Novo líder da Venezuela mimetiza Chávez enquanto busca própria identidade

Nicolás Maduro adotou gestos, roupas e até os ataques aos EUA de seu antecessor e mentor, mas, segundo especialistas, deve seguir seu próprio caminho

Nas semanas que antecederam a morte de seu mentor , as imitações do vice-presidente Nicolás Maduro se tornaram cada vez mais evidentes.

Ele assumiu muitos dos padrões vocais e do ritmo da fala de Chávez e tem repetido o slogan "Eu sou Chávez" para uma multidão de apoiadores. Ele imitou temas favoritos do presidente - o menosprezo à oposição política e os alertas sobre golpes misteriosos que visariam à desestabilização do país, inferindo até mesmo que os Estados Unidos estavam por trás do câncer de Chávez .

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Foto: AP
Vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, segura uma carta de Hugo Chávez durante aniversário do golpe fracassado de 1992 (4/2/2013)


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Ele também adotou as roupas vestidas pelo presidente, caminhando ao lado de seu caixão em uma procissão enorme na quarta-feira vestindo um blusão com as cores nacionais amarelo, azul e vermelho, como Chávez muitas vezes fazia.

Mas agora que Chávez se foi, a grande questão é se Maduro, seu sucessor escolhido , continuará a espelhar o presidente em seu estilo pouco convencional de governar - ou se seguirá seu próprio caminho.

"Ele não pode simplesmente se posicionar de uma maneira que o faça parecer como uma cópia de Chávez", disse Maxwell A. Cameron, da Universidade de British Columbia, em Vancouver.

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A perplexidade sobre o tipo de líder que Maduro se tornará também preocupa Washington, onde políticos americanos têm prestado atenção no comportamento de Maduro há meses, até mesmo anos, para determinar se ele poderá proporcionar uma maior aproximação entre as duas nações .

Os Estados Unidos estenderam a mão para Maduro em novembro para avaliar o seu interesse em melhorar o relacionamento. Ele respondeu positivamente e as duas nações realizaram três reuniões informais em Washington. A última ocorreu depois que ficou claro que a condição de Chávez era grave, disseram autoridades americanas.

Os venezuelanos queriam voltar a trocar embaixadores, mas Washington insistiu em pequenos passos para construir a confiança e parecia que um plano provisório entraria em vigor, segundo autoridades dos EUA. Mas então as negociações foram paralisadas no início deste ano e ainda não voltaram, deixando as autoridades americanas com dúvidas sobre as verdadeiras intenções de Maduro em relação aos Estados Unidos.

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Nicolás Maduro conversa com Hugo Chávez com quadro de Simón Bolívar ao fundo (foto de arquivo)

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"Maduro está apenas começando a governar e criar sua própria identidade", disse um oficial do Departamento de Estado. "Eu não acredito que tenhamos concluído alguma vez de uma maneira ou de outra se ele realmente era uma influência moderada. O nosso esforço para criar um relacionamento mais produtivo não foi baseado na crença de que seria mais fácil lidar com ele."

A maioria dos diplomatas e analistas políticos concordaram que o início da era pós-Chávez parecia sombrio. Maduro acusou os Estados Unidos de conspirar contra o país e expulsou dois diplomatas americanos . Mas alguns observadores enxergaram tais ações como calculadas - um analista chamou de "deselegante". Para especialistas, foi uma tentativa de tentar unificar um país traumatizado pela morte de Chávez , apelando para os simpatizantes do presidente e impulsionando suas próprias chances de ganhar uma eleição para sucedê-lo.

Entre os executivos do petróleo e analistas, houve um otimismo cauteloso de que a morte de Chávez poderia amenizar a hostilidade que seu governo tinha em relação ao investimento estrangeiro na exploração e refino do petróleo.

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Nas ruas, a grande maioria dos partidários de Chávez disseram que votarão em Maduro, muitas vezes, pelo simples motivo de que Chávez lhes pediu que o fizessem antes de sucumbir ao câncer . Na procissão na quarta, alguns gritavam enquanto o caixão passava, “Chávez, eu juro, eu vou votar Maduro!"

Mas há alguns aliados a Chávez que disseram estar descontentes com Maduro - às vezes por razões que iluminam os inconvenientes inerentes de seu mimetismo político.

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Na cidade oriental de Cumaná na quarta, alguns defensores de Chávez disseram ter se deparado com constantes ataques agressivos de Maduro sobre a oposição política - uma afirmação surpreendente, já que Maduro usa uma linguagem virtualmente idêntica a das frases popularizadas por Chávez, repetindo os mesmos insultos e frases, dizendo que seus adversários "não servem para nada" e os acusando de vender o país para os Estados Unidos.

Mas vindo de Maduro, as mesmas palavras parecem ter um impacto diferente. "Eu não gosto de Maduro, porque eu sinto que ele faz coisas que parecem incitar o ódio, e não um sentimento revolucionário", disse Luis Marcano, 67, um cozinheiro desempregado em Cumaná.

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"Nicolás Maduro é um soldado que tem que obedecer ordens, assim como qualquer outro", disse Rommel Salazar, 40, professor e músico em Cumaná. "Eu vou votar nele porque eu devo obedecer às instruções de Chávez."

Mas ele acrescentou um aviso, dizendo que se Maduro não aderir à conduta definida por Chávez, seus seguidores irão responsabilizá-lo por qualquer erro que aconteça. "Ele vai ser pregado na cruz", disse Salazar.

Por William Neuman e Ginger Thompson

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