Restauração de templos tibetanos budistas causa polêmica no Nepal

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Alguns estudiosos de arte tibetana dizem que projeto que visa a reconstruir dois locais em Lo Manthang altera importantes murais históricos e compromete seu valor acadêmico

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Dezenas de pintores sentaram-se sobre andaimes perto do telhado de um antigo mosteiro. Com uma pincelada, eles trouxeram cor de volta ao Buda. Ouro para a pele. Preto para os olhos. Laranja para as roupas.

Eles trabalharam com luzes elétricas portáteis. Estátuas de divindades budistas tibetanas contemplavam seu trabalho. Através de alguns vãos no telhado, eixos de luz solar atingiam alguns dos 35 pilares de madeira na sala principal do Mosteiro Thubchen, o mesmo edifício que impressionou Michel Peissel, o explorador do Tibete, quando visitou o local há meio século.

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Mulher trabalha em mural histórico no Monastério de Thubchen, em Lo Manthang, Nepal (07/09/2012)

"No Nepal, ninguém sabe como fazer isso, por isso temos de aprender", disse Tashi Gurung, 34, um pintor que fez parte de um dos mais ambiciosos projetos de arte tibetana no Himalaia.

Financiado pela Fundação Americana do Himalaia, o projeto visa a restaurar a arte de dois dos três principais mosteiros e templos em Lo Manthang, a capital murada do reino de Mustang. Fazendo fronteira com o Tibete no remoto deserto do Himalaia, Mustang é um importante enclave da cultura budista tibetana.

Líderes tibetanos, incluindo o dalai-lama, disseram que sua cultura está sob ataque nas vastas regiões tibetanas governadas pelo Partido Comunista Chinês, que ocupou o Tibete Central, em 1951. Isso, juntamente com o avanço da modernidade, significou que o ato de preservar ou revitalizar a arte tibetana é sem dúvida mais importante atualmente do que em qualquer momento desde a devastadora Revolução Cultural da China.

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O projeto em Lo Manthang abriu espaço para debates. Alguns estudiosos de arte tibetana afirmaram que os pintores no local estão alterando importantes murais históricos e comprometendo seu valor acadêmico ao pintar novas imagens sobre seções de paredes nas quais as imagens originais foram destruídas. Os envolvidos no projeto argumentaram que os moradores querem obras completas em suas casas de culto.

O diretor do projeto é Luigi Fieni, 39, um italiano que começou a trabalhar em Lo Manthang depois de se formar em um programa de conservação de arte em Roma. Fieni e outros ocidentais têm treinado os moradores locais para trabalhar com a técnica, estabelecendo uma equipe de 35 membros, que inclui 20 mulheres e um monge (embora inicialmente tenha havido relutância dos homens locais em relação à participação feminina).

O projeto de arte começou em 1999 com a limpeza de murais no Mosteiro Thubchen após uma rodada inicial de reconstrução da arquitetura. Em seguida, os pintores foram para o Templo Jampa, onde a principal sala do local possui uma estátua imponente de Maitreya, o futuro Buda.

As paredes do primeiro andar são adornadas com mandalas extremamente detalhadas, uma forma de arte geométrica considerada uma representação do cosmos. Foi aí que Fieni decidiu desviar a abordagem inicial realizada em Thubchen. Ele queria que sua equipe, em vez de simplesmente restaurar as estruturas, pintasse trechos das paredes em que um mural original tivesse desaparecido ou sido destruído.

Houve desafios. Pintores de castas superiores inicialmente não queriam artistas de castas inferiores sentados nos andaimes acima deles. E também houve crenças religiosas que precisaram ser acomodadas. Nos edifícios, um abade usou um espelho para absorver os espíritos dos deuses nas estátuas e imagens antes de a pintura começar. Depois que o projeto estiver concluído, espera-se que o abade liberte os espíritos do espelho para que possam voltar.

A abordagem de Fieni para restaurar os templos e mosteiros tem sido contestada. Christian Luczanits, curador sênior do Museu Rubin de Arte de Nova York, que exibe arte do Himalaia, relata ter ficado perplexo com o que viu quando visitou Mustang, em 2010 e 2012.

Luczanits disse que as pinturas originais não receberam o tratamento que mereciam. Agora, por causa da nova pintura, qualquer estudioso que quiser estudar as obras originais deverá recorrer a fotografias em vez de confiar na arte presente no templo, disse. "Depois da restauração, o templo já não pode ser compreendido sem a documentação anterior", afirmou.

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Estátua tibetana é vista na entrada do Monastério de Thubchen, em Lo Manthang, Nepal (07/09/2012)

No ano passado, ele expressou sua opinião em uma reunião no palácio em Lo Manthang. Entre os presentes estavam Fieni, um abade, o príncipe do Mustang e representantes da Fundação Americana do Himalaia, que oferece apoio financeiro a muitos projetos de desenvolvimento em Mustang. (A presidente da fundação, Erica Stone, afirmou que o total a ser gasto com as obras de renovação do edifício em Lo Manthang é US$ 2,58 milhões. Um adicional de US$ 768 mil foram gastos para restaurar o muro da cidade e para construir a drenagem).

Houve um debate vigoroso, e a família real e o abade apoiaram Fieni. O príncipe cerimonial Jigme Singi Palbar Bista disse que os edifícios "foram renovados perfeitamente".

O tempo para pintar o Mosteiro Thubchen deve demorar ainda mais três ou quatro anos, mas o orçamento do projeto deve acabar neste ano. Fieni estimou que ainda há um total de cerca de 278 metros quadrados de parede para pintar.

Ele disse que pensava em mudar seu foco para projetos de restauração na Índia ou Mianmar com alguns dos pintores que havia treinado em Lo Manthang. Em 2006 e 2007, ele levou cinco deles para trabalhar em um mosteiro tibetano na Província de Sichuan, no oeste da China, um projeto que não chegou a ser concluído pelo fato de as autoridades chinesas terem fechado o acesso para a área depois de um levante tibetano em 2008.

Por Edward Wong

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