Refugiados sírios despertam no Líbano dolorosa memória de crises anteriores

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Influxo de sírios aumenta tensões sectárias em um país assombrado pela chegada de palestinos em massa após conflitos com Israel, contribuindo para a guerra civil libanesa

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Silenciosamente, porém de maneira inevitável, uma maré humana tem se arrastado para o Líbano, vizinho menor e mais vulnerável da Síria. À medida que refugiados sírios atravessam a fronteira, o padre da aldeia de Qaa, Elian Nasrallah, proporciona-lhes tratamento médico em sua clínica e atravessa através de acampamentos cercados de lama para entregar cobertores.

Quando aldeões cristãos mostram estarem preocupados com a inundação de muçulmanos sunitas, ele responde que acolhê-los é "ser um verdadeiro cristão."

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Família síria almoça em sua tenda no na cidade de Qaa, Líbano (21/01)

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Mas o sacerdote e seus paroquianos não conseguem acompanhar o ritmo. A Organização das Nações Unidas (ONU) conta mais de 305 mil refugiados sírios no Líbano, mas autoridades locais e trabalhadores humanitários disseram que o número real é de cerca de 400 mil - em um país de 4 milhões de habitantes.

O governo libanês – teoricamente - em grande parte os abandonou. Profundamente dividido sobre a Síria, assombrado por memórias de uma crise de refugiados décadas atrás, o Líbano tem ignorado o problema, jogando-o sobre as comunidades como Qaa.

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Tensões sectárias estão aumentando. Rebeldes fugitivos sírio em aldeias da fronteira entraram em choque com soldados libaneses. A reação do governo adiou a ajuda internacional, e voluntários locais estão ficando sem dinheiro e paciência.

E a batalha para Damasco, a capital síria, mal começou. Caso a cidade religiosamente e politicamente mista de 2,5 milhões de pessoas seja atingida pela guerra, distante apenas meia hora do Líbano, o medo é que um cataclismo possa acabar com a paz da região.

"Há um limite para o que o país consegue suportar", disse Nadim Shubassi, prefeito de Saidnayel, uma cidade sunita agora repleta com fugitivos sírios. "Talvez tenhamos atingido esse limite hoje."

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No início, a maioria dos refugiados - principalmente sunitas, como a maioria dos rebeldes que lutam contra o governo da Síria - iam para as áreas amigáveis sunitas. Agora, essas comunidades estão cheias, e sírios estão se espalhando para lugares onde eles se encaixam menos confortavelmente, de aldeias de cristãos até a cidade mediterrânea de Tiro no coração xiita do sul muçulmano.

Eles estão imigrando porém com uma certa apreensão, em Qaa, no norte do Vale do Bekaa, no território da poderosa milícia xiita do Hezbollah, que é aliada com o governo da Síria e, para muitos refugiados, tão temível quanto. O que realmente torna os refugiados politicamente radioativos é uma dolorosa memória nacional.

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Palestinos imigraram para o Líbano em 1948 e 1967, fugindo de conflitos com Israel. Sua chegada criou divisões sectárias que ajudaram a contribuir para uma guerra civil. Mais de 400 mil palestinos ainda vivem na região de Qaa, em acampamentos em condições miseráveis, onde há violência periodicamente.

Temendo outro influxo permanente, o governo descartou a possibilidade de acampamentos para os sírios, limitou ajuda e deu às agências internacionais pouca margem de manobra. Trabalhadores da ONU tentaram fazer o melhor com o que lhes foi dado, dizendo que, pelo menos, os refugiados seriam integrados na sociedade.

O governo libanês não pode mais negar a crise. No mês passado, o Hezbollah libanês pediu para acolher os refugiados, independentemente da seita ou política. O governo reverteu o curso, pelo menos no papel. Ele aprovou planos para administrar a crise com a ajuda da ONU, que agora aguarda fundos e permissão para construir dois acampamentos de trânsito, cada um abrigando 5 mil refugiados, apenas um pequeno começo.

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Na cidade de Tiro, onde as ruínas romanas ficam de frente para o Mediterrâneo, Abdulfattah, 30 anos, encontrou segurança das batalhas que atingiram sua aldeia no norte da Síria. Mas ele deixa seus filhos dentro de seu quarto alugado. Quando se aventura a sair, anda com os olhos atentos e tensos e com os ombros curvados.

Ele faz isso pois esta é uma região pró-Assad. As ruas são repletas de bandeiras amarelas e verdes para o Hezbollah. A curta distância, mais de 25 de seus parentes vivem em um barraco de dois cômodos, esperando ajuda da ONU.

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Refugiados que deixaram a Síria por causa da violência montam acampamento em Qaa, Líbano (27/3/2012)

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Darwish Shoughari, que administra a clínica Amel não sectária em Tiro, sul do Líbano, disse que a região não tem sofrido nenhuma grande ameaça, graças às memórias dos moradores de terem sido abrigados nas casas de sírios durante a guerra do Hezbollah de 2006 com Israel, e pelo rígido controle do Hezbollah em relação à segurança.

"O Hezbollah sabe até quando uma galinha bota um ovo", disse ele. "É tolerável hoje", acrescentou, com 30 mil refugiados vivendo ao redor de uma cidade de 135 mil. "O que acontecerá quando esse número atingir 100 mil?"

Por Anne Barnard

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