Mesmo alheio à Cúria, papa Francisco terá de enfrentar burocracia do Vaticano

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Conhecido pelo caráter pastoral e popular, não está claro se o novo pontífice terá coragem necessária para enfrentar os problemas organizacionais e a corrupção do Vaticano

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Ao escolher o primeiro papa do Novo Mundo, os cardeais da Igreja Católica enviaram uma forte mensagem de mudança: de que o futuro da igreja se encontra no sul do globo terrestre e que um erudito, com um toque de homem comum, pode ser a sua melhor opção para inspirar os fiéis.

Mas ainda não ficou claro se seu mandato se estenderá até a cúpula do Vaticano, e se o cardeal Jorge Bergoglio, que se tornou papa Francisco em 13 de março, terá a coragem necessária para enfrentar os problemas organizacionais e a corrupção que tomaram conta dos oito anos do papado de Bento 16.

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Bergoglio nunca passou tempo lidando com a burocracia, a Cúria, e depois de ter ficado em segundo lugar no conclave de 2005, que elegeu Bento 16, expressou alívio por não ter que enfrentar essa possibilidade.

“Eu morreria na Cúria,” ele disse em uma entrevista à mídia italiana. “Minha vida é em Buenos Aires. Sem as pessoas da minha diocese, sem os seus problemas, sinto que falta algo todo dia.”

De muitas maneiras, Bergoglio - o primeiro a levar o nome de Francisco, em homenagem ao santo que fez voto de pobreza - parece ser o contrário de Bento. Ele é uma figura pastoral conhecido por ser um bom comunicador, que poderia ter mais sucesso em reverter a situação da Igreja, mesmo sem uma grande mudança em sua doutrina. Com essa escolha, é como se os cardeais tivessem aproveitado uma segunda chance.

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"O reino dos estudiosos acabou, este é o reinado dos pastores, um afastamento do papa teólogo”, disse Alberto Melloni, autor de vários livros sobre o Vaticano e o Concílio Vaticano 2º. "O fato é que ele foi um candidato minoritário na eleição de 2005. É como se dissessem: 'A última vez erramos, então, desta vez, precisamos acertar antes que seja tarde demais."'

Antes do conclave, muitos especialistas do Vaticano afirmavam que a disputa era entre um papa que faria uma limpeza na burocracia do Vaticano ou um burocrata que protegeria os interesses da Cúria. Aqueles que eram favoráveis à reforma, segundo os especialistas, apoiavam Angelo Scola, cardeal italiano que poderia ter a experiência e a força necessárias para reduzir os privilégios e limitar a burocracia.

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Os tradicionalistas seriam favoráveis a outro sul-americano, o cardeal brasileiro dom Odilo Scherer, que traria a mesma mudança simbólica de Francisco, mas estaria mais próximo da hierarquia romana que controla as operações diárias do Vaticano.

O lugar de Francisco nesse espectro é incerto. Para alguns, ele é visto como uma escolha segura: o mais próximo vencedor do último conclave, um prelado humilde e popular, que encorajaria uma nova evangelização sem ameaçar a burocracia do Vaticano ou insistir em mudanças em respostas aos escândalos sexuais e administrativos.

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Se o ânimo da América Latina diante sua eleição for um indicativo, ele é capaz de fazer imensos avanços em divulgar a fé, se comparado a Bento 16. Sua breve aparição na varanda da Basílica de São Pedro, quando pediu aos fiéis que o abençoassem, reforçou esse ponto.

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Não importa a sua inclinação: Francisco enfrenta uma série imensa de desafios deixados por seu antecessor: a escassez de sacerdotes, o aumento no secularismo em um ocidente que cada vez mais vê a Igreja como fora de contato com a realidade, a crescente concorrência de igrejas evangélicas no Hemisfério Sul e a crise dos abusos que minaram a sua autoridade moral.

John Thavis, autor de "O Diário do Vaticano" e um analista veterano do Vaticano, disse que durante a semana de Congregações Gerais que antecederam o conclave, Francisco havia impressionado seus colegas cardeais com suas ideias sobre como a Igreja – e o Vaticano - poderiam melhorar.

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"Eu acho que de certa maneira ele é um estranho para a Cúria Romana" disse Thavis. "E acho que ele provavelmente deixou claro para os cardeais que iria fazer as coisas de forma diferente no Vaticano."

Por Rachel Donadio

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