Morte de soldados sírios no Iraque reflete que conflito se espalha por região

Por iG São Paulo |

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Grupo sunita de militantes no Iraque filiado à Al-Qaeda reivindica responsabilidade pela morte de dezenas de soldados sírios

Um grupo sunita de militantes jihadistas no Iraque revindicou a responsabilidade pela morte de dezenas de soldados sírios que haviam procurado segurança temporária no lado iraquiano da fronteira no início do mês, vangloriando-se sobre o massacre em uma mensagem na internet, que fazia referências humilhantes para xiitas da seita alauíta do presidente Bashar al-Assad.

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A mensagem do grupo, o Estado Islâmico do Iraque, que é afiliado à Al-Qaeda, refletiu o sentimento sectário que vem se espalhando a partir do conflito sírio, em que insurgentes da maioria sunita estão lutando para derrubar Assad e sua minoria alauíta, uma ramificação do Islã xiita. O conflito, agora atingindo dois anos de duração, tem se tornado central para uma luta sunita contra xiitas no Oriente Médio.

AP
Reprodução de vídeo mostra soldado do governo sírio morto em academia de polícia em Khan al-Asal, na Província de Aleppo (03/03)

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A revindicação de responsabilidade do grupo pelo massacre, um dos piores episódios de violência para além da fronteira no conflito até o momento, coincidiu com a notícia de um decreto religioso do grande mufti da Síria, o xeque Ahmad Badr al-Din Hassoun, que é sunita, mas está intimamente ligado ao governo de Assad. No decreto, Hassoun exortou "a todas as mães e pais na terra natal" a inscreverem seus filhos no Exército sírio para derrotar o que ele chamou de uma conspiração de inimigos estrangeiros, inclusive árabes traidores, os sionistas e ocidentais.

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O decreto é notável, pois sugere que as Forças Armadas de Assad precisam de mais recrutas e pode começar a cumprir rigorosamente as leis de serviço militar obrigatório pela primeira vez desde que o conflito começou.

Hassoun emitiu o decreto em uma declaração do Conselho de Dar al-IFTA, o mais alto órgão oficial muçulmano na Síria ligado ao governo. Ele foi lido em noticiários da televisão síria com um pouco da mesma linguagem jihadista usada por insurgentes sunitas para recrutar mais lutadores. Hassoun repetiu as mesmas ideias em entrevistas na televisão síria e a agência de notícias oficial SANA.

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"Hoje, estamos lutando em várias frentes", disse Hassoun, cujo filho sofreu uma emboscada e foi morto por insurgentes sírios em outubro de 2011. "Contra nossos primos que nos traíram e alguns filhos desta nação que sofreram lavagem cerebral e cujas identidades foram eliminadas e estão sentados com os franceses, britânicos e americanos, pedindo-lhes armas para destruir e desmantelar a Síria e para dividir o mundo muçulmano e árabe."

Aparentemente referindo-se às nações árabes sunitas que apoiam os insurgentes, especialmente a Arábia Saudita e Catar, ele disse que "ter a Síria, terra de mensagens divinas, como alvo,é, basicamente, ter como alvo toda nação árabe e islâmica".

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O tráfego de mídia social da Síria aumentou em relação ao decreto Hassoun, especialmente por parte de jovens na Síria, que manifestaram preocupação em serem apreendidos em postos de controle e forçados a se alistarem. Um grupo antigovernamental publicou uma imagem alterada no Facebook de uma apresentadora de televisão síria de notícias em um canal pró-governo vestindo um hijab com uma legenda brincando que era a sua "nova roupa após a chamada de mufti para o jihad."

Em uma publicação em fóruns jihadistas sobre o massacre de 4 de março, o Estado Islâmico do Iraque descreveu como seus combatentes tinham feito atraído o comboio de soldados sírios para a emboscada na província iraquiana de Anbar. Os soldados estavam viajando sob escolta militar iraquiana de volta para a fronteira com a Síria e haviam se abrigado no Iraque um dia antes de um ataque insurgente em um outro posto, na fronteira com a província iraquiana de Nínive.

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De acordo com uma transcrição da publicação pelo Grupo de Inteligência SITE, um serviço, em Bethesda, Maryland, que monitora o tráfego da internet jihadista, o Estado Islâmico do Iraque detonou bombas que atingiram o comboio de ônibus, e, em seguida, abriram fogo contra os ocupantes com armas de médio alcance e lança-granadas. Pelo menos 42 soldados sírios e oficiais e 14 iraquianos foram mortos.

O tema do conflito sectário também foi sublinhado em um relatório atualizado sobre a Síria divulgado no início do mês por um painel da ONU do Conselho de Direitos Humanos em Genebra, que disse que os assassinatos em massa, alguns deles de natureza sectária, haviam se espalhado por comunidades locais através de "Comitês Populares" que agem como forças auxiliares do governo.

"A guerra mostra todos os sinais de um impasse destrutivo", disse Paulo Pinheiro, investigador brasileiro de direitos humanos que lidera o painel do inquérito sobre a Síria. "Nenhuma das partes parecem capazes de prevalecer sobre a outra militarmente. O resultado tem sido um aumento no uso da força na crença equivocada de que a vitória está ao nosso alcance."

Como resultado, de acordo com o relatório do painel, as regiões em que civis poderiam encontrar refúgio do conflito violento diminuíram nos últimos dois meses. Pinheiro disse que o painel estava investigando cerca de 20 massacres, alguns deles aparentemente cometidos pelo lado insurgente.

A captura de 21 funcionários da ONU pelas forças rebeldes no início do mês na região de Golan, disputada entre a Síria e Israel foi "emblemático do aumento da imprudência com que os lados em conflito tratam a vida humana", disse Pinheiro ao conselho.

Por Hania Mourtada e Rick Gladstone

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