Deformado por ataque com ácido há 40 anos, americano rejeita papel de vítima

Por NYT | - Atualizada às

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Ainda assombrado por violência que marcou sua infância, repórter rastreia homem atacado por vizinho aos 4 anos para descobrir que ele não permitiu que incidente definisse sua vida

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Em uma tarde de outubro há 40 anos, no bairro de Park Slope, Brooklin, um crime aconteceu em uma fração de segundo, mas foi tão permanente quanto cruel. Os adultos tentaram explicar o fato de uma maneira racional e até mesmo usá-lo como um exemplo de advertência para seus filhos, mas, no fim, muitos optaram por esquecê-lo. Afinal, foi algo terrível. E muito difícil de entender.

A vítima foi Josh Miele. Ele tinha 4 anos. Naquele dia, 5 de outubro de 1973, ele brincava no quintal da casa de sua família enquanto sua mãe, Isabella, preparava comida na cozinha. A campainha tocou e Josh correu para atendê-la.

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Joshua Miele tinha 4 anos quando foi vítima de um ataque com ácido (8/2)

De pé, do outro lado do portão de ferro estava Basilio Bousa, 24 anos, que morava ao lado. Josh destrancou o portão para ele. Então, colocou seus pés no degrau mais baixo do portão e o agarrou com as mãos para que seu peso o abrisse. Mas Basílio ficou apenas parado. E Josh saiu.

De repente, ele não enxergou mais nada. Ele não sabia por quê, mas tateou o entorno com suas mãos, tentando segurar as paredes. Com grande esforço, abriu seus olhos e conseguiu ver um painel de madeira no átrio. Foi a última coisa que viu.

Eu tinha 7 anos e morava a quatro quarteirões de distância, em St. Johns Place. Minha mãe entrou na cozinha nesse dia ou no seguinte, com as mãos tremendo. "Wendell", disse, "sempre que você for abrir a porta, nunca vá até o portão até você saber quem está lá. Sempre olhe pela janela antes de abrir a porta. Você sabe o que aconteceu? Esse menino que mora na rua debaixo atendeu a porta e um homem louco derramou ácido em sua cabeça."

Ela me levou para frente do nosso portão e me fez praticar. Pensei: Por que alguém faria isso com uma criança? O jornal não deu nenhuma pista clara, apenas um artigo breve: "Menino de 4 anos é ferido por atirador de ácido."

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Para mim, era como um conto de fadas dos Irmãos Grimm particularmente arrepiante, com o mais terrível de todos os vilões: "O atirador de ácido". Até o dia em que minha mãe vendeu a casa, quando eu tinha quase 40 anos, segui seu conselho toda vez que recebia uma visita: dava um pequeno passo para trás toda vez que respondia à campainha.

Foi o crime da minha infância. Não conhecíamos a família Miele, mas sempre quis saber o que se passou naquele dia e o que aconteceu depois - se eles tinham superado isso tudo juntos ou não. Queria saber o que aconteceu com o "homem louco" e quem ele era. Mas, acima de tudo, queria saber o que tinha acontecido com o menino.

Jean Miele comprou a casa na rua President, 851, em 1965. Ela era estreita e diferente, com pilastras e estátuas. A fachada era muito semelhante às feitas hoje em dia, apesar de desbotada. No dia em que se mudaram, Miele deixou uma espingarda na varanda para que todos pudessem ver. Ele e Isabella tiveram um filho, também Jean, e uma filha, Julia. Josh nasceu em 1969.

Felipe e Clara Bousa mudaram-se para a mesma rua, no número 849, com o seu filho Basilio em 1955. A família havia vindo de Cuba. "Os Bousas eram pessoas muito gentis", disse Miele, quando falei com ele há não muito tempo em sua nova casa, na rua Carroll. Os Mieles e os Bousas saíam para jantar juntos.

Segundo Carmen Bousa, a filha deles, "quando Isabella trouxe Josh do hospital para casa, achei que ele era o bebê mais bonito que eu já tinha visto".

Mas havia problemas com Basilio. Ele "era um pouco lunático", disse Ruben Torres, que costumava andar com ele pelo bairro. "O tratávamos como alguém que tinha tomado muito LSD. Ele era alucinado."

Carmen disse que sua mãe havia detectado algo de errado com Basilio quando ele tinha apenas um ano. Ela disse que tentou ajudá-lo. Ele usava drogas pesadas, foi expulso do Brooklyn College e começou a trabalhar na adega da família na Sétima Avenida. Então, por motivos desconhecidos, ficou obcecado pela família Miele. Quebrou uma janela e depois jogou uma garrafa em chamas no quintal deles, atraindo atenção da polícia e provocando sua prisão.

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Ele foi libertado e entrou para o Exército, mas, em outubro de 1973, estava ausente e sem licença. Foi nessa época que se dirigiu à adega, abriu o extintor de incêndio, derramou o ácido sulfúrico dentro de um recipiente, caminhou até a casa dos Mieles e tocou a campainha.

Jean Miele estava em uma viagem de negócios em Washington e, quando voltou para o Brooklyn, Josh já estava no Hospital Metodista. Miele ficou chocado quando viu seu filho: "Seu rosto parecia uma máscara, a pele de Josh ficou marrom, com suas características alteradas. Me lembro de pensar: 'Não faço ideia do que fazer numa situação dessas."'

Médicos trabalharam sem parar no caso do menino, tentando salvar sua visão. Miele começou a ganhar coragem novamente no dia seguinte, quando um médico se aproximou e lhe falou que, se não levassem Josh para um hospital militar, em breve ele morreria. Apesas o Exército tinha capacidade para lidar com aquele tipo de ferimento. Havia um telefone público na sala de espera. Miele fez algumas ligações.

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Jean Miele, esquerda, com seu filho, Jean, na casa de Miele no Brooklin, em nova York

Ele conseguiu falar com o deputado de Park Slope, Hugh Carey. Após algumas brincadeiras fora de hora - "Eu tenho 14 filhos e eles sempre se metem em encrencas" -, Carey entrou em contato com o Gabinete do Cirurgião Geral. Houve uma conversa com os médicos de Josh. Em seguida, o telefone público recebeu uma chamada do coronel Basilio Pruitt, um médico que foi chefe do Exército no Centro Médico de Brooke, em San Antonio, o único hospital militar na época dedicado ao tratamento de vítimas de queimaduras.

Josh foi submetido a inúmeras operações. Camadas de pele foram retiradas de sua perna e enxertadas em seu rosto. Tecido morto foi cortado, um processo extremamente doloroso, diversas vezes. Isabella Miele, uma artista, ia explorar San Antonio, quando tinha alguns momentos longe do hospital. Ela caminhava ao longo do rio que atravessa a cidade, mas era difícil escapar do motivo pelo qual estava lá: "Olhava para o céu e ali estavam essas nuvens, e eu estava chorando no meio da rua, pensando, Josh nunca mais verá as nuvens."

Quando o irmão de Josh, Jean, o viu pela primeira vez, em Nova York, cerca de seis semanas depois de ter sido queimado, ficou chocado. Josh parecia o mesmo, tinha a voz do mesmo menino pequeno que sentia saudades de seu irmão mais velho, mas sua aparência havia sido tão radicalmente alterada, e os ferimentos eram muito recentes. Muitas de suas características foram embora, e o que sobrou foram apenas cicatrizes.

Julia teve uma reação um pouco diferente em relação a Josh. Ele mal havia saído de seu período de infância, ela nem havia se acostumado com ele como um indivíduo, e, de repente, ele parecia diferente de qualquer pessoa que já tinha visto antes. "Meus pais não ficaram tão chocados com isso, mas sofri muito com essa mudança."

Josh aprendeu a usar uma bengala e frequentava o Centro Industrial para Cegos em Brooklyn Heights. Seu pai construiu um beliche que possuía diversos obstáculos para que ele pudesse subir na cama e ao mesmo tempo exercitar seu corpo.

Josh Miele vive hoje em Berkeley, Califórnia, em um belo bairro com casas de 1920, com sua esposa, Liz, e seus filhos, Benjamin, 10, e Vivien, 7. Josh estava profundamente reticente em falar para este artigo. Trocamos diversos e-mails e nos reunimos em um café no outono, quando ele visitou seu pai. Estava um pouco nervoso por não saber como reagiria à sua aparência. Mas achei sua presença fascinante, sua inteligência e senso de humor falavam mais alto que sua aparência, e ele rapidamente me deixou à vontade. Quando fui à sua casa para jantar, com seus filhos correndo pela casa, já havia esquecido qualquer diferença entre nós.

Josh possui licenciatura em Física e doutorado em Psicoacústica pela Universidade da Califórnia, em Berkeley. Ele se ausentou algumas vezes durante seu curso de graduação e trabalhou em tempo integral para a empresa de tecnologia Berkeley Systems em um software para ajudar os cegos a navegar em programas de computador baseados em gráficos.

Trabalhou para a Nasa desenvolvendo softwares para o Mars Observer. É presidente do conselho de administração da San Francisco LightHouse para Cegos. Toca baixo em uma banda. E também trabalha como um cientista associado do Instituto de Pesquisa dos Olhos Smith-Kettlewell, um centro de pesquisa sem fins lucrativos.

"Não é que eu não queira ser famoso", disse. "Gostaria de ser tão famoso quanto qualquer um, mas quero ser famoso pelas razões certas, pelo trabalho que tenho feito, e não por alguma coisa estúpida que me aconteceu 40 anos atrás."

Ele tem ajudado a desenvolver mapas em braile de cada estação do sistema de transporte da Bay Area Rapid Transit. Ele desenvolveu um sistema em que as informações podem ser ouvidas usando uma caneta de áudio inteligente.

Seu entusiasmo pelos mapas em braile é contagioso, mas sua mais recente paixão vem à tona quando ele descreve o seu mais recente projeto, um programa de software baseado em nuvem, a Bolsa de vídeo descritivo, que, em teoria, deixará que qualquer pessoa possa narrar qualquer vídeo ou filme para descrever o que veem para aqueles que não podem. É uma espécie de serviço que permitiria, por exemplo, que um fã do seriado Star Trek pudesse descrever um episódio de uma maneira que outros devotos apreciariam. A primeira versão funcionará para qualquer vídeo no YouTube.

Tudo isso foi resultado de quando ele teve seus próprios filhos e percebeu o que essa experiência deve ter sido para seus pais. Ele hoje tem muito orgulho do otimismo de seu pai e da proteção de seus irmãos. Ele se recorda de como sua mãe lhe disse muitas vezes como ele poderia fazer as mesmas coisas que uma pessoa com visão poderia, e até mesmo mais coisas, como tocar obras de arte de valor inestimável em museus. "Nunca duvidei de que tudo daria certo", disse. "De uma certa maneira, foi uma conclusão precipitada de que ficaria bem."

Este não foi o caso para os Bousas. Basilio foi preso e acusado de agressão em primeiro grau. Ele disse que ouvia vozes, que era perseguido, e que, de alguma forma, os Mieles o incomodavam. Recebeu um diagnóstico de esquizofrenia paranoica e, eventualmente, foi solto sob fiança e voltou para casa, levando a fortes protestos da família Miele e uma audiência judicial.

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Joshua Miele caminha ao lado de sua amiga e colega de trabalho Lisa Carvalho pela rua em São Francisco

Basilio foi tratado em um hospital psiquiátrico até que foi considerado pronto para ser julgado. Josh, na época com 7 anos, serviu como testemunha. Mas, no final, Basilio não foi considerado culpado por razões de insanidade e foi enviado para receber mais tratamentos. Eventualmente, os Bousas se mudaram para a Flórida. A adega fechou. Basílio morreu em 1992, depois de contrair enfisema pulmonar.

Sua irmã, Carmen, disse que ele fumava constante e obsessivamente em seus últimos anos, e em momentos de lucidez ficava horrorizado com o que tinha feito. Seus pais morreram na mesma época. "Nada nunca mais foi o mesmo depois daquele dia", disse. "Essa coisa destruiu a minha família. Sentimos muito pelo que aconteceu."

Quando nos conhecemos no café, Josh - ou, para dar seu nome completo, Joshua Miele - estava em Nova York para liderar um painel de discussão no Museu Metropolitano de Arte sobre como melhorar a experiência do museu para cegos. Seu pai ainda vive em Park Slope, assim como Julia - agora Julia Miele Rodas, uma professora no Bronx Community College, que ensina e escreve sobre deficiência na literatura - e seu irmão, Jean.

Ele disse sentir pena de Carmen Bousa por ainda sofrer tanto com o incidente e pensou em telefonar. Ele disse que tentou visitar sua antiga casa, mas quem morava lá não tinha respondido aos recados que deixou, talvez soubessem o que aconteceu naquele portão, talvez não. Ele se surpreendeu quando falei sobre as recomendações de minha mãe após o incidente.

Mas ele disse que suas palavras não teriam ajudado muito. "Isso é muito fascinante", disse, "mas você sabe, não teria feito a menor diferença. Eu era um garoto cauteloso. Sabia quem estava fora do portão. Eu conhecia Bassy. Se você o conhecesse, também teria aberto o portão."

Por Wendell Jamieson

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