Traumas sexuais levam veteranas do Exército ao abandono nos EUA

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Mulheres que serviram no Exército são segmento que mais cresce entre os sem-teto, mas são invisíveis para a sociedade, porque se refugiam em abrigos ou em sofás de amigos

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Em sua memória, Tiffany Jackson guarda uma lembrança dos tempos em que arranjou um trabalho, por um curto período, depois que deixou o Exército. Nesta época, ela ainda usava sapatos elegantes e blusas com golas altas e trabalhava em um arranha-céu com vista panorâmica.

Dois anos mais tarde, ela viveu um período de irritação e alcoolismo e deixou o emprego. Tiffany começou a sair com usuários de cocaína e se tornou uma viciada, passando a viver no infame bairro de Skid Row, em Los Angeles.

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Tiffany Jackson, veterana que ficou sem-teto, segura uma foto dela mesma com uniforme, em Palmdale, Califórnia

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"Você se sente impotente para impedir isso de acontecer", disse sobre os eventos que a levaram de ter um apartamento próprio a dormir em hotéis decadentes e, depois, por um ano, nas ruas, onde se juntou às fileiras crescentes de mulheres veteranas sem-teto.

Mesmo agora, quando Pentágono considera acabar com a proibição de mulheres em funções de combate, as veteranas já enfrentam um campo de batalha diferente: elas são agora o segmento de mais rápido crescimento da população de rua, um grupo muitas vezes invisível que vive no sofá de amigos, passa a noite em banheiros públicos, vive em carros e aprende a estacionar discretamente na periferia de centros comerciais para evitar a violência das ruas.

Enquanto os veteranos repatriados se tornam sem-teto em grande parte por causa do abuso de drogas e doenças mentais, os especialistas dizem que as veteranas enfrentam outros problemas além destes, incluindo a busca de habitação familiar e mais dificuldades em encontrar empregos bem remunerados. Outro fator que leva veteranas às ruas, segundo os pesquisadores e psicólogos, é o trauma sexual militar, ou MST na sigla em inglês, advindos do assédio durante seu tempo em serviço, o que pode levar ao estresse pós-traumático.

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O trauma sexual colocou Tiffany nesse caminho. No início, ela pensou que poderia deixar o "incidente" para trás. A memória daquela noite fresca de agosto na Base Aérea Suwon, na Coreia do Sul, quando, segundo ela, um militar a agarrou pela garganta no banheiro feminino de um bar e a estuprou barbaramente no chão encharcado de urina. Mas, nos sete anos que viveu sem- teto, ela descobriu que não conseguiria esquecer.

Dos 141 mil veteranos em todo o país que passaram pelo menos uma noite em um abrigo em 2011, quase 10% eram mulheres, de acordo com o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano, um aumento significativo em relação aos 7,5% registrados em 2009. Em parte, é um reflexo da mudança da natureza das forças militares americanas - das quais as mulheres constituem agora 14% das forças da ativa e 18% das forças da reserva.

Mas as veteranas também enfrentam uma complexa "teia de vulnerabilidade", disse Donna Washington, professora de medicina da Universidade da Califórnia e médica do Centro de Veteranos Oeste, de Los Angeles, que estudou formas como as mulheres se tornam sem-teto, incluindo a pobreza e o trauma sexual militar.

As veteranas são muito mais propensas a serem mães solteiras do que os homens. No entanto, mais de 60% dos programas habitacionais transitórios que recebem subvenções do Departamento de Assuntos de Veteranos não aceitam crianças ou restringem a sua idade e número, de acordo com um relatório de 2011 do Escritório de Responsabilidade do Governo.

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A falta de postos de trabalho para as veteranas também contribui para a falta de moradia. Jennifer Cortez, 26, que foi condecorada por sua atuação como sargento do Exército, quando treinou outros soldados, teve dificuldade em encontrar trabalho desde que deixou o serviço ativo em 2011. Ela dorme em um colchão de ar na sala da casa de sua mãe sob as 12 medalhas que conquistou em oito anos, incluindo dois turnos no Iraque. Anúncios de emprego de salário mínimo a deixam alarmada. "Eu penso: 'Sério, é só isso?'", contou. "Eu servi o meu país. Então, varrer o chão é meio difícil."

Não querendo ser um fardo para sua família, ela viveu brevemente em seu carro, o único espaço pessoal que tem. "É assim que fazemos quando necessário", disse.

Dupla traição

Das mais de vinte veteranas entrevistadas pelo The New York Times, 16 disseram que foram vítimas de violência sexual em serviço, e uma afirmou que sofreu perseguição. Um estudo realizado pelo governo descobriu que 53% das veteranas sem-teto tiveram algum tipo de trauma sexual quando militares, e que muitas outras entraram para as Forças Armadas para escapar de conflitos familiares e abuso.

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Lauren Felber, veterana do Exército que não tinha aonde morar, espera em um ponto de ônibus em Los Angeles

Para quem desejava melhorar sua vida, ser abusada sexualmente servindo o seu país é "uma dupla traição da confiança", disse Lori Katz, diretora da Clínica de Saúde da Mulher e co-fundadora do Renew, um programa de tratamento inovador para veteranas com MST. Reverberações de tais experiências, muitas vezes desencadeam uma espiral descendente para as mulheres envolvendo álcool e substâncias químicas, depressão, abuso e violência doméstica, acrescentou.

Jackson recebeu aposentadoria por invalidez devido ao estresse pós-traumático com sua dispensa por trauma sexual - embora os benefícios militares terem sido inicialmente negados.

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Ela cresceu em uma área difícil de Compton, na Califórnia, e serviu como operadora de equipamento pesado no Exército, animada por seu senso de domínio em um ambiente dominado por homens. Mas depois do estupro - que manteve para si mesma, não contando nem mesmo para sua família - seu comportamento mudou. Ela agrediu um sargento, resultando em ações disciplinares. Já em casa, ela perdeu o emprego em vendas depois que desmaiou, bêbada, durante uma chamada de telefone da empresa. "Parecia que tudo estava certo", disse. "Mas eu estava morrendo por dentro."

Ela passou três anos na prisão por tráfico de drogas e, finalmente, confidenciou seu segredo a um psiquiatra da prisão, que a ajudou a ver que muitas de suas decisões erradas tinham raíz no trauma sexual.

"Eu percebi que precisava de ajuda", contou. Hoje, finalmente estável aos 32 anos, ela vive confortavelmente na casa de sua mãe em Palmdale, ao norte de Los Angeles. "Mas para chegar aqui foi difícil."

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Complicações familiares

As veteranas enfrentam mais uma complicação: o Congresso autorizou os Centro de Assuntos Veteranos a cuidar delas, mas não de suas famílias. Mulheres esperam uma média de quatro meses para garantir habitação estável, deixando aquelas com filhos em maior risco de falta de moradia. Monica Figueroa, 22 anos, ex-paraquedista do Exército, vivia na oficina de um parente em Los Angeles, dando banho em seu bebê Alexander em uma pia utilizada para o despejo de óleo e solventes, até que, com ajuda, encontraram alojamento temporário.

Michelle Mathis, 30 anos, mãe solteira de três filhos, passou por sete lugares temporários desde que voltou para casa em 2005 com uma lesão cerebral traumática. MIchelle, que serviu como uma especialista em química no Iraque, depende de um dispositivo de GPS para ajudá-la a lembrar o caminho para o supermercado e para a escola de seus filhos.

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Ela disse que não se sentia segura em um abrigo com os filhos, e, por isso, vivem em um quarto alugado de um amigo que está perto do despejo. O único lugar onde Michelle disse que se sente realmente em casa é com suas companheiras no Centro Médico para Veteranos. Como ela não pode pagar uma creche, vai a seus médicos com o filho, Makai, a tiracolo.

Um batalhão de emocional

Mas mudanças em Washington podem não ser suficientes. E um teto nem sempre é tudo o que falta. Nos arredores de Long Beach, na Califórnia, um grupo nacional sem fins lucrativos, os U.S. Vets, criou alojamento para famílias em risco em Cabrillo, uma antiga habitação naval, com um programa especial para veteranas sem-teto.

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Mas os diretores logo ficaram perplexos com o grande número de mulheres que precisavam de ajuda. "Começamos a entender que muitas delas sofreram trauma sexual", disse Steve Peck, presidente do grupo. "A incapacidade de lidar com esses sentimentos tornou o recomeço impossível para elas."

O resultado foi o Renew, uma colaboração com o centro de Long Beach. Ele incorpora psicoterapia, a manutenção de um diário e exercícios de ioga, e aceita mulheres que passaram pro algum trauma sexual militar. Cerca de dez mulheres vivem juntas por 12 semanas, enquanto passam oito horas por dia na clínica de saúde mental, "onde podem chorar sem ter que encontrar um grupo de homens com sua maquiagem borrada", explicou Katz.

Com Katz e outros guias, as mulheres formaram um batalhão emocional e se posicionam contra inimigos invisíveis: o medo, a solidão, a desconfiança, a raiva e, o pior, o coração endurecido.

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Sara Fuller, veterana sem-teto, com seu bebê Angel em um abrigo em Cabrillo Village, em Long Island

Na formatura do programa em dezembro, realizada em uma sala de terapia, nove mulheres falaram com emoção sobre sua escolha de força sobre a fragilidade. Cindi, uma oficial da Força Aérea com um mestrado, disse que tinha sofrido intimações e ostracismo de uma superior do sexo feminino. Depois de deixar os militares, ela caiu em um casamento violento e precisou viver em sofás de casas alheias por um tempo.

Depois de anos de decepção, Cindi estava finalmente pronta para tentar novos caminhos. "Eu sou mais do que a soma de minhas experiências", ela leu de seu diário, parecendo evocar a história de cada veterana desabrigada. "Eu sou mais do que o meu passado."

Por Patricia Leigh Brown

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