássaros para as codornas que ele treina para cantar na esperança de vendê-las para ganhar um pouco mais de dinheiro.

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Para sua mulher, uma bela jovem que se sentou nas sombras com um véu preto cobrindo seu rosto enquanto seu marido discutia o destino de sua filha, não há muito futuro. Em sua aldeia em Helmand, até mesmo as famílias pobres têm espaços cercados ou terra onde uma mulher pode sair ao ar livre.

Nos acampamentos, no entanto, as cabanas estão amontoadas, com pequenos espaços entre elas. "Não há privacidade nos acampamentos, e para as mulheres é como se estivessem em uma prisão", disse Mohammad Yousef, engenheiro e diretor de Aschiana, um grupo de ajuda que atende nove acampamentos ao redor do país e também trabalha com crianças de rua. "Elas estão constantemente sob tensão emocional."

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Pássaros são vistos em gaiolas na casa de Rahmatullah, ancião no campo de refugiados de Charahi Qambar, em Cabul, Afeganistão (23/02)

O remorso

Desde o momento em que concordou com o negócio, Mohammad começou a se arrepender e a pensar em tudo que poderia dar errado. "Se, Deus me livre, eles maltratassem a minha filha, então eu teria de matar alguém de sua família", disse antes da informação sobre a doação anônima.

"Ela é muito pequena, nós a chamamos de 'peshaka'", disse, palavra que em pashtum significa "gatinha". "Ela é uma menina muito linda. Todos na nossa família a amam, e mesmo que ela brigue de vez em quando com seus irmãos mais velhos, não brigamos com ela para lhe dar toda felicidade possível."

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Ele acrescentou: "Acredito que, quando ela for para aquela casa, morrerá logo. Ela não receberá todo o amor que recebe de nós, e tenho medo de que perderá a vida. Uma menina de 6 anos não sabe como é ter uma sogra, um sogro ou ter um marido ou ser uma esposa ", disse.

Para aumentar ainda mais com seus temores, a mãe do menino com que a menina se casaria havia ido até a casa de Mohammad para pedir à sua mulher que parasse de mandar a crianças para a escola, contou o afegão.

"Você sabe, minha filha adora ir à escola, e ela quer estudar muito. Mas para a outra família o fato de ela frequnetar a escola era um desonra", relatou. Sem a ajuda do doador anônimo, não haveria o que Mohammad pudesse fazer: "Não posso lhes dizer o que fazer. "Ela é sua esposa, sua propriedade", afirmou olhando para suas botas antes de o acordo ter sido cancelado. 

Por Alissa J.Rubin

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