Você pode beijar a tela: aumenta demanda por casamentos via internet

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Por meio de um arranjo legal, casais estrangeiros estão firmando compromisso via internet, prática recente que já é vista como desafio para autoridades de imigração

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Com um véu vermelho bordado estendido sobre seu cabelo escuro, Punam Chowdhury prendeu a respiração no mês passado quando seu noivo disse as palavras que os tornariam marido e mulher. Depois de sua resposta, eles se casaram. Os hóspedes aplaudiram, a noiva e o noivo trocaram sorrisos tímidos. De repente, a conexão da internet caiu e o casamento foi abruptamente interrompido.

Normalmente um dos momentos mais íntimos que duas pessoas podem compartilhar, o casamento, ocorreu em lados opostos do globo através do programa Skype, com Punam, uma cidadã americana, em uma mesquita em Jackson Heights, Queens; e seu novo marido, Tanvir Ahmmed, em sua sala de estar com um juiz da sharia em Bangladesh, seu país natal.

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Em Nova York, Punam Chowdhury reza durante seu casamento via Skype com Tanvire Ahmmed, que está em Bangladesh

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O namoro, como tantos outros, aconteceu quase que inteiramente pela internet – eles chegaram a se encontrar pessoalmente apenas uma vez, anos antes, de passagem. Mas, em uma reviravolta que ressalta a capacidade da tecnologia de desestruturar noções tradicionais sobre o romance, os internautas não estão apenas encontrando parceiros pelo computador, mas também estão se casando.

Um arranjo legal permite que um homem e uma mulher possam se casar mesmo na ausência de um ou de ambos os cônjuges. Isso de fato acontece faz séculos: Um dos exemplos mais famosos foi entre Luís 16 e Maria Antonieta, que se casaram em sua Áustria natal na sua ausência, antes de ela ter sido chamada para encontrá-lo na França. Casamentos via telégrafo também já foram documentados.

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O procedimento foi utilizado com pouca frequência nos Estados Unidos, geralmente por militares preocupados em serem mortos e deixarem entes queridos sem benefícios. Mas está cada vez mais sendo utilizado em comunidades de imigrantes, nas quais as pessoas procuram se casar com parceiros de sua terra natal, sem as despesas de viagens dos encontros no exterior.

Tal conveniência também levantou preocupações na medida em que facilita fraudes de casamento – algo que já é um desafio para as autoridades de imigração - e torna mais fácil de seduzir mulheres vulneráveis em redes de tráfico.

A prática é tão nova que algumas autoridades de imigração disseram que não sabiam que ela sequer acontecia e não providenciavam nenhum tipo de atenção extra para garantir que esses tipos de casamentos não sejam utilizados para conseguir a cidadania americana. Mas mesmo aqueles que realizam ou organizam essas cerimônias têm manifestado reservas sobre o quanto a prática tem se tornado mais difundida.

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Tecnicamente, o casamento Chowdhury-Ahmmed "aconteceu" em Bangladesh, onde foi registrado legalmente, e não em Nova York, onde a prática não é permitida. Apenas alguns Estados permitem casamentos dessa forma e a maioria requer que um dos parceiros seja militar. Mas os Estados Unidos geralmente reconhecem casamentos estrangeiros, desde que eles sejam legalmente conduzidos do exterior e não rompam nenhuma lei nacional.

George Andrews, o gerente de operações da Proxy Marriage Now, uma empresa em Fayetteville, Carolina do Norte, que facilita tais uniões ao redor do mundo por uma taxa, disse que tecnologias como o Skype colaborava para o crescimento dos casamentos desse tipo. Nos sete anos de existência da empresa, os negócios aumentaram de 12% a 15% anualmente entre 400 e 500 casamentos por ano. A ação não envolvendo alguém do Exército cresceu para 40%.

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A prática do casamento por procuração é particularmente difundida em países islâmicos, onde o Alcorão explicitamente o apoia. "Depois de todos estes avanços na tecnologia e todos os tipos de ferramentas de telecomunicações, os estudiosos chegaram à conclusão de que é algo aceitável", disse o imã Ali Shamsi, do Jamaica Muslim Center, no Queens.

Há aqueles que se opõem à prática por motivos tradicionais. "Parece estranho. Eu sinto que um casamento dá início para sua nova vida juntos como casal e não separados", disse Angela Troia, que é dona da Companhia de Casamento, uma loja em Manhasset, Nova York, em Long Island, que vende convites e ofertas de planejamento de orientação para muitos casais do Queens. "Eu acho que tira o significado de casamento."

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Punam Chowdhury se prepara para seu casamento via Skype com Tanvire Ahmmed, em Nova York

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Mas Chowdhury, 21 anos, e Ahmmed, 31 anos - o casal que fingia dar um pedaço do bolo de casamento para o outro através de garfadas para suas telas de computador -, se sentiram em um casamento tradicional. Chowdhury observou que sua tia se casou da mesma maneira, muito antes da era da internet, por telefone.

Observando a partir da tela de um laptop, Ahmmed concordou. "Essa é minha legítima esposa", disse. Na última palavra, sua noiva soltou um grito de alegria.

Por Sarah Maslin Nir

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