Vítima da ditadura argentina descarta papel de papa Francisco em sua prisão

Por NYT | - Atualizada às

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Apesar de negativa de reverendo Franz Jalics, sacerdote Orlando Yorio disse antes de morrer em 2000 que Bergoglio prejudicara seu trabalho em favela e os deixara vulneráveis

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Francisco Jalics em local desconhecido na Alemanha (foto de arquivo)

Um padre jesuíta, cujo sequestro por militares argentinos colocou em dúvida as ações de Jorge Mario Bergoglio, hoje o papa Francisco, durante a ditadura do país, disse nesta semana que o atual pontífice não foi responsável por sua detenção. 

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"Estes são os fatos: Orlando Yorio e eu não fomos delatados pelo padre Bergoglio", disse o reverendo Franz Jalics em comunicado, mencionando o outro sacerdote que foi sequestrado com ele em 1976. A declaração foi feita em 20 de março. "É, portanto, errado afirmar que o padre Bergoglio foi culpado por nossa captura."

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Mas a declaração de Jalics não fez referência a uma disputa levantada por Yorio, que morreu em 2000, de que Bergoglio havia tentado prejudicar seu trabalho em uma favela de Buenos Aires, ao tomar medidas que podem tê-los deixado vulneráveis aos militares. Bergoglio era o chefe da ordem jesuíta na Argentina no momento dos sequestros.

Jalics afirmou que fez o comunicado para esclarecer sua declaração anterior, publicada logo depois que o cardeal argentino foi escolhido como papa, na qual não falou sobre o papel de Francisco nos eventos que precederam os sequestros.

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Francisco e muitos outros líderes da Igreja na Argentina têm sido criticados por não falarem publicamente contra os abusos dos direitos humanos ocorridos na ditadura militar, que durou de 1976 a 1983. O papa foi testemunha em um processo judicial decorrente do sequestro dos padres dizendo que se reuniu com os principais oficiais militares para pedir a libertação dos sacerdotes.

Jalics e Yorio viviam entre os pobres em uma favela de Buenos Aires, um ato que a ditadura achava suspeito. Eles foram sequestrados e mantidos em uma prisão secreta, com os olhos vendados e mãos e pés algemados, durante cinco meses, antes de serem libertados.

Em 1977 Yorio escreveu um relato detalhado sobre o sequestro, no qual questionou as ações de Bergoglio. Ele escreveu que Bergoglio fez relatórios negativos sobre suas atividades para bispos locais e afirmou que estavam nas favelas sem sua permissão. Ele disse que Bergoglio os exortou a deixar a ordem jesuíta e que depois foram expulsos da ordem, poucos dias antes do sequestro.

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Não foi possível verificar o relato de Yorio, e especialistas em procedimentos da Igreja questionaram se as regras da Ordem teriam permitido que Bergoglio expulsasse um padre. A irmã de Yorio, Graciela, disse em uma entrevista na semana passada que Bergoglio havia deixado os dois padres "totalmente desprotegidos", o que, de acordo com ela, os tornou um alvo mais fácil para os militares.

Em sua declaração, Jalics disse que informações falsas circularam na Igreja acusando os dois padres de pertencer a um grupo guerrilheiro que lutava contra o governo, mas ele não vinculou Bergoglio a essa campanha de boatos.

"Antigamente, eu também tendia a acreditar que havíamos sido vítimas de alguém que nos denunciou", disse Jalics no comunicado. "Ao final dos anos 1990, no entanto, tornou-se claro para mim depois de muitas conversas que essa suposição não possuía nenhum embasamento".

Por William Neuman

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