Oito anos após Katrina, vítima tenta vencer burocracia para reconstruir casa

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Enquanto moradores do nordeste dos EUA se preparam para retornar aos seus lares após tempestade Sandy, Errol Joseph encara sua própria história como um conto de advertência

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Errol Joseph tem maçanetas. Ele também possui portas, assim como uma banheira e duas pias, um pouco de massa corrida, um aquecedor de água, tubos, um compressor de ar condicionado e grandes rolos de fita de isolamento. Ele se encontra sentado em uma cabana.

Há poucas quadras, fica a estrutura de sua casa, onde todos esses itens deveriam estar instalados. Mas isso não é possível há anos por causa de licenças, procedimentos, políticas, normas e todas as excêntricas exigências da burocracia. 

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Erroll Joseph e sua mulher, Esther, do lado de fora de sua casa no bairro de Lower Ninth Ward, Nova Orleans (4/12/2012)

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À medida que os moradores do nordeste do país começam a voltar para suas casas depois do furacão Sandy, há aqueles que, como Joseph, estão interessados em avisar que a recuperação poderá ser muito mais difícil do que imaginam. Joseph vê a sua história como um conto de advertência, embora admita que não sabe o que poderia, ou deveria, ter feito de forma diferente. "Faça a coisa certa e fique aonde está", disse Joseph.

Nova Orleans, que teve quatro quintos de sua superfície embaixo d’água há apenas 7 anos e meio, em sua maior parte se recuperou de uma forma extraordinariamente positiva: o aeroporto foi renovado, restaurantes e boates estão surgindo pela cidade, novas escolas e bibliotecas estão sendo abertas, e um mar de guindastes marca a construção de um novo complexo médico. Em algumas medidas, a cidade está muito melhor do que antes do furacão Katrina.

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Mas passar por esta recuperação foi para muitos um desafio diário: cansativo, irritante e lento. Alguns desistiram e nunca mais voltaram. Outros, como Joseph, ainda passam por diversas dificuldades.

Tudo começou com o planejamento urbano. Nesses primeiros meses, as comissões de reconstrução consideraram planos nos quais alguns bairros de Nova Orleans poderiam ser convertidos em espaços verdes, incluindo o quarteirão de Joseph ao lado do rio da cidade, conhecido como a região do Lower Ninth Ward. Seu credor hipotecário pediu a restituição imediata do empréstimo mais o pagamento de uma penalidade. Todo seguro contra a inundação foi para isso.

Eventualmente, os moradores foram autorizados a voltar. Joseph restaurou sua casa e passou vários anos tentando provar para a cidade que ela poderia ser salva. No início de 2009, foi concedida uma licença de reconstrução.

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Durante essa época, Joseph havia recebido US$ 26 mil de outra seguradora e uma subvenção para reconstrução de US$ 55 mil do Road Home, programa financiado pelo governo federal para ajudar os proprietários de casas. Ele também recebeu uma doação de US$ 30 mil para iniciar o trabalho de elevar sua casa acima do nível de inundação.

Tudo isso não chegou a US$ 90 mil, quantia que seria necessária para cobrir todos os custos dos danos. Seria mais um ano antes de um juiz federal decidir que os cálculos da Grant Home provavelmente eram influenciados pela discriminação de moradores afro-americanos, o que levou o Estado a ajustar sua fórmula.

Mas Joseph, que passou sua vida inteira reformando casas, percebeu que poderia fazer isso sozinho e estaria de volta à sua casa naquele verão. Ele passou a maior parte da reconstrução de sua casa comprando materiais, incluindo janelas e telhas. Na primavera de 2009, ele elevou a estrutura da casa, deixando-a apoiada em um estrado de madeira.

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Antes de avançar com o projeto, ele contatou o Estado para uma inspeção, como havia sido instruído. Então os inspetores apareceram. "'Não faça nada com essa casa até obter uma carta de continuidade'", ele lembrou de um inspetor ter dito. "Ele disse isso três vezes. E afirmou que eu perderia todo meu dinheiro se não fizesse o que ele tinha mandado. "

Então Joseph não fez nada na casa. Meses se passaram. Nenhuma carta chegou. O inspetor desapareceu. Autoridades negaram que alguém tenha lhe dito algo sobre a carta de continuidade, segundo Joseph, que em suas regulares visitas aos gabinetes governamentais pediu, por escrito, uma autorização para continuar o seu projeto de qualquer maneira.

Em 2010, como ele não poderia fazer o trabalho sozinho, Joseph elaborou um contrato com um especialista em elevação de estruturas. Mas a permissão do Estado para avançar continuava sendo uma ilusão. “Sua papelada está no sistema", disseram a Joseph.

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Embora Joseph não soubesse disso, sua papelada estava parada há meses no processo de liberações federais, mas as razões para isso continuam sendo um mistério.

Em 2011, um oficial do Estado concluiu definitivamente que o inspetor estava errado.Joseph poderia oficialmente avançar na reconstrução. Mas, primeiro, ele foi informado que teria que devolver US$ 40 mil para o Estado.

A Road Home havia acidentalmente pago a ele essa quantia em excesso, segundo ele foi informado. Joseph não tinha essa quantia. Outro ano se passou. Em 2012, o Estado mudou sua política e deixou de exigir o reembolso de pagamentos acidentais.

Oficiais do Estado são proibidos de discutir os detalhes de casos individuais, mas Christina Stephens, porta-voz do Gabinete do gabinete de Preparação de Segurança e Emergência da Nação, escreveu em um e-mail:

"Nos encontramos com o senhor Joseph nos mais altos níveis do programa durante algumas vezes para tentar avançar o seu caso. Temos recomendado alguns caminhos para o senhor Joseph que deverão ajudá-lo a se preparar para futuros desastres, e estamos esperançosos de que ele utilizará um desses caminhos para completar a sua casa (usando os fundos de subvenção do Estado)."

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Há alguns meses, Joseph ficou sabendo que o Estado enviou um engenheiro para sua casa. O engenheiro determinou que custaria mais de US$ 20 mil apenas para corrigir os problemas causados pela elevação da estrutura da casa ter sido colocada erroneamente por tanto tempo. Joseph não teria que arcar com os custos, mas o funcionário que trabalharia no seu caso sugeriu um novo plano. "Ele me disse que a melhor coisa a se fazer é construir uma nova casa", disse.

E esta é a situação atual de Joseph: Ele está para assinar um contrato de US$ 250 mil com um construtor pela nova casa, embora ele economize alguns custos pois uma organização sem fins lucrativos, lowernine.org, doaria muito do trabalho de graça.

Ele poderá vender, pelo menos seus materiais de construção ainda utilizáveis para o contratante. O Estado fornecerá cerca de US$ 60 mil em dinheiro de concessão adicional. Joseph provavelmente teria que ter uma quantia de US$ 40 mil ou mais para que tudo possa ocorrer de acordo com o planejado. E assim que tiver essa quantia, poderá começar a construir sua nova casa.

Por Campbell Robertson

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