Quando cardeal, papa deu apoio pragmático a união civil de casais gays

Por NYT | - Atualizada às

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Ao sugerir em 2010 que a Igreja argentina deveria apoiar união civil de casais homossexuais, o cardeal Jorge Mario Bergoglio se mostrou um conciliador disposto a fazer compromissos

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A ideia era um anátema para muitos dos bispos na sala. A Argentina estava à beira de aprovar o casamento homossexual e a Igreja Católica estava desesperada para impedir que isso acontecesse. Isso levaria dezenas de milhares de seus seguidores a protestarem nas ruas de Buenos Aires e condenar publicamente a proposta de lei, uma ameaça direta para o ensino da Igreja, como sendo obra do diabo.

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Mas, nos bastidores, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje papa Francisco, que liderou a acusação pública contra a medida, defendeu, em uma reunião de bispos em 2010, uma solução altamente não ortodoxa: a de que a Igreja na Argentina apoiasse a ideia de uniões civis para casais homossexuais.

A concessão criou alvoroço durante o encontro - e ofereceu uma visão do estilo de liderança que ele poderá levar para o papado.

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Poucos sugerem o papa Francisco não seja nada menos que um fiel  totalmente favorável às posições da Igreja sobre as principais questões sociais. Mas, à medida que enfrentou um dos testes mais difíceis de sua posse como chefe da igreja da Argentina, também demonstrou um outro lado, disseram apoiadores e críticos: a de um negociador disposto a ceder e a se posicionar em ambos os lados de um debate, inclusive no dos detratores.

Esta abordagem demonstrou nítido contraste com a de seu antecessor, Bento 16, que passou 25 anos como chefe da Igreja doutrinária antes de se tornar papa, e era conhecido por uma aderência inflexível em relação à pureza doutrinária. Francisco, em comparação, passou décadas no campo, responsável por traduzir esses ideais em prática no mundo real, às vezes levando a uma abordagem diferente.

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"A melodia pode ser o mesma, mas a música é completamente diferente", Alberto Melloni, diretor da Fundação católica liberal João 23 para a Ciência Religiosa em Bolonha, na Itália, comentou sobre os papas.

Confrontado com a aprovação quase certa da lei do casamento homossexual, Bergoglio cedeu para a união civil como sendo o "menor de dois males", disse Sérgio Rubin, seu biógrafo autorizado. "Ele apostou em uma posição de maior diálogo com a sociedade."

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No entanto, no fim, a maioria dos bispos votaram para anulá-lo, sua única derrota em seis ano de mandato como chefe da conferência dos bispos da Argentina. Mas durante esse debate político, ele atuou, ao mesmo tempo, como o público opositor à lei e o construtor de pontes, até mesmo apelando pela atenção de seus críticos.

Embora Bento 16 condenasse publicamente o reconhecimento legal de casais heterossexuais não casados e de casais homossexuais, muitas vezes houve uma expectativa de que tivesse alguma discrição em colocar suas posições em prática.

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Enquanto o papa em Roma emitia a doutrina, bispos como Bergoglio estavam "na fronteira, no campo", e tiveram que lidar com as complexidades da política local, disse Sandro Magister, especialista em Vaticano para o jornal L'Espresso na Itália.

Magister observou, por exemplo, que Bento 16 deixou claro em 2005 que os católicos que se divorciaram e se casaram novamente sem uma anulação não deveriam receber a comunhão. Mas Bento 16 não instruiu os bispos sobre a maneira de como isso seria cumprido.

Houve pouca ambigüidade em relação a oposição de Bergoglio para a lei do casamento homossexual, que foi aprovada pelo Senado em julho de 2010. Nos meses entre a reunião dos bispos e a votação no Senado, o cardeal, em uma carta, chamou o projeto de lei de "uma pretensão destrutiva contra o plano de Deus".

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Ao ir contra a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que apoiou a lei, ele endossou protestos envolvendo milhares contra o projeto de lei, provocando a ira de alguns líderes dos direitos dos homossexuais em Buenos Aires, Argentina.

Bergoglio estava operando em um dos países mais socialmente liberais da América Latina. Embora o catolicismo continue sendo a religião oficial do Estado e 76,8 % da população da Argentina seja católica, apenas 33% citaram a religião como sendo muito importante em suas vidas, de acordo com um estudo do Pew de 2010, e apenas 19% disseram que frequentavam regularmente à missa.

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Embora o apoio do arcebispo para uniões civis tenha sido compartilhado por alguns dos bispos mais liberais na reunião, ele foi derrotado pela maioria, refletindo a resistência ampla dos bispos conservadores.

Quase três anos desde a aprovação da lei, mais de mil casais de homossexuais se casaram na Argentina, e o turismo especializado para turistas homossexuais tem aumentado na cidade de Buenos Aires, com cerca de 50 casais de turistas também tirando proveito do direito de se casar. "Isso é algo que Roma não consegue perdoar, tolerar ou permitir que continue", escreveu Alessio.

Por Simon Romero e Emily Schmall

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