Onda de suicídios põe fim à vida de duas irmãs no Afeganistão

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Em Estado mais exposto à cultura Ocidental, irmã mais velha se suicida após mais jovem ingerir veneno de rato em meio à pressão para desistir de rapaz por quem se apaixonou

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Na superfície, as irmãs Gul pareciam ter tudo: eram jovens, bonitas, educadas e bem de vida, testando os limites das conservadoras tradições afegãs ao vestir jeans, usar maquiagem e falar em celulares.

Mas Nabila Gul, 17, uma estudante do colegial, foi longe demais. Ela se apaixonou.

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The New York Times
Vestidos que pertenciam a Fareba e Nabila Gul, irmãs que cometeram suicídio, continuam guardados por sua família em Mazar-i-Sharif (03/03)

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Sua irmã mais velha, Fareba, 25, alarmada com a potencial vergonha e as consequências da busca de Nabila por um jovem fora das conexões da família, tentou intervir. Sua discussão naquele dia de novembro terminou em caixões postos lado a lado, as duas morrendo com poucas horas de diferença uma da outra após consumirem veneno de rato roubado do armário de seu pai.

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Entrevistas com membros da família e do governo e funcionários do hospital em Mazar-i-Sharif, Afeganistão, revelaram uma tragédia de erros de cálculo: sob a pressão de sua irmã mais velha para interromper a comunicação com o rapaz, Nabila tentou ingerir apenas o suficiente de veneno para assustar sua família, mas sem pretender se matar. Mas ela errou no cálculo da dose. Dominada pela culpa e pela tristeza, Fareba decidiu se matar na porta do santuário mais sagrado da cidade.

As mortes das irmãs devastaram sua família e os moradores de Mazar-i-Sharif, uma cidade cada vez mais marcada pelo desespero de suas jovens mulheres. Para muitos, as mortes passaram a simbolizar uma grande crise: uma onda de tentativas de suicídio.

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Embora o governo tenha dito que não coleta dados sobre esses casos, o principal hospital da cidade disse estar sobrecarregado com três ou quatro suicidas todos os dias, contra cerca de um ou dois por mês há cerca de uma década.

O número de tentativas aumentou com tal velocidade que o chefe de investigações da polícia, o coronel Salahudin Sultan, disse que não consegue mais acompanhá-las.

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Quanto às perguntas de por que essa tragédia aconteceu, parecem haver tantas teorias quanto incidentes. A maioria das explicações tende a se concentrar no Estado de Mazar no Afeganistão como sendo um centro multicultural rico, relativamente mais liberal e exposto às influências europeias.

E, embora as meninas afegãs de Mazar-i-Sharif sejam regularmente expostas às normas sociais do Ocidente por meio de séries de televisão e pela internet, o fato é que elas vivem na conservadora e machista sociedade do Afeganistão. O confronto é cruel e pode ser devastador.

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"A maioria das meninas não morre, mas todas tomam veneno ou pelo menos ameaçam se matar", disse Khowaja Noor Mohammad, chefe de medicina interna no Hospital Regional de Mazar-i-Sharif. "Esse é o seu grito de socorro."

Por Azam Ahmed

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