Muçulmanos defendem direito de expressão de dinamarquês crítico do Islã

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Grupos acusados de omissão durante violência contra as caricaturas de Maomé, em 2006, defendem polêmico Lars Hedegaard após ele ser alvo de tentativa de assassinato

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Quando um aspirante a assassino disfarçado de carteiro deu um tiro - que falhou - na cabeça de Lars Hedegaard, um polêmico anti-islâmico e ex-editor de um jornal, em fevereiro, uma nuvem de suspeita imediatamente pairou sobre a minoria muçulmana da Dinamarca.

Políticos e especialistas de mídia se uniram para condenar o que viram como uma tentativa de oprimir a liberdade de expressão em um país que, em 2006, enfrentou manifestações violentas do mundo muçulmano por caricaturas do profeta Maomé que foram publicadas em um jornal local. Desde então, o jornal que primeiro publicou as imagens, o Jyllands-Posten, tem sido alvo de vários planos terroristas.

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Muçulmanos xiitas arrecadam dinheiro para construção de mesquita em Copenhagen, Dinamarca (2009)

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Em consonância com as opiniões de Hedegaard, uma grande quantidade de ataques antimuçulmanos e previsões de uma iminente guerra civil chamaram atenção, e a união da Dinamarca diante da violência começou a dissolver-se em disputas sobre imigração, discursos de ódio e causas do extremismo. 

Então, algo inusitado aconteceu. Grupos de muçulmanos no país, que foram muitas vezes criticados durante o furor do episódio das caricaturas por não se pronunciar contra a violência, condenaram o ataque a Hedegaard e apoiaram seu direito de expressar suas opiniões, não importando se estas sejam contrárias às suas crenças.

Ao receber a notícia de que Hedegaard tinha escapado do atentado com vida, Imran Shah da Sociedade Islâmica de Copenhague disse: "Sabíamos que as pessoas nos culpariam por isso. Sabíamos que tínhamos que nos posicionar e deixar claro que a violência política e religiosa é totalmente inaceitável."

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A Sociedade Islâmica, que opera a maior mesquita da Dinamarca e desempenhou um papel importante nas manifestações contra as caricaturas de Maomé, rapidamente condenou o ataque a Hedegaard. Também afirmou que lamenta o seu próprio papel durante a saga das caricaturas, quando enviou uma delegação ao Egito e Líbano para alarmá-los sobre a blasfêmia dinamarquesa, um movimento que ajudou a transformar o que havia sido um caso pouco notado domesticamente em uma crise internacional.

Antes evitado pela elite intelectual e política da Dinamarca, Lars Hedegaard, que não se machucou no ataque e agora vive em uma casa segura sob proteção policial, tem sido notícia de primeira página mesmo em jornais que o consideravam um racista deliberadamente polêmico, algo que nega ser.

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Na semana passada, quando fez uma aparição em uma reunião no Parlamento dinamarquês organizado pela Sociedade da Imprensa Livre, Hedegaard foi aplaudido de pé depois de um discurso no qual disse: "Eu não tenho um problema com os muçulmanos, mas tenho um problema com a religião do Islã."

Asmat Ullah Mojadeddi, médico e presidente do Conselho Muçulmano da Dinamarca, um grupo criado após a crise das caricaturas para combater radicais muçulmanos proeminentes na mídia, descreveu Hedegaard como uma imagem de alguém irresponsável por suas ações. "Há pessoas estúpidas em todos os lugares", disse Mojadeddi. "Hedegaard é tão extremista quanto alguns muçulmanos".

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Na esperança de aproveitar o furor agitado pelo ataque, um pequeno porém eficaz grupo antimuçulmano chamado Pare a Islamização da Europa organizou um protesto no centro de Copenhague. Seu líder, Anders Gravers, um açougueiro xenófobo do norte, fulminou contra os muçulmanos, mas apenas 20 pessoas apareceram para apoiá-lo. Havia mais policiais no local para evitar confrontos com um grupo que organizou uma grande contra-manifestação nas proximidades.

Hedegaard e sua Sociedade da Imprensa Livre defenderam o direito do jornal de publicar e protestaram contra aqueles que colocavam parte da culpa pela reação violenta em países muçulmanos, que incluiu ataques a missões diplomáticas dinamarquesas na Síria, Líbano e Irã, na falta de respeito do jornal em relação a questões muçulmanas.

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Os comentários, gravados por um jornalista, mais tarde foram publicados online e levaram a uma ação legal sob a lei dinamarquesa, que proíbe o discurso de ódio racista. Hedegaard foi condenado, mas depois absolvido pelo Supremo Tribunal Federal.

Por email, ele não negou ter feito as observações que levaram à sua acusação, mas disse que não tinha dado permissão para elas fossem publicadas. Ele disse que estava cético de que os muçulmanos mudariam suas atitudes, ou se até mesmo poderiam se acomodar às normas europeias.

"No Islã, a palavra 'moderado' nunca existiu ", disse Hedegaard. "Pode haver alguma diferença de opinião entre os muçulmanos, mas como em um sistema totalitário de pensamento, o Islã tem permanecido inalterado por pelo menos 1,2 mil anos."

Por Andrew Higgins

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